Posts filed under 'Crônicas'
Um João Nogueira cinematográfico
Que beleza foi matar saudades de João Nogueira no curta-metragem “Carioca, Suburbano, Mulato, Malandro”, de Jom Tob Azulay (“Doces Bárbaros”). Desde que descobri (ou descobriram pra mim) o filme, já vi umas cinco vezes. Eu poucos mais de 13 minutos de fita temos contato com um cara pândego, malandro, querido e genial. Azulay foi feliz em cada momento que captou do sambista. Sérgio Cabral (pai) também tem participação importante na película. Todos muito pertinentes. No youtube o filme está dividido em duas partes.
Nos tempos que Cabral era só um…
Logo no começo, o pai do governador “pacífico” vestido com a camisa cruzmaltina trava um diálogo hilário com o sambista flamenguista, as vésperas de um Flamengo e Vasco. Com muito bom humor os dois rivalizam, falam sobre o placar do jogo e duelam com Zico e Roberto Dinamite. O jornalista tece vários comentários sobre a música de João Nogueira ao longo do filme.
Portela
Ainda nesse início, João é identificado como portelense. Numa conversa na mesa de bar com Nozinho da Portela e outros, o futuro da escola é discutido e os tempos do folclórico Natal da Portela é invocado. Todos buscando uma fórmula para recuperar os tempos de glória da escola. Glórias que até hoje não chegaram, diga-se de passagem. Faz tempo que a Portela não belisca um carnaval e os tempos de gigante ficam por conta do passado.
Saindo do boteco João parte para o encontro com Vicentina, imortalizada no “Pagode do Vavá” (Paulinho da Viola). Quem não se lembra de: “Provei do famoso feijão da Vicentina/Só quem é da Portela/É que sabe que a coisa é divina”. É claro, o assunto é feijoada. A cozinheira membro da Velha Guarda reclama do sumiço de João Nogueira, Clara Nunes e Paulinho da Viola. “Vocês sumiram, tem alguma coisa que vocês não querem me contar”. Logo depois João migrou para a Tradição.
Roda de Samba
O pagode começa no quintal. Entre os presentes estão Paulo Cesar Pinheiro, Nei Lopes, Dino 7 cordas e um barbudinho que eu acho que é o Maurício Tapajós. Dentro de um panelão ferve um mocotó de dar água na boca. Angela, esposa de João, tem a beleza destacada dentro de um belo vestido branco. Sérgio Cabral faz várias viagens no mocotó. É arrepiante pensar o que seria o clima daquela roda. O filme termina ressaltando o que para mim é o traço mais marcante de João Nogueira, sua voz. Dentro de um estúdio de gravação ele canta “Súplica” e por aí vai até o término dos créditos finais.
Em tempo. A dica do filme saiu da tuitada da leitora Thatiana Diniz (@tdiniz), também conhecida como Musa de caminhoneiro, sexy simbol dos condutores de veículos de carga pesada. Leiam o blog dela, não paga pedágio.
1 comment agosto, 2010
Ivan Milanez divulga faixa de seu novo disco

Por Thales Ramos
Foto de Bruno Villas Bôas
Pelo orkut, Ivan pediu. E nós, claro, acatamos o desejo do bamba da Velha Guarda do Império Serrano para divulgar a faixa do seu novo disco “Filho de Pemba”, que já já sai do forno. Leiam aqui, a entrevista que Ivan nos deu anos atrás.
A faixa em questão é “Lavradio 106″(Bicudo e Renato Fialho), e contou com a participação de Zeca Pagodinho na gravação. Enquanto isso o blog aguarda ansioso pelo trabalho do sambista. Escutem abaixo:
Add comment agosto, 2010
Guimarães Rosa e o samba
Veredas no sertão baiano, tão presentes na obra de Guimarães Rosa
Por Thales Ramos
Foto Thales Ramos
“Sagarana”, gravada por Clara Nunes no álbum “Forças da Natureza, celebra o aperto de mãos de um dos maiores escritores brasileiros com o samba. A música de mesmo nome de um livro de Guimarães Rosa, publicado em 1946, virou canção nas mãos de João de Aquino e Paulo Cesar Pinheiro.
