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Roberto Ribeiro – Todo menino é um rei

Por Bruno Villas Bôas

Taí uma coisa difícil de se encontrar. Um clipe do Roberto Ribeiro gravado em 1978 para o Fantástico. A música é “Todo menino é um rei”, uma predileta minha e favorita do amigo Thales.

maio, 2009 at 4:33 pm Deixe um comentário

Mistério sem explicação

Por Thiago Dias

“Tinha certeza que a vida ia ser melhor com esses sambas”, diz Marisa Monte a Paulinho da Viola para explicar por que começou a pesquisar as músicas dos compositores de Oswaldo Cruz. Uma frase que martela na minha cabeça desde que deixei a sala 5 do Unibanco Artplex nesta quarta-feira, às 21h35. Essa é a essência de “O mistério do samba”, documentário dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor.

Sempre foi difícil explicar a alguém o que sinto quando escuto uma canção de Manacea, por exemplo. Ou de Cartola, que não é da Portela, assim como eu. É como Paulinho resume no filme quando lembra uma roda de samba na Portela: não se explica, só se sente.

Em 1970, o “sucessor de Paulo” sentiu que era preciso registrar aquilo. E produziu o primeiro disco da Velha Guarda da sua escola. Quase 30 anos depois, Marisa foi levada pela mesma curiosidade e nos presenteou com “Tudo Azul”, cuja pesquisa deu origem ao documentário.

Em entrevista ao SAMBA É MEU DOM, o diretor Lula lembra que a cantora considera a produção do disco uma missão de cidadã. Ver “O mistério do samba” é uma obrigação de cidadão. Eu votarei nulo ou até viajarei só para não ter que ir na urna eletrônica. Mas quero ir ao cinema de novo, de novo e de novo ver os mestres na telona.

Como explicar a cena de Monarco lembrando a letra de “Nascer e florescer”, de Manacea, até então nunca gravada? E as histórias de Argemiro, o “velho mais safado” que Zeca Pagodinho já conheceu? Ou a confirmação que Casquinha fez “Falsas Juras” para Tia Surica, sua ex-namorada? Não se explica, só se sente.

Confesso que temi que o filme ficasse mais em cima de Marisa e Paulinho do que das tias e compositores portelenses. Os dois são fundamentais para a preservação e divulgação dos sambas de Oswaldo Cruz e merecem destaque. Mas Lula e Carolina acertam na mão. Marisa e Paulinho vão ao bairro, nos apresentam a cultura local e abrem espaço para a Velha Guarda nos contar sua própria história. As duas estrelas, responsáveis por unir este grupo, até aparecem pouco para o que representam. Deixam o show para Monarco & Cia.

Como em um teatro, a platéia na sala 5 bateu palmas para a Velha Guarda quando as luzes se acenderam. Os portelenses não estavam ali, ao vivo. Mas todos sentiram, sem precisar de explicação, que a vida é sim melhor com esses sambas.

* * * *
Trailer do filme

setembro, 2008 at 3:01 pm 2 comentários

O céu abraça a terra

Por Equipe O Samba

“Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi”
(Chico Buarque)

“Dorival Caymmi falou pra Oxum:
Com Silas tô em boa companhia
O céu abraça a Terra,
Deságua o Rio na Bahia”
(Paulo Emilio/Aldir Blanc/João Bosco)

Adeus, mestre.

agosto, 2008 at 4:51 pm 1 comentário

Chi-cle-te oba, oba!

Por Thales Ramos

O título acima, acho que todo mundo conhece. Ele é emitido nas micaretas, pelos chicleteiros. E o que são os Chicleteiros? São os fãs da banda de axé Chiclete com Banana. Muito antes das micaretas, dos chicleteiros e do vocalista Bel, com seu shortinho apertado entoar o canto, Gordurinha e Almira compunham “Chiclete com banana”, sucesso absoluto na voz de Jackson do Pandeiro (vídeo acima). Usando uma expressão tão atual quanto chicleteiro, Jackson, sim, quebrava tudo.

