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O sensato destino de Almir Guineto

Por Thiago Dias, Emiliano Mello
e Thales Ramos. Foto de Ari Kaye
Tupã, município a 520 quilômetros da capital São Paulo, tem cerca de 65 mil. Um deles sabe bem o valor que tem o silêncio de uma pequena cidade: Almir Guineto, que há cinco anos trocou a batucada dos grandes centros pela paz no interior paulista. O compositor jura que agora só bebe água, tenta parar com o cigarro e que não cai mais nas tentações como antigamente.
“Ninguém é de ferro. Descobri isso com a idade”, diz o sambista, de 61 anos.
Na década de 80, Almir Guineto chegou a fazer cinco shows por noite, 67 por mês. “Era uma ignorância”, resume o sambista, que não tem a mesma badalação de 20 anos atrás, mas segue como um dos artistas mais lembrados nas rodas, com sucessos como “Pranto que chorei”, “Insensato destino”, “Caxambu”, “Mel na boca”, “Conselho”, “Lama nas ruas”, entre diversos outros.
Leia aqui a entrevista exclusiva
O exílio o afastou do público carioca, que sente falta da presença do bamba. Mas ele nem pensa em voltar a morar na terra natal. Almir deixou o Rio de Janeiro e o morro do Salgueiro cedo. Em 69, já morava em São Paulo para tocar cavaquinho com os Originais do Samba. A ida para o interior veio após o casamento com Cristina, neta de uma líder de escola de samba em Tupã.
“É a cidade dos aposentados. Todo mundo me pergunta como eu deixei a praia para morar lá. Mas a gente descobre que dá para se adaptar a qualquer lugar. Não saio mais do mato não”, afirma
Boi, amendoim e Almir Guineto. Estas são as três estrelas de Tupã. A mudança representa também o início de um novo estilo de vida do cantor. Nos anos 80, quando o pagode estourou no Brasil, ele ficou marcado por faltar a muitas apresentações. Hoje, reconhece que “ficar bêbado todo dia” não vale mais a pena.
“Tinha uma época que o pessoal só entrava no show depois que eu e o Zeca (Pagodinho) já estávamos na casa. A gente faltava muito, isso era um absurdo”, admite Almir, em entrevista exclusiva à equipe O SAMBA, em um hotel no Rio.
O compositor garante não sentir saudades do tempo em que era o maior nome do pagode no Brasil, já que “nem podia sair de casa”. Mas, em Tupã, a rotina de autógrafos continua quando anda pelas ruas. Coisa rara, por sinal. “Ele não sai muito de casa não. Fica mais trabalhando, mas parece que ele gosta muito da cidade”, conta o prefeito Waldemir Gonçalvez Lopes.
Na chácara em Tupã, nada de pagodes. Lá reina a tranqüilidade e o samba perde para o sertanejo no gosto popular. “O negócio é cantar para boi”, brinca Almir, se referindo às freqüentes festas de peão boiadeiro da cidade.
A música sertaneja pode ser a preferida na cidade, mas a presença do carioca faz o samba ser respeitado. “Sabemos da obra do Almir, de tudo que ele fez pelo samba. É uma honra tê-lo aqui, pois Tupã não tem celebridades”, diz o prefeito.
Roberto Silva, sem perder a majestade

Por Thales Ramos
“Treino é treino, jogo é jogo”, disse Roberto Silva, na passagem de som. Parafraseando Didi, o Príncipe Etíope, o Príncipe do Samba acertava os últimos detalhes para sua apresentação no palco do Sesc Niterói.
No jogo, deu tudo certo. Cantando para um auditório lotado, quase todo formado por contemporâneos, ele esbanjou simpatia e disposição. Sempre interagindo com o público, sambou o show inteiro. O público matou saudades e, como sempre, Roberto Silva cantou muito.
O Príncipe do Samba mostrou o carisma que só os grandes cantores têm. Cada música que cantava, sempre sem olhar a letra, fazia uma pausa para se dirigir ao público: “Juracy foi uma música que o Caetano (Veloso) pediu pra gravar comigo, no Casa de Samba”, lembrou.
E, assim, se seguiram Amélia e uma série de clássicos de Nelson Cavaquinho e Ataulfo Alves. Outra história interessante foi a surpresa que Zeca Pagodinho preparou no aniversário de casamento dos pais:
“Ele me ligou e pediu para que eu fosse na casa dele em Xerém. Cheguei escondido para não estragar a surpresa. Quando os pais dele me viram, ficaram muito emocionados”, lembrou.