A letra é inspirada na maneira inovadora de como o Guimarães Rosa escrevia, como no caso de “Grande Sertão: veredas”. Ganha um ramo de Buritis quem cantar a letra sem titubear!
Sagarana
(João de Aquino/Paulo Cesar Pinheiro)
A ver, no em-sido
Pelos campos-claro: estórias
Se deu passado esse caso
Vivência é memória
Nos Gerais
A honra é-que-é-que se apraz
Cada quão
Sabia sua distinção
Vai que foi sobre
Esse era-uma-vez, ‘sas passagens
Em beira-riacho
Morava o casal: personagens
Personagens, personagens
A mulher
Tinha o morenês que se quer
Verdeolhar
Dos verdes do verde invejar
Dentro lá deles
Diz-que existia outro gerais
Quem o qual, dono seu
Esse era erroso, no à-ponto-de ser feliz demais
Ao que a vida, no bem e no mal dividida
Um dia ela dá o que faltou… ô, ô, ô…
É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana…
A pois que houve
No tempo das luas bonitas
Um moço êveio:
- Viola enfeitada de fitas
Vinha atrás
De uns dias para descanso e paz
Galardão:
- Mississo-redó: Falanfão
No-que: “-se abanque…”
Que ele deu nos óio o verdêjo
Foi se afogando
Pensou que foi mar, foi desejo…
Era ardor
Doidava de verde o verdor
E o rapaz quis logo querer os gerais
E a dona deles:
“-Que sim”, que ela disse verdeal
Quem o qual, dono seu
Vendo as olhâncias, no avôo virou bicho-animal:
- Cresceu nas facas:
- O moço ficou sem ser macho
E a moça ser verde ficou… ô, ô, ô…
É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana…
Quem quiser que cante outra
Mas à-moda dos gerais
Buriti: rei das veredas
Guimarães: buritizais!
Add comment julho, 2010
Luiz Ayrão cantou a bola dividida na seleção inglesa
Samba e futebol sempre tabelaram muito bem. Samba e mulher, outra bela combinação. Samba, futebol e mulher, num bolo só, há de se ter um certo talento para acertar a mão. Em 1969, Luiz Ayrão compôs “Bola dividida”, no LP “Meus Momentos”. A canção retrata a dúvida de um rapaz, se deve ou não, conferir os atributos da mulher de um amigo que lhe dá bola. Ouçam a música, na voz de Diogo Nogueira.
Mais de 40 anos depois, um caso de amigo fura-olho abalou a terra da rainha. O capitão do English Team, John Terry, casado e pai de dois filhos, traçou a mulher do companheiro de seleção inglesa, Wayne Bridge. Para piorar a situação, os dois jogaram juntos no Chelsea. O caso ganhou a capa dos tablóides ingleses e dos jornais do mundo inteiro. Terry admitiu o caso, com a modelo francesa, Vanessa Perroncel e perdeu a braçadeira de capitão. Já Bridge, além da bola nas costas, pediu que não fosse mais convocado, para não ter que cruzar com o amigo traíra.
Na música de Ayrão ele diz: “Pois se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo/Se ela faz com ele, vai fazer comigo/E vai fazer comigo exatamente igual/E ela é uma morena sensacional/Digna de um crime passional/E eu não quero ser manchete de jornal”. Não sei se o beque inglês viveu esse dilema. O certo é que ele mordeu a maçã e virou manchete.
Depois, já no final da música, o rapaz especula sobre a possível reação das pessoas, caso ele não ceda aos encantos da moça: “Só que eu não quero que essa gente diga/esse camarada se androginou/a moça deu bola a ele/e ele nem ligou”. Será que Terry teve medo que duvidassem de sua masculinidade? Não situação ou caso na vida que não tenha um samba correspondente. O zagueiro da seleção do país que inventou o futebol pega a mulher do amigo, e por aqui, muito tempo antes o Ayrão, velho de guerra cantava a pedra.
