7.jpg

O blog O Samba entrevistou o compositor, jornalista e radialista Rubem Confete no Armazém do Senado, no bairro da Lapa, em 1º de setembro de 2007. Entre uma cerveja e outra, o sambista carioca, nascido em Madureira, contou sua história, falou sobre o projeto de lançar um dvd e do atual momento do samba no Rio de Janeiro.

Conta sua história aí Confete….
Nasci em Madureira, na Rua Jabaquara, em dezembro de 1936. Naquele tempo, não havia asfalto, não havia paralelepípedo. Era lama pura. Mas nós tínhamos samba, seresta, choro e muita macumba…

Vocês iam para o terreiro cantar?

Havia diversos terreiros. Eram pequenos, mas vários. Uma tradição forte. O único divertimento que nós tínhamos realmente era música, um campo de futebol e o choro aos domingos. Tinha sempre Moreira da Silva, Jorge Veiga, muitas artistas, que iam de graça. E o samba começa praticamente na rua Dona Clara. Nós tínhamos um bloco chamado Unidos de Dona Clara. Nele, desfilava Wilma Nascimento (porta-bandeira da Portela e da Tradição).

Você lembra de alguma marchinha dessa época?

Pastorinhas, do Braguinha: “A estrela d’alva / No céu desponta / E a lua anda tonta / Com tamanho esplendor”.

Eu lembro do verso de um bloco chamado Samba de Primeira: “Morre que eu velo por ti / Pode dormir / Ainda estás na inocência…”

Era verso de improviso, mas não era tão improviso assim.

Também tinha uma assim: “Muito embora abandonado / Estou conformado / Com a minha dor / Deixa eu viver sozinho / Eu sei viver / Sem seu carinho amor”.

Aí o camarada versava de um lado, outro versava de outro. Era a tônica dos nossos blocos, bem de rua mesmo, bem lama. Muita cachaça, já que cerveja não havia. Ninguém tinha dinheiro para isso. O mau da cachaçada era que, às vezes, saía briga. (risos)

E as escolas de samba?

Eu comecei a freqüentar as escolas de samba também muito cedo. A primeira foi a Paz e Amor, em Bento Ribeiro. O samba era forte. Pastoras de um lado e os homens de outro. Não se juntavam. A porta-bandeira e o mestre-sala ficavam ali no meio, dançando. Os compositores também dançavam. Não tinha microfone, não tinha nada. Foi a Dona Didi, uma baiana, quem me levou ao primeiro samba.

Com 14, 15 anos, fui convidado pelo compositor Fernando Monteiro para ir a outra escola de samba, a Independentes da Serra, na rua Lambaris, ali na Serrinha. O presidente da escola era sogro da Dona Ivone Lara. Já havia o Prazer da Serrinha. Aí fundaram o Império Serrano. Ficou acordado que a escola que tivesse melhor colocação seria a escola da Serrinha. Acabou que a serrinha perdeu para o Império Serrano e tiveram que acabar com a Serrinha.

Houve união…?

Não houve união. No primeiro desfile do Império Serrano, eles foram buscar componentes lá do outro lado da Serrinha. Eu fui para lá. Todo dia tinha um cara que dava dois tiros para o alto e acabava com o samba. Não entendia nada… Eu corria pra casa do Fuleiro (Mestre Fuleiro), que ficava do outro lado da rua. Ele me dizia: “Senta aí moleque, o que você está fazendo nesse samba aí?”

Tinha uma parte da minha família que era da Portela e a outra parte que era do Império Serrano. Fiquei na Portela porque, lá perto de casa, tinha o Arlindão, muito meu amigo, pai do Arlindinho (Arlindo Cruz). Tinha o Monarco, que é três anos mais velho do que eu. Como disse, a outra parte da minha família era do Império, como o Aniceto, meu primo, Aniceto Menezes (lendário Aniceto do Império).

E depois disso?

No ano seguinte veio uma revolução da União das Escolas de Samba, quando ficou proibido o uso de fantasias. Claro que era uma roupa diferente, era tailleur. No morro ninguém sabia o que era tailleur. Era a primeira vez que as mulheres usavam. Eu botava uma camisa, um paletó e desfilava.

Onde era o desfile nessa época?

Nessa época ia da Praça Onze até a Central. O desfila tinha de 90 a 100 pessoas. Mas não me liguei muito nessa coisa de samba. Eu me voltei mais para os bailes, porque o pessoal do bairro gostava muito também. Eu passei também a freqüentar muito a gafieira, quando tinha uns 18 anos. Nós tínhamos baile em Irajá, tinha o Danúbio. No Méier, tinha o Elite.

Nesse tempo, comecei a sair de passista na Mangueira, na ala “Vê se me entende”. Saia com Mussum e Jonas, dois dos fundadores do Originais do Samba. Fiquei até 68, quando quis entrar para a ala de compositores e não deixaram: “Não pode, você é da ala dos passistas”. Aí eu parei de desfilar. Comecei a compor com Délcio Carvalho.