Depois do show, mesmo com a van de motor ligado, Roberto foi paciente e concedeu uma entrevista rápida ao blog, bem disposto e elegante.
O SAMBA: Paulinho da Viola nos disse em uma entrevista que o senhor é o maior sambista vivo. O que o senhor pensa disso?
ROBERTO SILVA: – Eu o conheço desde pequeno. Eu toquei com o César, pai dele. Uma vez eu estava gravando uma música do Flamengo e ele, garoto, estava lá sentado me olhando. Anos depois ele virou Paulinho da Viola. Isso muito me honra. Ele tem carinho por mim. O Paulinho disse: “Jamais aceitarei o título de príncipe do samba, enquanto o Roberto tiver vivo.” O João Gilberto disse que sou o Rei do Samba, mas não vou aceitar isso. Ser rei dá muito trabalho (risos).
O senhor foi um ícone da época de ouro do rádio. O senhor ainda ouve rádio?
- Ainda escuto. Rádio Nacional, MEC, Roque Pinto. Gosto muito do programa do Osmar Frazão, um programa de pesquisa.
“Jornal da Morte” (Miguel Gustavo), gravada pelo senhor, parece muito atual pela quantidade de jornais sensacionalistas.
- É uma letra muito moderna. Eu cheguei a ser preso na época da ditadura por causa dessa música. A letra “Um escândalo amoroso / Com retratos do casal / Um bicheiro assassinado / Em decúbito dorsal”, é bem atual sim. Canto nos shows e faz muito sucesso. A Pitty gravou, o Nação Zumbi também.
O samba perdeu espaço?
- Não acho. Se você for ver o pagode é uma continuação do samba. O pagode é o filho do samba, eu diria. Eu entro no palco e o pessoal canta comigo. No Nordeste então é uma loucura. Eu faço shows pelo Brasil inteiro e é sempre assim. O público jovem também gosta muito de mim.
E quem o senhor gosta de ouvir hoje?
- Zeca Pagodinho, Casuarina, Quinteto em Branco e Preto, Caetano Veloso e Roberta Sá, entre outros.
No palco, o senhor samba o tempo inteiro. Como mantém a forma?
- Faço minha fisiquinha né? Não fumo e não bebo mais. Tenho uma companheira (aponta a esposa Syone) que vale muito. Ela parece uma injeção de ânimo (risos).
O mistério do samba em azul e branco

Por Emiliano Mello e Thales Ramos
Na última sexta-feira estreou “O mistério do samba”, longa de Lula Buarque de Holanda e Carolina Jabor sobre o cotidiano e a riqueza arística da Velha Guarda da Portela. Além dos imortais portelenses Jair do Cavaquinho, Monarco e Tia Surica, o filme traz depoimentos de Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola e Marisa Monte, todos destacando a importância da Velha Guarda em suas formações musicais.
Por e-mail, o blog entrevistou o diretor Lula Buarque de Holanda, que nos falou, entre outras coisas, do plano de uma possível exibição do longa no bairro de Oswaldo Cruz.
Produzido em conjunto pela Conspiração Filmes e Phonomotor, “O mistério do samba” é fruto de quase 10 anos de pesquisa e 200 horas de filmagem. Alguns críticos brasileiros já se anteciparam em apontar o documentário como o “Buena Vista Social Club brasileiro”. Lula Buarque, no entanto, avisa: “Quando fizemos as primeira filmagens o Buena Vista ainda não tinha sido filmado.”
O SAMBA: Vocês colheram material junto aos bambas da Portela por quase 10 anos. Como foi organizar tudo e montar em pouco mais de uma hora de filme?
LULA BUARQUE: – Nós começamos as filmagens sem um roteiro, filmando intuitivamente o que nos parecia mais emocionante. Quando conseguimos o patrocínio da Natura para finalizar o projeto, ficamos cinco meses limpando o material na ilha e reduzimos para oito horas de material num primeiro momento até chegar a três horas de bruto. Neste momento começamos a definir o roteiro e as novas cenas que seriam filmadas. Com mais 30 horas de material , ficamos mais quatro meses até chegar ao corte final.
No total, foram mais de 200 horas de gravação, o que nos deixa curioso a respeito do material que ficou de fora. Certamente há muita preciosidade no baú. A respeito desse material inédito e de valor histórico, há planos para levá-lo ao conhecimento do público? Quais?
- Um dos pecados mais comuns no cinema é o excesso. Nos preocupamos em fazer um filme com um ritmo instigante e não podíamos usar tudo. No DVD vamos usar bastante coisa que ficou de fora. O resto do material vai ficar na “adega” da Conspiração.