Há pouco tempo, o craque do Boca Juniors, Juan Roman Riquelme, teve seu nome envolvido em caso parecido. Notícias davam conta que ele havia cantado a modelo e apresentadora Luli Fernandes, mulher do companheiro de equipe, Pablo Mouche. O jogador nega o fato e se diz perseguido. Por aqui, em 97, o jogador Silas, que veio do futebol nordestino para o Botafogo, no Rio de Janeiro, jurou o meia Souza, de morte. O cearense disse que enfiaria a peixeira no bucho do colega, por desconfiar de um envolvimento dele com sua esposa. Vejam abaixo, as beldades que estavam no centro da polêmica. Se fosse mulher do seu amigo, o que você faria?
Bola Dividida
Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu
Tá me dando bola tão descontraída
Só que eu não vou em bola dividida
Pois se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo
Se ela faz com ele vai fazer comigo
Se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo
Se ela faz com ele vai fazer comigo
E vai fazer comigo exatamente igual
Ela é uma morena sensacional
Digna de um crime passional
E eu não quero ser manchete de jornal
Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu
Tá me dando bola tão descontraída
Só que eu não quero que essa gente diga
Esse camarada se androginou
A moça deu bola a ele e ele nem ligou
Esse camarada se androginou
A moça deu bola a ele e ele nem ligou
4 comments abril, 2010
A nova guarda
Por Thiago Dias
“A comissão julgadora deu o primeiro lugar à XXX, que impressionou não pelo samba, pela harmonia ou pela bateria, mas pelo luxo de suas alegorias e pela ostentação de sua comissão de frente”, diz o texto de Sérgio Cabral.
Agora, pergunto: que nome você colocaria no lugar do XXX? Em que ano se deu este desfile citado pelo pai do governador fluminense? Errou quem disse Unidos da Tijuca e 2010. No livro “As escolas de samba do Rio de Janeiro”, Cabral lembra a vitória da Vizinha Faladeira em 1937, quando a comissão de frente da “agremiação recreativista” do Santo Cristo usou um carro e seis cavalos para abrir o seu desfile campeão.
A entrada de novos elementos foi um “choque” para a época, um ano depois do primeiro título da hoje inovadora Unidos da Tijuca. O escritor conta que, apesar de terem dado as melhores notas para a Vizinha Faladeira, os jurados Raul Alves, Carlos Ferreira, Abílio Harry Alves e Lourival Pereira (sim, só eram quatro) fizeram questão de escrever um texto contestando o resultado, relatando o que parecia errado nos recursos utilizados pela campeã e na forma de julgamento:
“A comissão não deixa de reconhecer ter sido a Portela (vice) a que mais preencheu as finalidades das escolas de samba. Entretanto, assim procedeu em virtude dos quesitos apresentados não corresponderem ao julgamento a realizar. (…) Pensa também a comissão que a exibição de carros alegóricos e de comissão de frente a cavalo ou de automóveis foge à finalidade das escolas de samba, hoje a parte maior, mais interessante e mais nacionalista do carnaval carioca”.
A imprensa, que hoje delira com a mágica de Paulo Barros na Sapucaí, também foi contra a comissão de frente turbinada do pessoal do Santo Cristo. O livro mostra que a “Gazeta de Notícias” fez uma crônica descendo a lenha na Vizinha Faladeira: “Isto não é mais escola de samba”, escreveu o jornal reclamando também dos cavalos e carros alegóricos.
Faz tempo que um samba emocionava “a Velha Guarda lá na comissão de frente”, como cantava a Vila Isabel em 1984 nos versos de Martinho. Na era Sambódromo, as equipes coreografadas tomaram a dianteira das escolas e viraram notas.