Almira foi casada com Jackson e se tornou sua companheira de apresentação. A música foi gravada pela primeira vez em 1970, no disco “Aqui tô eu”, o sétimo da carreira do paraibano. Dois anos depois, no fundamental “Expresso 2222″, o ex-ministro Gilberto Gil apresentou sua versão (excelente) para a música.

A letra de Almira e Gordurinha é bem crítica. Ela aponta a maneira estereotipada com que o americano via nossa cultura e observa, já naquela época, a influência demasiada dos costumes americanos nos nossos. Ainda observa que o contrário não acontece e com bom humor, oferece resistência: “Eu só boto be-bop no meu samba / Quando o Tio Sam tocar num tamborim”. Gil, que na época era antropofágico e não era bobo, assimilou o recado da dupla.

Na voz de Jackson do Pandeiro “Chiclete com banana” foi popularizada. E não poderia ser diferente. Jackson era genial e simples. Não é exagero dizer que é do mesmo naipe de Luis Gonzaga, o rei do baião. Possuía talento e sapiência popular necessários para alcançar reconhecimento e se tornar o grande artista que foi. Como diz o Chico, em “Paratodos”: “Vá de Jackson do Pandeiro”.

Chiclete com Banana

Eu só boto be-bop no meu samba
Quando o Tio Sam tocar num tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele aprender que o samba não é rumba
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Eu quero ver a confusão
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Olhe o samba rock, meu irmão
É, mas em compensação
Eu quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão
Quero ver o Tio Sam, de frigideira
Numa batucada brasileira.

* * * *
Ouçam Jackson do Pandeiro cantando Chiclete com Banana, no player ao lado.
Jackson do Pandeiro e Almira em ação. Arrepiante.
Gilberto Gil e Marjorie Estiano cantando Chiclete com Banana

agosto, 2008 at 6:59 pm 4 comentários

Saravá, jongo, saravá

Por Thales Ramos

Nesse vídeo, o pesquisador José Ramos Tinhorão bate um papo com Mestre Fuleiro, um dos fundadores do Império Serrano. O tema? Jongo!

Tinhorão, que é considerado xiita no que diz respeito à música popular brasileira (abomina bossa nova, por exemplo), valoriza bastante a conversa e procura tirar do mestre a melhor explicação possível sobre o que é jongo. O baluarte do “reizinho de Madureira” explica a Tinhorão as nuances do estilo, como o lado sobrenatural, o respeito às tradições e a batida do tambor.

“Eu acredito no sobrenatural. A gente, para brincar, pra dançar um pouquinho, na nossa cabeça, pede licença”, explica Mestre Fuleiro. Outra coisa que ele aponta, são as semelhanças das colocações dos versos nas rodas de jongo com os feitos pelos repentistas. No estilo desafio, pergunta e resposta. Daí, claro, não tem como não fazermos a ponte com o partido alto.

Não por acaso, dois dos maiores partideiros são oriundos da escola da Serrinha: Aniceto do Império (também fundador da escola) e Nilton Campolino. A dupla chegou a lançar um disco, “O Partido Alto de Aniceto & Campolino”. Campolino também aparece no vídeo, dançando com Janira do Jongo.

Hoje, o jongo anda bem valorizado. O grupo Jongo da Serrinha faz apresentações Brasil afora e conta até com patrocínio do Criança Esperança. Deve-se isso a pessoas como Tinhorão, que têm fé suficiente na cultura feita pelos homens simples do povo e documentam isso. E, claro, a homens como Mestre Fuleiro, que mantinham em seus quintais a tradição de seus antepassados.

Então, como dizia o partideiro: “Vamos na dança do caxambu / sarava / jongo / saravá”. Samba esse, que é um dos preferidos de um integrante deste blog.

agosto, 2008 at 5:03 pm 1 comentário

Skylab: um samba raio laser

skylab2

Por Emiliano Mello, Thales Ramos e Thiago Dias

Ele não morou na Vila, como Noel. Mas como o poeta, canta o Rio em crônicas que desvelam a cidade com a precisão de um trovador urbano enviesado. Os 16 anos de carreira tomam forma nos nove discos gravados na mais pura independência, sem qualquer apoio de gravadoras ou selos multinacionais, o que não lhe impediu de faturar o prêmio Claro de música Independente de 2005, tampouco de ser dos mais assíduos convidados do programa do Jô, na Globo.