A imprensa vem apontando o “Mistério do samba” como uma espécie brasileira de “Buena Vista Social Club”, de Win Wenders. Até que ponto a comparação procede? Essa necessidade de comparar produções nacionais à estrangeiras te incomoda?
- Na verdade os dois filmes são primos. Quando fizemos as primeira filmagens o Buena Vista ainda não tinha sido filmado. O fato de filmar mestres das duas culturas foi uma sincronicidade. A comparação é natural
O samba atravessou o século passando por diversas transformações: do namoro com o Jazz, na bossa nova, até as recentes fusões com a música eletrônica e até com o hip hop. Qual seria o mistério dessa música que se faz cada vez mais atemporal e universal?
- No caso do nosso filme o mistério que sugerimos revelar é a simplicidade. Como aquele cotidiano de Oswaldo Cruz se transforma em poesia. O samba tem uma força de raiz , de base da nossa cultura. Nada parece ser capaz de exterminá-lo. A fusão com outros ritmos faz parte do seu poder transformador.
Por que um gênero musical que é a base da música brasileira ainda é marginalizado a ponto de não haver, como mostra o filme, o registro de muitas das canções pesquisadas?
- A Marisa fala que fazer a produção de um disco como o Tudo Azul faz parte de sua missão como cidadã. Não podemos esperar que o estado resolva todas as nossas deficiências. O filme, esperamos, vai estimular em muitas pessoas, este desejo de preservar o que está quase esquecido.
Vocês têm em mente expor o filme em Oswaldo Cruz, para as pessoas que moram lá?
- Num futuro próximo vamos exibir o filme no Portelão para a comunidade portelense. Possivelmente em um Domingo logo após a feira das Iabás, organizada pelo Marquinhos de Oswaldo Cruz.
Luz sobre o Quilombo de Candeia

Por Thales Ramos
Cinco meses depois de voltar a desfilar na avenida, o GRANES Quilombo, escola de samba fundada por Antônio Candeia Filho, tem mais um estímulo importante para a retomada de suas atividades: o documentário “Eu sou o povo!”, da trinca de estreantes Bruno Bacellar, Luis Fernando Couto e Regina Rocha.
Embora o material de divulgação do documentário diga “Eu sou o povo! Sobre Antônio Candeia Filho”, o filme não é propriamente sobre Candeia, como explica Bruno Bacellar, em entrevista ao blog O Samba:
“O filme não é exatamente sobre ele. É sobre o Quilombo, mas não há como se falar de Quilombo sem falar do Candeia e vice-versa”, esclarece o diretor.
E ele tem razão. A escola de Fazenda Botafogo, Zona Norte do Rio, foi idealizada em 1975 não apenas por Candeia, mas também por outros sambistas – oriundos ou não de escolas de samba – que estavam insatisfeitos com o rumo comercial que as agremiações vinham tomando.
“Os ideais do Quilombo são do Candeia e de todos que rumaram para lá. São daqueles que buscaram resistir às modificações que estavam ocorrendo no Carnaval, às que puseram de lado os sambistas e toda a gente que vivia o cotidiana das escolas”, diz Bruno.
Filme tem imagens inéditas da escola
O documentário levou um ano pra ser concluído e ficou com 83 minutos no corte final. Os diretores prometem cenas inéditas, como de Paulinho da Viola como diretor de harmonia da escola. Muitas imagens foram conseguidas no acervo do MIS (Museu da Imagem e do Som), resultado de um acordo, o que impede – por enquanto – a distribuição comercial da obra.
“Quem sabe, no futuro, a gente não renegocia. Vamos mostrar em universidades e escolas, festivais, mostras públicas. É só nos convidar que nós vamos”, acrescenta Bruno.
O documentário será lançado nesta sexta-feira (22/8/2008), às 19h30, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj). O endereço é Largo de São Francisco 1, 2º andar, Centro de Niterói (RJ).
Fiquem atentos, principalmente, às entrevistas de quem fez parte da história da escola, como o ator Jorge Coutinho (atual presidente do Quilombo), Luiz Carlos da Vila, Wilson Moreira, Sérgio Cabral (pai) e Pedro Carmo, o Português, primeiro presidente do Quilombo.
Leia mais sobre a retomada do Quilombo de Candeia
Serviço:
Lançamento do documentário
Eu Sou Povo!
Sobre Antônio Candeia Filho
Dia 22 de agosto, sexta-feira, às 19h30
IFCS – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Largo de São Francisco, 1 – 2º andar – Salão Nobre – Centro
Chi-cle-te oba, oba!