O único samba que venci alguma coisa foi no Arranco do Impedimento (bloco). Eles promoviam um concurso, dia 20 de janeiro, data do padroeiro do Rio. Eu fiz um samba no Água Santa, a rapaziada ouviu e gostou. Mas eu tinha bebido umas. O presidente chamou o sobrinho dele e disse assim: “Aprende esse samba aí que ele não vai agüentar cantar nada, vai ficar bêbado”. (risos)

Como era esse samba?

“Musa que invoca a inspiração / Para em breve versos cantar / O Rio de Janeiro/ A fundação e glória / Rio de Janeiro, cidade de São Sebastião / Fundada em 1565 / Por Estácio de Sá / Hoje capitão.”

Foi muito engraçado. O samba foi escolhido no botequim. Teve um compositor, que era investigador de polícia, que foi pegar o dicionário em casa. “Oh Confete, o que é musa?”, ele me perguntou. “Musa é a deusa dos poetas, da poesia”, eu respondi. “O que é invocar?”. Eu respondi. Ele aí me disse: “Tá certo. Então ganhou”.

Eu tinha muito disso, fazia samba empolado. Depois, fiz samba com Délcio Carvalho, para Império da Tijuca. Nosso samba era o melhor, mas nós fomos cortados, num dia de chuva, em 68.

8.jpg

Quando foi gravado seu primeiro samba ?

Foi um pouco depois, pelos anos 70. Eu fiz um samba “Mangueira mulata Mangueira”, com Barbosa da Silva. Ele ouviu o samba e pegou o violão. Foi o primeira samba que eu gravei, pela Continental, um “pau de sebo”. Eu lembro bem porque levei o Dicró para a gravadora e ele também gravou nesse “pau de sebo”.

“Tu és a porta-bandeira mulata / Eleita no ensaio geral / Canto feliz em Mangueira, mulata / Rainha do meu carnaval. / Nasce a luz da poesia / Há como é belo seu porte / Brilha em seu rosto alegria / Vibra o samba mais forte. / A tua pele deitada / De rosa verde bandeira / Mulata confesso te amo / Assim como amo Mangueira”.

O que era “pau de sebo”?

O artista chamava assim porque um podia subir e se dar bem e outros não conseguirem coisa nenhuma. Faziam esse disco com sobra de verba. O pessoal improvisava e fazia uma tiragem pequena. Quando a música despontava, fazia um compacto duplo. Muita gente começou assim. Tinha algumas exceções, como Martinho da Vila. Ele levou a mulher dele na RCA. Ela cantava muito bem. Pediram para ele cantar também, mas falou que era muito envergonhado. Quando ele cantou, pronto, gostaram. Gravou “Pequeno Burguês”, que estourou.

Como você começou no rádio?

Foi engraçado. Fui para São Paulo entre 68 e 70. Tinha um grupo com Délcio Carvalho, Caboclinho, Garça e Mestre Saul, além de um ator chamado Procópio Mariano. Acabou que o conjunto não deu certo. Uma vez nós fomos no programa “Almoço com as estrela”. Era para ficarmos de 3 a 4 minutos no ar, mas nós ficamos 15 minutos. Depois voltei para o Rio. Eu gravei um samba chamado “Samba do exorcista” (risos), com Nei Lopes, no long play do Reginaldo Bessa. O Nei fica puto da vida quando eu canto esse samba. Ele me diz: “Não canta isso não, suja meu tempo de pobreza!” (risos)

Eu fui convidado pouco tempo depois para a Roquete Pinto, no tempo do Júlio Medaglia (maestro) e, paralelamente, me chamaram pra escrever na Tribuna da Imprensa. Também nessa época, vivia no Museu da Imagem e do Som, com Ricardo Cravo Albin, que tinha a revista “Guanabara em Revista”. Eu era o foca, mas era quem sabia onde a coruja dormia. Lembro que, uma vez, entre 77 e 78, o Ricardo me encarregou de ir a algumas escolas para abrir portas para ele. Fui à Portela e falei com Natal da Portela. Ele nos recebeu muito bem, nos colocou em uma mesa privilegiada.

Você conheceu o Natal naquele ano?

Ele me deu bala quando era moleque. Eu o conheci primeiro no ponto de bicho dele, antes de ficar famoso. Tinha perdido um braço, quando era ferroviário. Ele anotava o bicho do lado da farmácia do irmão do Jair da Rosa Pinto, jogador da Copa de 50. Era muito solidário. Hoje se fala muita em solidariedade, mas o Natal já tinha essa visão social. Ajudava hospitais, pagava vários enterros por semana. Morreu sem dinheiro nenhum, gastou tudo com os outros.

Confete, só retomando. E como você foi para a Rádio Nacional?

O Hilton Abihian que me convidou. Já estou lá há 27 anos. Mas fiz comentários para a TV Globo, Manchete, TV Educativa e voltei a desfilar na Mangueira. Rodei muito. Lancei Roberto Ribeiro. Ouvi o Roberto cantando. Ele tinha gravado num “pau de sebo” em Copacabana, mas samba do Salgueiro. Ele começou a gravar samba do Império comigo. Eu andava muito pelas gravadoras, para falar com a assessoria de imprensa. Uma vez estava com o Chiquinho da EMI-Odeon e comentei: “Olha tem um cantor aí sensacional.” Depois lancei o Dicró.