Rogério Skylab está longe do estereótipo do carioca “da gema”. Sua música passa ao largo do litoral carioca, posto que a praia não lhe causa interesse. Prefere os subterrâneos do metrô, as ruas cáusticas que transpiram óleo diesel, o cheiro do ralo, clima febril dos inferninhos, a luz vermelha do cabaré. E a biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil: “Sempre fiz questão de ler os livros que os professores não indicavam”. Provocador, Skylab tem uma obra que, à vista dos mais preguiçosos, é difícil de classificar. Costuma dizer que faz uma troca de estilos o tempo todo, uma troca esquizofrênica. Mas há um fio que alinhava toda a sua obra e lhe garante o olhar crítico de que lança mão para cantar o Rio de Janeiro contemporâneo como poucos. Este fio é o samba. “Eu tenho uma relação profunda com o samba”. Um samba “harmonizando a lua com a bomba atômica”.

O blog conversou esta semana com Rogério Skylab, artista dionisíaco que lançou recentemente Skylab VIII, oitavo disco da saga musical em dez atos que ele vem construindo há nove anos. No bate-papo, Rogério fala pela primeira vez sobre a sua forte relação com o samba, sua paixão pelo Salgueiro, antecipa como será o seu DVD e nos dá pistas de como serão os próximos projetos. Como ótimo provocador, nos convida ainda a mover o foco da discussão a respeito da “raiz” do samba para longe do lugar-comum. Fazendo lembrar o saudoso Chacrinha, ele veio para confundir e não para explicar. Skylab gosta do confronto de idéias, fazendo jus à sua formação acadêmica em literatura e fisolofia pela UFRJ.

Em “samba isquemia noise” você canta: “O samba é o pai de todos / No samba eu me criei / Com o samba eu faço música / O samba é o puro prazer / Samba que eu quero ver”.Você costuma dizer que suas músicas são ficção. Então como é a sua relação com o samba, afinal?

Bem, essa palavra “ficção” é um problema. Para o senso comum, “ficção” é algo que não corresponde à realidade. Ou seja: se eu disse que o meu trabalho é ficcional, você logo interpreta como não tendo nada a ver com a minha vida. Não é bem assim. Entendo por ficção algo imaginado. Mas daí a pensar como aleatório, sem nenhuma relação com o que vivo e o que penso, vai uma distância considerável. Eu sempre digo que o meu trabalho é vivencial, ou seja, ligado à minha vida. Mas não é biográfico. Os acontecimentos do dia-a-dia não estão no que escrevo; as sensações, sim. Eu tenho uma relação profunda com o samba.

Na mesma música você diz que “o samba vive no exílio”. No entanto, está espalhado por todo o Rio, por toda a Lapa e Zona Norte principalmente. Não seria uma contradição?

(Risos) De fato o samba está espalhado por toda parte. Principalmente no Rio de Janeiro. Digo mais: a mim parece impossível qualquer compositor, sendo carioca, não fazer samba. Eu faço uma analogia com o catolicismo aqui no Brasil. Você pode ser umbandista, mas é católico também. Pode ser do candomblé, mas é católico também. Vou mais fundo: você pode ser ateu, mas é católico. O que quero dizer com isso? É uma questão de cultura, não é uma questão de opção pessoal. Sendo brasileiro, você é necessariamente católico, ainda que não tenha nunca colocado os pés numa igreja. Seguindo a linha de raciocínio, eu diria o mesmo do samba, se você é nascido e criado no Rio de Janeiro. Aqui você pode fazer heavy metal e ainda assim estará fazendo samba. A imagem do “samba no exílio” é que, por mais que você se sinta alijado de todos que o cercam, por mais que seja considerado um ET, em sendo carioca, ainda assim você estará fazendo samba. O meu samba vive no exílio.

Seu samba tem “aparência de raio laser”, como você diz na música “Um samba bem quente”. Paulinho da Viola, em “Argumento”, diz: “Tá legal, eu aceito o argumento / Mas não me altere o samba tanto assim. O que acha dos defensores do samba puro, do resgate das raízes, sem interferências modernas como “raio lasers”?