Por Thales Ramos
O título acima, acho que todo mundo conhece. Ele é emitido nas micaretas, pelos chicleteiros. E o que são os Chicleteiros? São os fãs da banda de axé Chiclete com Banana. Muito antes das micaretas, dos chicleteiros e do vocalista Bel, com seu shortinho apertado entoar o canto, Gordurinha e Almira compunham “Chiclete com banana”, sucesso absoluto na voz de Jackson do Pandeiro (vídeo acima). Usando uma expressão tão atual quanto chicleteiro, Jackson, sim, quebrava tudo.
Almira foi casada com Jackson e se tornou sua companheira de apresentação. A música foi gravada pela primeira vez em 1970, no disco “Aqui tô eu”, o sétimo da carreira do paraibano. Dois anos depois, no fundamental “Expresso 2222″, o ex-ministro Gilberto Gil apresentou sua versão (excelente) para a música.
A letra de Almira e Gordurinha é bem crítica. Ela aponta a maneira estereotipada com que o americano via nossa cultura e observa, já naquela época, a influência demasiada dos costumes americanos nos nossos. Ainda observa que o contrário não acontece e com bom humor, oferece resistência: “Eu só boto be-bop no meu samba / Quando o Tio Sam tocar num tamborim”. Gil, que na época era antropofágico e não era bobo, assimilou o recado da dupla.
Na voz de Jackson do Pandeiro “Chiclete com banana” foi popularizada. E não poderia ser diferente. Jackson era genial e simples. Não é exagero dizer que é do mesmo naipe de Luis Gonzaga, o rei do baião. Possuía talento e sapiência popular necessários para alcançar reconhecimento e se tornar o grande artista que foi. Como diz o Chico, em “Paratodos”: “Vá de Jackson do Pandeiro”.
Chiclete com Banana
Eu só boto be-bop no meu samba
Quando o Tio Sam tocar num tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele aprender que o samba não é rumba
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Eu quero ver a confusão
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Olhe o samba rock, meu irmão
É, mas em compensação
Eu quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão
Quero ver o Tio Sam, de frigideira
Numa batucada brasileira.
* * * *
Ouçam Jackson do Pandeiro cantando Chiclete com Banana, no player ao lado.
Jackson do Pandeiro e Almira em ação. Arrepiante.
Gilberto Gil e Marjorie Estiano cantando Chiclete com Banana
Saravá, jongo, saravá
Por Thales Ramos
Nesse vídeo, o pesquisador José Ramos Tinhorão bate um papo com Mestre Fuleiro, um dos fundadores do Império Serrano. O tema? Jongo!
Tinhorão, que é considerado xiita no que diz respeito à música popular brasileira (abomina bossa nova, por exemplo), valoriza bastante a conversa e procura tirar do mestre a melhor explicação possível sobre o que é jongo. O baluarte do “reizinho de Madureira” explica a Tinhorão as nuances do estilo, como o lado sobrenatural, o respeito às tradições e a batida do tambor.
“Eu acredito no sobrenatural. A gente, para brincar, pra dançar um pouquinho, na nossa cabeça, pede licença”, explica Mestre Fuleiro. Outra coisa que ele aponta, são as semelhanças das colocações dos versos nas rodas de jongo com os feitos pelos repentistas. No estilo desafio, pergunta e resposta. Daí, claro, não tem como não fazermos a ponte com o partido alto.
Não por acaso, dois dos maiores partideiros são oriundos da escola da Serrinha: Aniceto do Império (também fundador da escola) e Nilton Campolino. A dupla chegou a lançar um disco, “O Partido Alto de Aniceto & Campolino”. Campolino também aparece no vídeo, dançando com Janira do Jongo.
Hoje, o jongo anda bem valorizado. O grupo Jongo da Serrinha faz apresentações Brasil afora e conta até com patrocínio do Criança Esperança. Deve-se isso a pessoas como Tinhorão, que têm fé suficiente na cultura feita pelos homens simples do povo e documentam isso. E, claro, a homens como Mestre Fuleiro, que mantinham em seus quintais a tradição de seus antepassados.
Então, como dizia o partideiro: “Vamos na dança do caxambu / sarava / jongo / saravá”. Samba esse, que é um dos preferidos de um integrante deste blog.