O estudo “Comissões de frente – Alegria e beleza pedem passagem”, disponibilizado no site “Academia do Samba”, conta que em 1985 os dançarinos da Mocidade foram os primeiros a se posicionarem à frente do carro Abre-Alas. Seis anos depois, em mais um título da escola de Padre Miguel, a coreografia nas comissões de frente passou a ser atrelada ao enredo abordado. Em 1994, mais uma vez com Renato Lage na agremiação do Castor, há a estreia do tripé para compor o cenário e a performance dos componentes.
A partir daí, destaque para a trupe de Rosa Magalhães na Imperatriz, que deu um salto de qualidade no quesito e transformou a comissão de frente em fator decisivo para a conquista de um título na Sapucaí. Mas ela sozinha não ganha jogo. Que o diga a Mangueira, que em 1999 fez história com os “sósias” de Pixinguinha, Donga, Sinhô, Ismael Silva, Natal, Cartola, Mestre Fuleiro, Nelson Cavaquinho, Candeia, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Tia Ciata, Carmen Miranda e Noel Rosa, comandados por Carlinhos de Jesus, mas não levantou o caneco.
A turma de Paulo Barros marcou seu nome na avenida em 2010. As meninas que trocavam de roupa em dois segundos serão lembradas como inovadoras. Ajudaram a tirar a Tijuca da longa fila de espera pelo primeiro lugar. E, ao contrário dos pioneiros da Vizinha Faladeira, não foram contestadas. Sinais de um novo tempo, de nova guarda.
1 comment março, 2010
Alegria e sabedoria de Walter Alfaiate
Por Equipe O Samba. Foto: Bruno Villas Bôas
Quando começamos esse blog uma das nossas principais intenções era de dar voz a alguns sambistas e de alguma forma fazer jus a a trajetória deles, cavando um espaço para os bambas registrarem parte de sua história. Uma das nossas primeiras entrevistas foi com Walter Alfaiate, cantor e compositor que faleceu no último sábado. Não interessa aqui biografar o cara e dizer o que ele fez e o que não fez, isso em qualquer busca na rede é fácil de achar. Preferimos nos ater a nossa experiência pessoal.
Seu Walter nunca se sujou de importância e desde o primeiro contato, abriu o coração e a porta de sua alfaiataria em Copacabana para quatro aventureiros que queriam entrevistá-lo. A sorte estava ao nosso lado. A entrevista rendeu e foi bem repercutida e lida aqui no blog. A foto -a mesma desse post- tem sido usada a torto e a direito na internet. Mérito do velho alfaiate que nos honrou com bom humor e belas histórias. Meses depois ele compareceu a primeira festa do nosso jornal, do qual ele era contracapa e com a elegância que lhe era peculiar sempre que nos encontrava pelas rodas de samba afora distribuindo o tabloide, fazia questão de pegar um maço e oferecer a quem estivesse perto, dobrando de modo que sua entrevista ficasse em destaque.
Um homem sorridente, alegre, sábio e divertido que nas suas conversas procurava sempre ver o lado bom da vida e quase sempre fazendo reverência e referência as mulheres , a Portela e ao Botafogo. Ao lado de Walter Alfaiate só restava rir e escutar. Levar na lembrança todas as vezes que o vimos dar canja nas rodas de samba, sempre mantendo o nível alto, sem perder o tom e fazendo a poeira subir. Escrevendo essas palavras e puxando os fatos na memória é impossível não lacrimejar os olhos e ficar impassível diante do arrepio da espinha.
Walter Alfaite deixa seu nome marcado no samba e na cultura popular brasileira. Um legado de felicidade e a lição de que muitas vezes faz-se necessário sublinhar o que há melhor na vida, sem deixar que as mazelas momentanêas nos abatam. Muito obrigado por tudo.
Aqui alguns posts em que Walter Alfaite foi mencionado:
O Alfaiate na linha do samba. Entrevista publicada aqui e no jornal.