Esta questão é a que pega. Aí o bicho pega. Vou me alongar. Em primeiro lugar, eu desconfio muito daqueles que pregam um sentido pro samba, isto é, um sentido único. Até porque se formos para a origem do samba, vamos perceber uma confluência de elementos díspares: africanos, portugueses e até mulçumanos. Este caldo de cultura que constitui o samba e que, de uma certa forma, constitui o brasileiro, tem uma vocação para o múltiplo, para o “diferente”. Foi com Getúlio Vargas que se começou a defender a idéia do “nacional” em oposição à música de vanguarda. Nessa época, o maior arauto do nacionalismo na música brasileira era Mário de Andrade, sem esquecer, claro, do genial Vila-Lobos. Foi justamente nessa época que o samba como música radiofônica começou a se constituir. A partir daí foi que começou o abismo entre música nacional e música de vanguarda – coisa que não existia antes.

Esta é uma discussão que provoca debates acalorados ainda hoje…

Exatamente. Ela permanece viva na cultura brasileira. Perpassou a bossa nova, o tropicalismo e até mesmo o rock brasileiro. Pra mim, é uma falsa discussão. Beth Carvalho está errada, Paulinho da Viola está errado, e Caetano Veloso, nos primórdios do tropicalismo, também estava errado quando fez a música “A voz do morto”, ironizando “a voz do morro”. Esta divisão não me interessa porque serve justamente ao nacionalismo xenófobo e complexado. Quero que o samba tenha um amplo espectro como formador de nossa cultura. Tenho alergia a tudo que é “raiz” porque, no fundo, visa a interesses reducionistas. Eu quero que o samba seja mais. Daí por que valorizo aqueles que perverteram o samba, criando uma nova história. E ela passa por João Gilberto (não incluo a bossa-nova, apenas João Gilberto); depois por Jorge Ben com seu “Samba Esquema Novo”; chega em Chico Buarque (toda a sua obra, especialmente “A ópera do malandro”); João Bosco no início de sua carreira em parceria com Aldir Blanc; e chega nos dias atuais, com Marcelo D2 e Mundo Livre S/A, que introduziu o cavaquinho no movimento Mangue Beat.. Sob este aspecto, os carnavalescos das escolas de samba estão a léguas de distância do samba de raiz. Graças a Deus.

Você disse torcer pelo Salgueiro, de onde vem essa paixão? Há algum samba-enredo que tenha te marcado, seja do Salgueiro ou não? Já desfilou, ou desfilaria se convidado?

Eu morava na Tijuca e um dia, quando criança, fui à Praça Saens Peña com a minha mãe. Ali eu vi pela primeira vez a Xica da Silva fantasiada a rigor – a Xica está para o Salgueiro como o goleiro Castilho está para o Fluminense. Depois, ainda bem novinho, assisti na Presidente Vargas (não havia ainda o Sambódromo) ao Salgueiro com o seu enredo “Bahia de Todos os Deuses”. Havia ainda aquela passista gostosa, agora me foge o nome, que saiu até na capa de um disco de vinil da escola. Às vezes vejo umas coisas, como por exemplo: o cara chega do Nordeste com 22 anos de idade, já formado, e com o tempo se torna um verdadeiro carioca. Falácia. Esse cara nunca será carioca. Ele não experimentou na infância, quando se começa a formar a personalidade, os acontecimentos essenciais da cidade. Eu, por exemplo, não sou cartão postal. Mas com cinco anos de idade fui com meu pai ao meu primeiro jogo de futebol no Maracanã. São experiências básicas, decisivas, de formação. Nunca saí por uma escola. Se sair, saio pelo Salgueiro. Fui convidado pela Mangueira e não quis. Pra mim, isso é coisa séria. Sou Salgueiro e não sou mais nada. Assim como sou Fluminense e não sou mais nada. Se você é carioca, você me compreende.

Tem algum sambista que tenha influenciado a sua obra?

João Gilberto

O dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira fala até do “Zumbi do Mato”, mas não há nenhuma referência ao Rogério Skylab. A que atribui a omissão do verbete?