Skylab: um samba raio laser

Por Emiliano Mello, Thales Ramos e Thiago Dias
Ele não morou na Vila, como Noel. Mas como o poeta, canta o Rio em crônicas que desvelam a cidade com a precisão de um trovador urbano enviesado. Os 16 anos de carreira tomam forma nos nove discos gravados na mais pura independência, sem qualquer apoio de gravadoras ou selos multinacionais, o que não lhe impediu de faturar o prêmio Claro de música Independente de 2005, tampouco de ser dos mais assíduos convidados do programa do Jô, na Globo.
Rogério Skylab está longe do estereótipo do carioca “da gema”. Sua música passa ao largo do litoral carioca, posto que a praia não lhe causa interesse. Prefere os subterrâneos do metrô, as ruas cáusticas que transpiram óleo diesel, o cheiro do ralo, clima febril dos inferninhos, a luz vermelha do cabaré. E a biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil: “Sempre fiz questão de ler os livros que os professores não indicavam”. Provocador, Skylab tem uma obra que, à vista dos mais preguiçosos, é difícil de classificar. Costuma dizer que faz uma troca de estilos o tempo todo, uma troca esquizofrênica. Mas há um fio que alinhava toda a sua obra e lhe garante o olhar crítico de que lança mão para cantar o Rio de Janeiro contemporâneo como poucos. Este fio é o samba. “Eu tenho uma relação profunda com o samba”. Um samba “harmonizando a lua com a bomba atômica”.
O blog conversou esta semana com Rogério Skylab, artista dionisíaco que lançou recentemente Skylab VIII, oitavo disco da saga musical em dez atos que ele vem construindo há nove anos. No bate-papo, Rogério fala pela primeira vez sobre a sua forte relação com o samba, sua paixão pelo Salgueiro, antecipa como será o seu DVD e nos dá pistas de como serão os próximos projetos. Como ótimo provocador, nos convida ainda a mover o foco da discussão a respeito da “raiz” do samba para longe do lugar-comum. Fazendo lembrar o saudoso Chacrinha, ele veio para confundir e não para explicar. Skylab gosta do confronto de idéias, fazendo jus à sua formação acadêmica em literatura e fisolofia pela UFRJ.
Em “samba isquemia noise” você canta: “O samba é o pai de todos / No samba eu me criei / Com o samba eu faço música / O samba é o puro prazer / Samba que eu quero ver”.Você costuma dizer que suas músicas são ficção. Então como é a sua relação com o samba, afinal?
Bem, essa palavra “ficção” é um problema. Para o senso comum, “ficção” é algo que não corresponde à realidade. Ou seja: se eu disse que o meu trabalho é ficcional, você logo interpreta como não tendo nada a ver com a minha vida. Não é bem assim. Entendo por ficção algo imaginado. Mas daí a pensar como aleatório, sem nenhuma relação com o que vivo e o que penso, vai uma distância considerável. Eu sempre digo que o meu trabalho é vivencial, ou seja, ligado à minha vida. Mas não é biográfico. Os acontecimentos do dia-a-dia não estão no que escrevo; as sensações, sim. Eu tenho uma relação profunda com o samba.
Na mesma música você diz que “o samba vive no exílio”. No entanto, está espalhado por todo o Rio, por toda a Lapa e Zona Norte principalmente. Não seria uma contradição?
(Risos) De fato o samba está espalhado por toda parte. Principalmente no Rio de Janeiro. Digo mais: a mim parece impossível qualquer compositor, sendo carioca, não fazer samba. Eu faço uma analogia com o catolicismo aqui no Brasil. Você pode ser umbandista, mas é católico também. Pode ser do candomblé, mas é católico também. Vou mais fundo: você pode ser ateu, mas é católico. O que quero dizer com isso? É uma questão de cultura, não é uma questão de opção pessoal. Sendo brasileiro, você é necessariamente católico, ainda que não tenha nunca colocado os pés numa igreja. Seguindo a linha de raciocínio, eu diria o mesmo do samba, se você é nascido e criado no Rio de Janeiro. Aqui você pode fazer heavy metal e ainda assim estará fazendo samba. A imagem do “samba no exílio” é que, por mais que você se sinta alijado de todos que o cercam, por mais que seja considerado um ET, em sendo carioca, ainda assim você estará fazendo samba. O meu samba vive no exílio.
Seu samba tem “aparência de raio laser”, como você diz na música “Um samba bem quente”. Paulinho da Viola, em “Argumento”, diz: “Tá legal, eu aceito o argumento / Mas não me altere o samba tanto assim. O que acha dos defensores do samba puro, do resgate das raízes, sem interferências modernas como “raio lasers”?