Baba Malandro. Texto de Emiliano Mello
O Samba é o dom deles. Junto com outros sambistas, clicado por Bruno Villas Bôas
4 comments março, 2010
A grande paixão
Por Thiago Dias
As fantasias já estão na Comlurb, os carros alegóricos voltaram à Cidade do Samba e a bola preta agora só rola nas mesas de sinuca. Na cabeça, fica o samba de enredo. Sempre. Da safra de 2010, a maioria vai ser esquecida. Certamente guardarei os versos da Imperatriz, da Vila Isabel e, talvez, o refrão da Mangueira. Mas alguns, há anos, guardam lugar cativo no lalaiá do chuveiro. Que maravilha reencontrá-los no livro “Samba de enredo – história e arte”, um belo presente pós-carnaval de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas.
Mais do que explicar e lembrar letras históricas, a dupla tem opinião própria. E os dois me pegaram de surpresa – boa – ao elegeram o melhor samba de enredo da história: “Seca do Nordeste”, levado pela Tupi de Brás de Pina ao desfile na Praça XI em 1961. A escola ficou em segundo lugar no Grupo 2 (atual Grupo de Acesso), atrás da Unidos do Cabuçu, mas subiu para o Grupo 1 (atual Grupo Especial).
Tenho uma vasta coleção de sambas de enredo e sabia que este era considerado um dos mais bonitos, mas não lembrava muito da música. Ainda bem que Mussa e Simas lembravam. A letra de Gilberto Andrade e Waldir de Oliveira, que ganhou gravação do mestre Jamelão, é impressionante e realista, com versos como “O chão continua seco e poeirento / No auge do desespero / Uns se revoltam contra Deus / Outros rezam com fervor”. “A Tupi foi a primeira escola de samba a eleger um enredo de protesto, a falar de um problema brasileiro”, escreve a dupla no livro.
Mussa e Simas consideram “Seca no Nordeste” o melhor da história “não só pela beleza poética e melódica, mas pela revolução na trajetória do carnaval”. O livro tem uma passagem que bate com o que eu pensso desde menino: desfile na Sapucaí é coisa séria, por isso me irrita o bate-estaca no camarote número 1 com suas madonnas e maradonas. “O samba da Tupi mostra uma coisa importante: carnaval pode ser uma festa; mas desfile de escola de samba é coisa séria; e tem um alcance muito maior, tem um sentido épico que transcendo o próprio carnaval”, concluem os dois, que no ano passado fizeram uma obra antológica para o enredo “Tambor” no Salgueiro, mas ficaram fora da avenida para mais uma cópia de “Explode Coração”.
É evidente que os compositores da Tupi acertaram na mão. Entendo a importância daquela música para a época de afirmação das escolas, quando o samba de enredo ainda buscava uma forma definitiva. Escolher o “Melhor de todos os tempos” é uma tarefa árdua e polêmica. Tiro o chapéu para Mussa e Simas, pois seria fácil ficar fora dessa briga. Há quem ache “Aquarela brasileira”, o clássico de Silas de Oliveira no Império Serrano em 1964 (reeditado em 2004), o maior. Essa é quase uma unanimidade no mundo do samba. Mas também estou fora dessa corrente.
Salgueiro, Mangueira, Mocidade e Portela possuem safras de encher qualquer disco de clássicos. “Liberdade, liberdade”, campeão com a Imperatriz em 1989, é a música de carnaval que eu mais cantei na minha vida. “Raízes”, a obra-prima de Martinho da Vila sem rimas em 1987 também poderia liderar o “top 10″ sempre. Mas eu atravesso o mar e o tempo para achar o maior. Vou a 1977, cinco anos antes do meu nascimento. Recorro aos versos de Aurinho da Ilha, Ione do Nascimento, Ademar Vinhaes e Waldir da Vala para ver o como o sol nasceu na sutileza do amanhecer: “Domingo”, da minha União da Ilha, é o samba de enredo mais bonito da história.