O Ricardo Cravo Albin já não bate bem com as bolas.

Costuma dizer que quer fazer da vida uma obra de arte, como em Foucault. Também diz que o artista tem a função exclusiva de entreter. Você, afinal, é um ARTISTA ou uma OBRA DE ARTE?

Eu não sei quando disse que a função exclusiva do artista é o entretenimento. Essa frase fica bem na boca de um Lulu Santos. Na minha, não. Quanto a fazer da vida uma obra de arte, eu bem tenho tentado. Mas não sei se tenho conseguido.

Como está a preparação do seu primeiro DVD? Quando sairá? Fale um pouco sobre o projeto.

A minha idéia inicial era fazer do “Skylab X” CD e DVD. Eu faria um retrospecto dos meus discos anteriores e, então, finalizaria a série dos Skylabs aí (N.R. série de 10 discos que vem sendo construída há nove anos). Só que já pintaram novas músicas, e seria um desperdício não gravá-las dentro do projeto. Assim foi que decidi fazer do “Skylab X” um disco de inéditas, como os anteriores, e para o bem de muita gente que não se conforma com o fim. E aí, sim, viria em seguida o “Skylab 00” – ponto final mesmo (com a gravação de um show ao vivo para CD e DVD). Mas quando digo fim, quero dizer fim desta série, deste projeto, com estes músicos, com esta forma de gravar os discos. Já estou idealizando um novo projeto – o “Skygirls”. Depois, o “Skybirck”. Por fim, o “Skyzé”. Acho que vai dar pé.

* * * *
Ouça aqui “um samba bem quente”
Assista aqui ao clipe da música “Parafuso na cabeça”

julho, 2008 at 5:35 pm 19 comentários

No samba, Silva é sinônimo de realeza

Por Thales Ramos

Silva é certamente o sobrenome mais popular brasileiro. E por isso mesmo, há quem o renegue. Observe entre os seus conhecidos: quem tem Silva e mais um sobrenome sempre opta pelo outro na assinatura. Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, um dos maiores treinadores do futebol brasileiro, é “da Silva”. Em rápida pesquisa na maravilha do Google, vi que tanto na Espanha como em Portugal, o nome era de família abastada. Também vi que no Império Romano recebia-o as famílias que moravam em cidades na selva (silva quer dizer selva, em italiano).

No Brasil, também não foi diferente. Os portugueses que aqui desembarcavam recebiam mais um sobrenome. Sendo assim, os que ficavam pelo litoral eram acrescidos do Costa e os que optavam pelo mato, o Silva. Posteriormente o nome foi bastante difundido pelos escravos, já que eles recebiam os nomes de seus senhores.

Continuando por aqui, temos Silvas famosos, incluindo o atual presidente, que não foi o primeiro. Antes do operário do ABC, o militar Costa e Silva subiu a rampa do planalto em 1967. Ayrton Senna também era “da Silva”, assim como Lampião e a escrava Xica, que virou filme, enredo do Salgueiro (1963) e hit de Jorge Benjor.

No samba temos um quarteto de ouro que leva Silva na assinatura. Ao contrário do lugar-comum do sobrenome, todos eles são pioneiros, únicos e geniais. Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra têm estilos diferentes e em comum – fora o sobrenome – a marca que cada um deixou na história.

Ismael Silva tinha como reduto o morro do Estácio. Um dos mais influentes sambistas da história é tido por muitos (há controvérsias) como o fundador da primeira escola de samba, a Deixa Falar, e é um dos principais responsáveis pela assimilação da cultura das escolas e do próprio gênero pelas classes financeiramente superiores. A levada do samba que conhecemos hoje tem forte contribuição de Ismael. Sua célebre frase: “No estilo antigo, o samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar assim na rua? Aí a gente começou a fazer um samba assim: bumbum paticumbumpruburundum”, serviu de inspiração para Beto Sem-Braço e Aluisio Machado comporem “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, para o Império Serrano, campeã do carnaval de 1982.