Roberto gravou algum samba seu?

Sim, “Poeira Pura”, que também era nome do disco.

E como foi o seu disco solo, de 2003?

Eu pensei: “A velharia toda está cantando” (risos). Aí resolvi cantar também. Dia desses chegou para mim um dinheiro de uma música minha com João Donato, chamada “Xangô é de Baê”. Até o Caetano gravou. Aproveitei para fazer o cd. Só que agora estou vendo um para valer mesmo. Eu vou pegar as músicas e regravar.

O que você acha do samba hoje? Da quantidade de rodas de sambas hoje e do interesse da nova geração pelo chamado “samba de raiz”?

Muito bom. O sambista antigamente, para estourar, tinha que ficar velho. Paulinho da Viola foi uma exceção, assim como Martinho da Vila. O sambista ficava lá no morro, nas escolas. Hoje não, existem as rodas. Cacique de Ramos foi uma realidade. Tem uma juventude compondo. Tem rodas de samba como Candongueiro, em Niterói, do Ilton. Antigamente, a juventude só cantava as músicas antigas, de rádio. Agora, canta suas próprias composições.

Você não acha que o pessoal que faz samba hoje ainda compõe pouco? A gente vai a uma roda e só escuta samba antigo.

O grande problema das rodas é que, quando você está com público muito grande, o cara só quer cantar samba que o pessoal conhece. O “Renascença”, grande reduto, passou pelas três grandes fases do samba. Na primeira, com Neguinho da Beija-Flor, Dedé da Portela, Marinho. Depois veio a segunda, com Marquinhos Satã, Zeca. Está agora na terceira fase, com Moacyr Luz. No “Renascença”, canto samba novo.

Só que artistas como Pedro Miranda, Teresa Cristina, Ana Costa lançam discos com muito samba do Nelson Cavaquinho, Cartola… Está certo que é um trabalho de resgate, mas para o samba se fortalecer não seria melhor eles comporem mais?

Sim, teriam. Mas aí é que vai, né? Se eles colocarem só inéditas, às vezes não dá certo, já que eles são conhecidos por esse repertório antigo que cantam nas rodas. Por exemplo, o meu lance. Antes de lançar meu cd, estava cantando bastante o meu repertório. Às vezes, não dá para chegar em uma roda e dizer: “Vou cantar só samba meu.” Tem que se fazer percebido primeiro. Tem que introduzir seu repertório aos poucos, é uma tarefa árdua.

Antes havia a escola do samba e o morro, que eram os celeiros dos compositores. Você reconhece algum lugar que ocupa esse papel na atualidade?

Olha, o morro não é mais a mesma coisa. Graças ao Noel Rosa, que teve 14 parceiros nos morros cariocas, o morro teve essa visibilidade. Contrariando a elite, ele ia lá e reconhecia os parceiros. No morro, hoje em dia, o que rola é o funk, o hip hop. As escolas de samba atuais vivem de samba-enredo. Talvez a única escola que revele algum compositor hoje é a Beija-Flor de Nilópolis.

Qual sua relação hoje com as escolas de samba?

Eu não vou mais. Fazer o que lá? Cantar samba-enredo? Muito barulho, não entendo nada do que eles cantam. É uma covardia. Eles fazendo o samba, não existe. São vários. Um leva a camisa, um leva torcida, outro faz a comida. A Beija-Flor hoje se destaca porque tem uma grande identificação com a comunidade, fantasias de graça, não enche de artistas. A rainha da bateria é da comunidade. A Soninha Capeta era a rainha, durante anos. Agora é uma menina de lá, Rayssa, de 14 anos, com colégio pago pela escola. Mora em um apartamento do Anysio.

TEXTO: BRUNO VILLAS BÔAS E THALES RAMOS. FOTOS: BRUNO VILLAS BÔAS

5 Respostas para “

  1. Prezados amigos de O Samba é meu Dom,

    Inicialmente gostaria de parabenizá-los pelo trabalho, layout e qualidade ediorial, que estão de prima.O samba agradece !!! Bem, vou me apresentar : além de jornalista, sou também um profissional da música, atuando como cantor e compositor. Gostei muito da proposta do DVD do Rubens que, além de grande profissional de comunicação e compositor, é um conhecido de longa data, quando nos conhecemos caminhando em volta do Maracanã, onde batíamos agradáveis papos sobre música e sobre a nossa grande paixão, o samba. Bem , por questões profissionais, estou precisando muito retomar o contato com ele. Em função disso, gostaria de, encarecidamente, pedir que vocês me informassem algum tipo de contato (e-mail, tel, site, etc )para que eu possa comunicar-me com ele, ok. Ficarei eternamente grato a vocês.

    Um grande abraço em todos !!!!

  2. Excelente! Que bom saber que o Rubens Confete está literalmente vivo. Já que a grande mídia não se interessa por conservar viva a memória brasileira, temos o Samba é meu dom para fazê-lo.
    Valdete Lima

  3. Pingback: O samba é meu dom·

  4. Pingback: Rubem Confete | vinteculturaesociedade·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s