Os escritores do livro citado neste post não esqueceram dessa pérola insulana. Para a dupla, “Domingo” é o “maior samba descritivo de cenas e paisagens populares”. Mussa e Simas lembram que o hino é “composto todo em menor – o que leva a uma reflexão interessante: mesmo para um desfile descontraído e alegre, como foi o da União, é possível descer o tom do canto sem prejuízo da evolução e da harmonia”.
Abaixo, o vídeo de “Domingo” e a letra de “Seca no Nordeste” (escute o samba da Tupi no player ao lado, na gravação de Jamelão):
Seca no Nordeste (1961 – Tupi de Brás de Pina)
Autores: Gilberto Andrade e Waldir de Oliveira
Ô Ô Ô Ô Ô
Sol escaldante, terra poeirenta
Dias e dias, meses e meses sem chover
E o pobre lavrador
Com a ferramenta rude
Dá forte no solo duro
Em cada pancada parece gemer
Ô Ô Ô Ô Ô
Geme a terra de dor
Ô Ô Ô
Não adianta meu lamento meu Senhor
Ô Ô Ô e a chuva não vem
O chão continua seco e poeirento
No auge do desespero
Uns se revoltam contra Deus
Outros rezam com fervor
Nosso gado está sedento, meu Senhor
Nos livrai dessa desgraça
O céu escurece
As nuvens parecem
Grandes rolos de fumaça
Chove no coração do Brasil
E o lavrador
Retira o seu chapéu
E olhando o firmamento
Suas lágrimas se unem
Com as lágrimas do céu
O gado muge de alegria
Parece entoar uma linda melodia
Ô Ô Ô Ô Ô
Add comment fevereiro, 2010
Viva a Tijuca! Canta, Borel!
Por Thales Ramos
Depois de 74 anos a Unidos da Tijuca vence um carnaval. Pelo segundo ano seguido o título fica no bairro da zona norte do Rio de Janeiro. É bom ver o simpático bairro nas manchetes por causa de uma notícia tão boa. É bom ler TIJUCA, em letras garrafais na banca sem ser por causa de bala perdida e confronto entre a polícia e o tráfico de drogas.
Melhor ainda o morro do Borel estar em festa. Parabéns comunidade. A Unidos da Tijuca é o xodó do morro e esse ano, depois de tanto tempo consegue dar a alegria máxima do carnaval aos moradores com o título do carnaval 2010.
A terceira escola de samba mais antiga do Rio, fez bonito e caiu na boca povo. Ninguém aceitava outra coisa que não fosse a vitória. Nem o mangueirense mais fanático, nem o portelense mais xiita. Aquela comissão de frente foi de tirar o fôlego. Nem o Mister M cagueta! Mérito dos coréografos Priscila Mota e Rodrigo Nery. Parabéns para todos os componentes que trabalham quase o ano inteiro nas alegorias, adereços e alas, para por o carnaval na avenida.
Paulo Barros finalmente fez o juri se render. A inovação venceu o lugar comum e as amarras chatas da tradição. O carnavalesco é uma das melhores novidades da história recente do carnaval. Melhor para quem gosta de samba. Ótimo para quem gosta de carnaval.
Canta, Borel!
Add comment fevereiro, 2010
Os carnavais não acabam quarta-feira
Por Thales Ramos
Passada quarta-feira de cinzas meu peito é socado por algumas recordações da festa do Momo. Muitos criticam os foliões, por que nessa época os brasileiros “esquecem” os problemas e caem na festa sem culpa alguma. Mantenho-me fora do círculo dos críticos. São tantos pepinos durante o ano, que acho justo fingir que está tudo bem durante quatro dias do ano.
Voltando as lembranças, enumero aqui, algumas mais importantes e que não por acaso falam mais forte a minha memória. Carnaval é época boa. É o melhor feriado do ano e talvez por isso durante o período aconteçam tantas histórias que ficam marcadas no resto da nossa vida.