Contemporâneo de Ismael, Moreira da Silva foi o maior representante do samba de breque. Tinha fama de malandro e boêmio, mas sempre foi casado com a mesma mulher e dizia que dormia cedo. Talvez por isso tenha vivido quase cem anos (malandragem, de fato). Também era conhecido como Kid Morengueira, personagem que incorporou em alguns dos seus sucessos como “O Rei do gatilho” e “Os intocáveis”. Em “Acertei no milhar”, música que ele conta a história do malandro que fica milionário no jogo do bicho, ele dá uma “renegada” no sobrenome: “Eu vou comprar um nome não sei onde/de Marquês Morengueira de Visconde”. Era um showman.

A maior voz dos quatro Silvas, Roberto ficou conhecido como o “Príncipe do Samba” e cantava samba sincopado. Com mais de 300 discos gravados, teve muito sucesso na época de ouro do rádio, tendo feito parte do elenco das rádios Tupi e Nacional. Hoje, infelizmente, não grava mais. O último disco de Roberto data de 2002 e o penúltimo de 1979.

Na carência de bons novos intérpretes masculinos, reviver nomes como Roberto Silva não seria má idéia. Ouçam a série de discos “Descendo o morro”, são quatro volumes onde o eco da voz de Roberto o confirma como uma das mais belas vozes do samba. Em entrevista recente ao nosso jornal O SAMBA É MEU DOM, Paulinho da Viola disse: “O maior sambista vivo é Roberto Silva”, assim, de alteza para alteza.

Por fim, Bezerra da Silva fazia um samba repleto de duplo sentido, crítico e bem humorado. Samba para se ler nas entrelinhas. Suas letras eram compostas pelo cidadão que vivia o dia-a-dia da favela e das classes menos abastadas e tinham a maestria de traduzir as agruras diárias de forma crítica e engraçada. E Bezerra era o porta-voz dessa gente; ele mesmo, sempre ferino, um dos maiores críticos da indústria fonográfica. Infelizmente, não deixou sucessor. E pior, tem sido pouco cantado nas rodas de samba. Talvez a força da ironia de suas letras intimide alguns puristas.

De linhas tão diferentes, marcantes e especiais, todos os quatro comprovam que há samba para todos os gostos.

Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra, qual dos Silva lhe apetece mais?

* * * *
Vejam também:

Roberto Silva com a xará (e bijou) Roberta Sá cantando Falsa Baiana (Geraldo Pereira)

Trecho do curta “Onde a Coruja Dorme”, de Márcia Derraik e Simplício Neto, sobre Bezerra da Silva.

julho, 2008 at 4:45 pm 4 comentários

Terreiro Grande, maior ainda nos cinemas

Por Thales Ramos e Bruno Villas Bôas

Uma das maiores novidades do samba em 2007, os paulistas do Terreiro Grande terão seu trabalho reconhecido nas telas do cinema. O responsável pelo projeto, Zeca Buarque Ferreira, espera que até o final do ano o documentário sobre o grupo já esteja finalizado.

O cineasta, que foi assistente de direção de Nelson Pereira dos Santos e Hugo Carvana, e atualmente produz uma série de videos sobre o movimento Sem Terra, teve seu primeiro contato com os sambistas por conta do primeiro show deles com Cristina Buarque, sua mãe. “Quando fomos fazer o lançamento do cd, no Teatro FECAP (SP), resolvi começar a rodar o documentário, mesmo sem dinheiro. Sabia que o que teríamos ali, jamais se repetiria”.

A pré-produção do disco “Cristina Buarque e Terreiro Grande – Ao vivo” foi importante na concepção do filme. O trabalho foi fruto da cessão do áudio do show pela FECAP. A alta qualidade do som foi o estalo para a idéia do cd. “Com esse material nas mãos, comecei a correr atrás para garantir a produção do disco. Nesse processo fui conhecendo melhor as pessoas e a história do Terreiro Grande”, explica Zeca, garantindo que sua praia é o cinema, não a música.