Esta questão é a que pega. Aí o bicho pega. Vou me alongar. Em primeiro lugar, eu desconfio muito daqueles que pregam um sentido pro samba, isto é, um sentido único. Até porque se formos para a origem do samba, vamos perceber uma confluência de elementos díspares: africanos, portugueses e até mulçumanos. Este caldo de cultura que constitui o samba e que, de uma certa forma, constitui o brasileiro, tem uma vocação para o múltiplo, para o “diferente”. Foi com Getúlio Vargas que se começou a defender a idéia do “nacional” em oposição à música de vanguarda. Nessa época, o maior arauto do nacionalismo na música brasileira era Mário de Andrade, sem esquecer, claro, do genial Vila-Lobos. Foi justamente nessa época que o samba como música radiofônica começou a se constituir. A partir daí foi que começou o abismo entre música nacional e música de vanguarda – coisa que não existia antes.
Esta é uma discussão que provoca debates acalorados ainda hoje…
Exatamente. Ela permanece viva na cultura brasileira. Perpassou a bossa nova, o tropicalismo e até mesmo o rock brasileiro. Pra mim, é uma falsa discussão. Beth Carvalho está errada, Paulinho da Viola está errado, e Caetano Veloso, nos primórdios do tropicalismo, também estava errado quando fez a música “A voz do morto”, ironizando “a voz do morro”. Esta divisão não me interessa porque serve justamente ao nacionalismo xenófobo e complexado. Quero que o samba tenha um amplo espectro como formador de nossa cultura. Tenho alergia a tudo que é “raiz” porque, no fundo, visa a interesses reducionistas. Eu quero que o samba seja mais. Daí por que valorizo aqueles que perverteram o samba, criando uma nova história. E ela passa por João Gilberto (não incluo a bossa-nova, apenas João Gilberto); depois por Jorge Ben com seu “Samba Esquema Novo”; chega em Chico Buarque (toda a sua obra, especialmente “A ópera do malandro”); João Bosco no início de sua carreira em parceria com Aldir Blanc; e chega nos dias atuais, com Marcelo D2 e Mundo Livre S/A, que introduziu o cavaquinho no movimento Mangue Beat.. Sob este aspecto, os carnavalescos das escolas de samba estão a léguas de distância do samba de raiz. Graças a Deus.
Você disse torcer pelo Salgueiro, de onde vem essa paixão? Há algum samba-enredo que tenha te marcado, seja do Salgueiro ou não? Já desfilou, ou desfilaria se convidado?
Eu morava na Tijuca e um dia, quando criança, fui à Praça Saens Peña com a minha mãe. Ali eu vi pela primeira vez a Xica da Silva fantasiada a rigor – a Xica está para o Salgueiro como o goleiro Castilho está para o Fluminense. Depois, ainda bem novinho, assisti na Presidente Vargas (não havia ainda o Sambódromo) ao Salgueiro com o seu enredo “Bahia de Todos os Deuses”. Havia ainda aquela passista gostosa, agora me foge o nome, que saiu até na capa de um disco de vinil da escola. Às vezes vejo umas coisas, como por exemplo: o cara chega do Nordeste com 22 anos de idade, já formado, e com o tempo se torna um verdadeiro carioca. Falácia. Esse cara nunca será carioca. Ele não experimentou na infância, quando se começa a formar a personalidade, os acontecimentos essenciais da cidade. Eu, por exemplo, não sou cartão postal. Mas com cinco anos de idade fui com meu pai ao meu primeiro jogo de futebol no Maracanã. São experiências básicas, decisivas, de formação. Nunca saí por uma escola. Se sair, saio pelo Salgueiro. Fui convidado pela Mangueira e não quis. Pra mim, isso é coisa séria. Sou Salgueiro e não sou mais nada. Assim como sou Fluminense e não sou mais nada. Se você é carioca, você me compreende.
Tem algum sambista que tenha influenciado a sua obra?
João Gilberto
O dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira fala até do “Zumbi do Mato”, mas não há nenhuma referência ao Rogério Skylab. A que atribui a omissão do verbete?
O Ricardo Cravo Albin já não bate bem com as bolas.
Costuma dizer que quer fazer da vida uma obra de arte, como em Foucault. Também diz que o artista tem a função exclusiva de entreter. Você, afinal, é um ARTISTA ou uma OBRA DE ARTE?
Eu não sei quando disse que a função exclusiva do artista é o entretenimento. Essa frase fica bem na boca de um Lulu Santos. Na minha, não. Quanto a fazer da vida uma obra de arte, eu bem tenho tentado. Mas não sei se tenho conseguido.