Lembro dos meus carnavais na cidade natal da minha mãe, Porciúncula. Meu tio tinha uma escola de samba chamada Unidos da Ponte, onde toda a família desfilava. Uma vez sugeri um enredo sobre futebol e como prêmio desfilei no carro alegórico, ao lado de Friaça, ponta-direita que fez o gol do Brasil na final da copa de 50. Mais velho passei vários carnavais lá e sempre levava uma penca de amigos, dois deles conheceram suas futuras esposas lá. Aconteceu o mesmo com outro camarada na Bahia. Teve um ano que comecei um namoro e no seguinte terminei. Lembro de acordar numa rodoviária de uma cidade vizinha, sem saber muito bem onde estava. Lembro que uma vez me fantasiei de capitão América e que era comum minha coroa costurar com o próprio punho uma fantasia pra mim.
Lembro que quando era moleque eu comprava o cd das escolas de samba e gravava todos os sambas-enredo e o respectivo nome de cada puxador. Todo desfile eu sabia o nome de todos e o que mais eu gostava era o esquenta, onde o intérprete solitário com o cavaco fazia a introdução da escola na Sapucaí.
Não esqueço o carnaval de 93, quando vi Salgueiro fazer o carnaval mais absoluto que eu me recordo. No mesmo ano estreou a Grande Rio no grupo especial e eu ainda morava em Duque de Caxias. Lembro como fiquei emocionado com a comissão de frente da Mangueira, com os componentes com as máscaras de vários nomes do samba, como Pixinguinha, Beto Sem-braço e Candeia.
Lembro de quando vi pela primeira vez a minha Beija-flor ser campeã, empatada com a verde e rosa. Era tradição meu pai comprar a revista Fatos e Fotos, com as melhoras imagens das melhores desnudas do carnaval. Minhas madrugadas eram embaladas pelos bailes picantes do Scala. Lembro que uma vez o Fernando Vanucci disse que a Viviane Araújo era a paroxítona do carnaval, quando ela apareceu de seios de fora, na Vila Isabel. A moça nem era famosa ainda e eu não entendi o que ele quis dizer.
Em 2007 passei meu primeiro carnaval nos blocos do Rio de Janeiro e no meio da imponência do Bola Preta tomando a Rio Branco, surgiu a ideia de fazer esse blog. No mesmo carnaval, junto com mais três amigos deixamos correndo um Palio no meio de uma ladeira no Méier, com fumaça e cheiro de gás muito forte. Desde então nunca mais passei um carnaval fora da capital. O carnaval seguinte foi ainda melhor. Me recordo de passar todo o percurso do bloco Songorocosongo debaixo da chuva e protegendo uma cabrocha com uma sombrinha. Ela ficou seca e eu encharcado. Desde então ela me prende em todos carnavais.
E você? Comente aqui sua lembrança marcante de carnaval.
4 comments fevereiro, 2010
O Rio é samba. O resto é Sampa
Por Emiliano Mello
Malandro é o gato, que mora no telhado e não paga aluguel, já dizia seu Agapito, vendedor de hortaliças aqui do agreste.
Dia desses, fim de tarde bucólico, sol se pondo, estava descendo aquele murgulhão em Botafogo que dá no Rio Sul – bela ratoeira pros desavisados – e não vi uma alma sequer lá embaixo.
O balcão da segurança encontrava-se vazio. Além das minhas pernas, o único movimento naquele subterrâneo era o balé de um saco plástico evoluindo ao vento. Temi. Um fio de suor desceu gelado das têmporas. Eu era a isca perfeita prum vagabundo me acertar em cheio um “shoryuken” à la Street Fighter – de leve, só pra me deixar esperto. E levar meus dois-reais-e-trinta-centavos, do ônibus.
Quando, enfim, saí do mergulhão, andei uns metros e avistei um grupinho de três pessoas. Ao me aproximar, um malandro tocava cavaquinho enquanto um dos seguranças munhecava o pandeiro. Seu parceiro de profissão, mulato elegante, levava no gogó sucessos do Belo como se não houvesse amanhã, batendo na palma da mão. E eu segui com a certeza de que o Rio é samba, o resto é Sampa.
7 comments janeiro, 2010