Por enquanto, ele já tem 15 horas de gravação no balaio e mais algumas por filmar. As imagens mostrarão os bastidores do grupo e a expectativa em torno do primeiro show, além do cotidiano dos integrantes do Terreiro Grande, o show na Ilha de Paquetá (RJ) e uma entrevista com Cristina. A parte musical – que o diretor promete ser intensa – foca menos no show e mais nas rodas. Decisão acertada, já que o potencial do grupo é justamente esse, ao vivo e sem microfones. “Quero colher mais imagens do dia a dia deles, ambientes de trabalho e claro, mais rodas de samba”.

Como todo cineasta brasileiro, Zeca anda esbarrando na falta de apoio financeiro para seu projeto. Mas tem conseguido alguns apoios no peito e na raça, embora também ponha algum do bolso. Através de algumas produtoras (DGT Filmes e Quero-Quero Filmes), conseguiu equipamento. Com três câmeras emprestadas, filmou o show que pode render um dvd ou um programa de tv. Fora isso, agregou uma equipe técnica que vai da fotografia até a finalização, que abraçou o projeto.

Ele agora corre atrás das leis de incentivo para mais financiamento, assim poderia inclusive se dedicar mais ao filme que, por enquanto, lhe toma apenas as horas vagas. “Eu acho o Terreiro Grande um dos fenômenos mais interessantes e ricos da cultura brasileira em muito tempo. Estou tentando via leis de incentivo, editais etc. Vamos ver se alguém se interessa.”

junho, 2008 at 11:34 pm 5 comentários

Divas de lá e de cá

Por Emiliano Mello

Fala-se bastante desta nova geração de cantoras que têm no samba a grande fonte de inspiração. Talvez uma das mais talentosas seja Teresa Cristina, sobre quem Monarco chegou a declarar que “essa menina é coisa muito nossa, é coisa séria”. Claro que o leitor está livre para discordar. A lista é grande, e inclusive já fizemos uma enquete aqui no blog sobre o assunto.

A formação destas cantoras passa invariavelmente pelas rodas de samba informais espalhadas pelos subúrbios e comunidades Brasil adentro. O caminho é mais ou menos o mesmo: freqüentam rodas e mesas como espectadoras no início, em seguida arriscam canções nos intervalos, suas vozes conquistam os bambas, ganham moral e seguem carreira.

Há outra frente menos conhecida, no entanto. São as brasileiras que fazem carreira no exterior, cantando em pequenos pubs, em tímidas reuniões de amigos até chegarem aos grandes palcos. Consolidadas lá fora, voltam à antiga colônia fazendo o velho caminho dos conquistadores ultramarinos de antanho. Cá, passam a trilhar os pequenos palcos, nem sempre receptivos às “forasteiras”. Muitas sequer conseguem espaço no Brasil e retornam. Poucas brilham.

As jovens cantoras Céu e Mariana Aydar fazem parte do grupo das que foram bem recebidas de volta ao País. Apesar da formação – tanto social quanto profissional – bem diferente das suas conterrâneas, as damas têm em comum a música brasileira (sobretudo o samba) como inspiração e alicerce sobre os quais constroem suas carreiras.

Mariana é formada pela renomada Berklee College of Music e lançou seu primeiro disco, “Kavita 1”, em 2006. O álbum foi produzido por BiD – do clássico “Afrociberdelia”, do Chico Science & Nação Zumbi (um dos discos mais importantes da década de 90) e Duani, multinstrumentista do Forróçacana. A ligação de Mariana com a música brasileira vem de berço, através da sua mãe, a produtora Bia Aydar. As parceirias com João Donato, Leci Brandão, Chico César e Seu Jorge mostram que a moça sabe onde pisa. Atualmente, Mariana se divide entre os shows do primeiro disco e as pesquisas para o segundo trabalho.

Céu começou cantando em casas noturnas de Nova York e chegou a compor trilha para o cinema (Cidade Baixa, de Sérgio Machado). Em 2005, foi convidada para participar do JVC Jazz Festival, em Paris, onde acabou fincando residência. No mesmo ano, lançou seu disco de estréia, “Céu, La promesse du Brésil”(independente), na Europa. Não demorou para ser fisgada pela major Warner, que o lançou em seguida aqui. Produzido por Antonio Pinto (da trilha de “Cidade de Deus”), o disco mescla composições próprias com interpretações bem particulares, como em “O ronco da cuíca” (João Bosco e Aldir Blanc). Ano passado chegou ao posto mais alto da Billboard americana, feito somente alcançado por Astrud Gilberto em 1963, com “Garota de Ipanema”.