Como está a preparação do seu primeiro DVD? Quando sairá? Fale um pouco sobre o projeto.
A minha idéia inicial era fazer do “Skylab X” CD e DVD. Eu faria um retrospecto dos meus discos anteriores e, então, finalizaria a série dos Skylabs aí (N.R. série de 10 discos que vem sendo construída há nove anos). Só que já pintaram novas músicas, e seria um desperdício não gravá-las dentro do projeto. Assim foi que decidi fazer do “Skylab X” um disco de inéditas, como os anteriores, e para o bem de muita gente que não se conforma com o fim. E aí, sim, viria em seguida o “Skylab 00” – ponto final mesmo (com a gravação de um show ao vivo para CD e DVD). Mas quando digo fim, quero dizer fim desta série, deste projeto, com estes músicos, com esta forma de gravar os discos. Já estou idealizando um novo projeto – o “Skygirls”. Depois, o “Skybirck”. Por fim, o “Skyzé”. Acho que vai dar pé.
* * * *
Ouça aqui “um samba bem quente”
Assista aqui ao clipe da música “Parafuso na cabeça”
Parafuso na cabeça
Caderninho, caneta roída na ponta, gravador de fita e máquina fotográfica no lombo. O blog está na rua. Segue para uma entrevista com um personagem sensacional. Tão logo pronta, entra no ar.
Semana próxima. Você se surpreenderá, meu chapa.
Alguma idéia de quem seja?
No samba, Silva é sinônimo de realeza
Por Thales Ramos
Silva é certamente o sobrenome mais popular brasileiro. E por isso mesmo, há quem o renegue. Observe entre os seus conhecidos: quem tem Silva e mais um sobrenome sempre opta pelo outro na assinatura. Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, um dos maiores treinadores do futebol brasileiro, é “da Silva”. Em rápida pesquisa na maravilha do Google, vi que tanto na Espanha como em Portugal, o nome era de família abastada. Também vi que no Império Romano recebia-o as famílias que moravam em cidades na selva (silva quer dizer selva, em italiano).
No Brasil, também não foi diferente. Os portugueses que aqui desembarcavam recebiam mais um sobrenome. Sendo assim, os que ficavam pelo litoral eram acrescidos do Costa e os que optavam pelo mato, o Silva. Posteriormente o nome foi bastante difundido pelos escravos, já que eles recebiam os nomes de seus senhores.
Continuando por aqui, temos Silvas famosos, incluindo o atual presidente, que não foi o primeiro. Antes do operário do ABC, o militar Costa e Silva subiu a rampa do planalto em 1967. Ayrton Senna também era “da Silva”, assim como Lampião e a escrava Xica, que virou filme, enredo do Salgueiro (1963) e hit de Jorge Benjor.
No samba temos um quarteto de ouro que leva Silva na assinatura. Ao contrário do lugar-comum do sobrenome, todos eles são pioneiros, únicos e geniais. Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra têm estilos diferentes e em comum – fora o sobrenome – a marca que cada um deixou na história.
Ismael Silva tinha como reduto o morro do Estácio. Um dos mais influentes sambistas da história é tido por muitos (há controvérsias) como o fundador da primeira escola de samba, a Deixa Falar, e é um dos principais responsáveis pela assimilação da cultura das escolas e do próprio gênero pelas classes financeiramente superiores. A levada do samba que conhecemos hoje tem forte contribuição de Ismael. Sua célebre frase: “No estilo antigo, o samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar assim na rua? Aí a gente começou a fazer um samba assim: bumbum paticumbumpruburundum”, serviu de inspiração para Beto Sem-Braço e Aluisio Machado comporem “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, para o Império Serrano, campeã do carnaval de 1982.
Contemporâneo de Ismael, Moreira da Silva foi o maior representante do samba de breque. Tinha fama de malandro e boêmio, mas sempre foi casado com a mesma mulher e dizia que dormia cedo. Talvez por isso tenha vivido quase cem anos (malandragem, de fato). Também era conhecido como Kid Morengueira, personagem que incorporou em alguns dos seus sucessos como “O Rei do gatilho” e “Os intocáveis”. Em “Acertei no milhar”, música que ele conta a história do malandro que fica milionário no jogo do bicho, ele dá uma “renegada” no sobrenome: “Eu vou comprar um nome não sei onde/de Marquês Morengueira de Visconde”. Era um showman.
A maior voz dos quatro Silvas, Roberto ficou conhecido como o “Príncipe do Samba” e cantava samba sincopado. Com mais de 300 discos gravados, teve muito sucesso na época de ouro do rádio, tendo feito parte do elenco das rádios Tupi e Nacional. Hoje, infelizmente, não grava mais. O último disco de Roberto data de 2002 e o penúltimo de 1979.