Mariana e Céu fazem parte da geração criada sem preconceitos musicais, que vê a música como arte universal, livre das amarras de estilos, rótulos, fronteiras e guetos. Seus trabalhos mesclam o tradicional ao moderno, com delicadeza, sem agressão aos estilos. Trabalham com a sutileza inerente às mulheres, sem medo de experimentar. O resultado é música para os ouvidos.

* * * *
Veja aqui o dueto entre Céu e Mariana Aydar. Música: “Mais um lamento” (Céu/Danilo Moraes).

Veja aqui Mariana Aydar, Marcelo D2 e Mr Catra cantando “Zé do Caroço” (Leci Brandão), brincando numa versão funk.

* * * *
E você, o que acha? O samba não deve ser mexido? Dê sua opinião ali embaixo nos comentários.

junho, 2008 at 9:20 pm 8 comentários

Fiel, rabugento, irreverente e imortal

Por Thales Ramos

Jamelão foi um dos maiores cantores de samba de todos os tempos. O maior intérprete (ele não admitia ser chamado de puxador) de samba-enredo de todos os tempos, o mais antigo. O mais fiel. Neguinho da Beija-Flor também é fiel, no entanto, Jamelão tem mais tempo de fidelidade.

Já escutei dizer, mas não confirmei, que Jamelão teria puxado samba em outra escola em um carnaval. Mas um homem que em mais de cinqüenta anos de relação, dorme uma só noite fora de casa, não pode ser chamado de infiel. Foram 57 anos de amor à Mangueira. Talvez por isso, no carnaval de 99, ele não teria deixado um “intruso” deitar em sua cama. Nesse ano, a Mangueira desfilaria com o enredo “O século do samba”. Alexandre Pires gravou com o mestre no cd e aparecia ao lado dele, nas chamadas da televisão. Mas no dia do desfile, Jamelão fechou a porta na cara do mineirinho.

Com fama de rabugento era o terror das reportagens na concentração dos desfiles. Era comum deixar os repórteres com cara de tacho, depois de suas repostas atravessadas. Indagado pelo global Ari Peixoto, sobre ser o único puxador a não desfilar no chão, foi seco e direto: “Malandro é o gato que come peixe e não vai à praia”. Desconcertado e ao vivo, Ari, se limitou a dizer, “esse é o Jamelão, sempre irreverente”. Outra vez, após a apuração dos resultados e com a verde e rosa, fora dos desfiles das campeãs, ao ser consultado sobre o resultado, disse: “Algum bichinho saiu da arca de Noé”, uma alusão a zebra.

O que poucas pessoas não lembram (ou sabem) é que ele também foi um grande intérprete de samba-canção. Por ser uma figura com identificação tão forte com as escolas de samba, esse lado de sua carreira foi meio esquecido. Lupicinio Rodrigues, “o rei da dor-de-cotovelo”, por exemplo, teve em Jamelão o maior intérprete para suas músicas. Assim como esteve também esteve a frente da Orquestra Tabajara durante um bom tempo.

Voltando aos desfiles. Jamelão afirmava que quem puxava alguma coisa era puxador de carro, carroça ou de fumo, por isso recusava a alcunha de puxador e afirmava sempre que podia que era intérprete, sempre com sua marra habitual, claro. Além de desfilar apenas em cima do carro de som, outra mania de Jamelão era cantar com elásticos na mão. O carnavalesco Max Lopes diz que era superstição do cantor, porém, em 2003 Jamelão dá uma versão mais bem humorada sobre o assunto no programa da Hebe, como podem ver no video acima. “É simpatia mesmo. Porque quando me dão o dindin eu já tenho elástico pra prender”.

Depois, em rede nacional Hebe lhe propõe um selinho. Lembrando a esposa que estava em casa, o baluarte recusou. Era fiel ou não era?

junho, 2008 at 3:11 am Deixe um comentário

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