Na carência de bons novos intérpretes masculinos, reviver nomes como Roberto Silva não seria má idéia. Ouçam a série de discos “Descendo o morro”, são quatro volumes onde o eco da voz de Roberto o confirma como uma das mais belas vozes do samba. Em entrevista recente ao nosso jornal O SAMBA É MEU DOM, Paulinho da Viola disse: “O maior sambista vivo é Roberto Silva”, assim, de alteza para alteza.
Por fim, Bezerra da Silva fazia um samba repleto de duplo sentido, crítico e bem humorado. Samba para se ler nas entrelinhas. Suas letras eram compostas pelo cidadão que vivia o dia-a-dia da favela e das classes menos abastadas e tinham a maestria de traduzir as agruras diárias de forma crítica e engraçada. E Bezerra era o porta-voz dessa gente; ele mesmo, sempre ferino, um dos maiores críticos da indústria fonográfica. Infelizmente, não deixou sucessor. E pior, tem sido pouco cantado nas rodas de samba. Talvez a força da ironia de suas letras intimide alguns puristas.
De linhas tão diferentes, marcantes e especiais, todos os quatro comprovam que há samba para todos os gostos.
Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra, qual dos Silva lhe apetece mais?
* * * *
Vejam também:
Roberto Silva com a xará (e bijou) Roberta Sá cantando Falsa Baiana (Geraldo Pereira)
Trecho do curta “Onde a Coruja Dorme”, de Márcia Derraik e Simplício Neto, sobre Bezerra da Silva.
Terreiro Grande, maior ainda nos cinemas
Por Thales Ramos e Bruno Villas Bôas
Uma das maiores novidades do samba em 2007, os paulistas do Terreiro Grande terão seu trabalho reconhecido nas telas do cinema. O responsável pelo projeto, Zeca Buarque Ferreira, espera que até o final do ano o documentário sobre o grupo já esteja finalizado.
O cineasta, que foi assistente de direção de Nelson Pereira dos Santos e Hugo Carvana, e atualmente produz uma série de videos sobre o movimento Sem Terra, teve seu primeiro contato com os sambistas por conta do primeiro show deles com Cristina Buarque, sua mãe. “Quando fomos fazer o lançamento do cd, no Teatro FECAP (SP), resolvi começar a rodar o documentário, mesmo sem dinheiro. Sabia que o que teríamos ali, jamais se repetiria”.
A pré-produção do disco “Cristina Buarque e Terreiro Grande – Ao vivo” foi importante na concepção do filme. O trabalho foi fruto da cessão do áudio do show pela FECAP. A alta qualidade do som foi o estalo para a idéia do cd. “Com esse material nas mãos, comecei a correr atrás para garantir a produção do disco. Nesse processo fui conhecendo melhor as pessoas e a história do Terreiro Grande”, explica Zeca, garantindo que sua praia é o cinema, não a música.
Por enquanto, ele já tem 15 horas de gravação no balaio e mais algumas por filmar. As imagens mostrarão os bastidores do grupo e a expectativa em torno do primeiro show, além do cotidiano dos integrantes do Terreiro Grande, o show na Ilha de Paquetá (RJ) e uma entrevista com Cristina. A parte musical – que o diretor promete ser intensa – foca menos no show e mais nas rodas. Decisão acertada, já que o potencial do grupo é justamente esse, ao vivo e sem microfones. “Quero colher mais imagens do dia a dia deles, ambientes de trabalho e claro, mais rodas de samba”.
Como todo cineasta brasileiro, Zeca anda esbarrando na falta de apoio financeiro para seu projeto. Mas tem conseguido alguns apoios no peito e na raça, embora também ponha algum do bolso. Através de algumas produtoras (DGT Filmes e Quero-Quero Filmes), conseguiu equipamento. Com três câmeras emprestadas, filmou o show que pode render um dvd ou um programa de tv. Fora isso, agregou uma equipe técnica que vai da fotografia até a finalização, que abraçou o projeto.
Ele agora corre atrás das leis de incentivo para mais financiamento, assim poderia inclusive se dedicar mais ao filme que, por enquanto, lhe toma apenas as horas vagas. “Eu acho o Terreiro Grande um dos fenômenos mais interessantes e ricos da cultura brasileira em muito tempo. Estou tentando via leis de incentivo, editais etc. Vamos ver se alguém se interessa.”


