
Almir Guineto: “Deixei meu nome marcado”
POR EMILIANO MELLO, THALES RAMOS E THIAGO DIAS. FOTO: ARI KAYE
O SAMBA: Almir, você é carioca e mora em São Paulo há quase 40 anos. Onde você se sente mais reconhecido?
ALMIR GUINETO – No Brasil todo. Toquei muito, estourei em 1980 com dois discos, um meu e outro com o Fundo de Quintal. “Caxambu” fez muito sucesso. Tenho um repertório conhecido. Os jovens cantam minhas músicas. Deixei meu nome marcado. Hoje, nem preciso correr atrás de show, o pessoal me liga.
E como era ter tanto sucesso? Sente saudade daquela época?
- Já tive média de 67 shows por mês e caí doente. Não lembrava de nada. Eu tinha uma mansão em Copacabana e não vivia para ela. Ganhei dinheiro, mas trabalhar que nem um louco não é bom. Não sinto saudade, porque eu não tinha sossego. Foi um tempo bom, com muito assédio de fãs.Tinha que ser profissional e ter responsabilidade, acordar cedo para “fazer loja”. Era assim que o disco estourava, indo de loja em loja.
Você poderia ter mais dinheiro hoje, não?
- Não ligo para dinheiro, eu ligo para viver. Já tive sucesso, de não poder sair de casa. Isso não é legal, só trabalhava. Fiquei doente. Cheguei a ficar oito meses no hospital, na época da gravação do filme “Natal da Portela” (NR: Almir fez o papel de Paulo da Portela). Eu fazia muito show e as gravações acabaram dependendo de mim. Na história, o Paulo da Portela ia ficando doente, e eu acabei adoecendo na mesma época. Não lembro nada desse período.
Você não grava um disco desde 2002. Por quê?
- Porque não quero. Não acho justo o que acontece no mundo musical. Nunca pedi para gravar, dei sorte e vendi muito. Mesmo se tivesse “caixa 2” ou roubo, não é como agora. Hoje, 200% vão para os piratas e o artista não arruma nada. Dispensei oito gravadoras. Não queria, mas vou ter que gravar um. Como me cobram um DVD, por ter um repertório muito bom, vou fazer.
No último disco, há participação especial do rapper Mano Brown. Como surgiu essa parceria?
- Ele é meu fã e eu não sabia. Brown lhe disse que se eu o chamasse um dia, ele topava. Quando o convidei, ele contou que uma vez viu um show meu na Praça da Sé trepado em uma banca de jornal. No estúdio, fez a parte dele toda sozinho.
Era uma versão rap para “Mãos”, que diz “Michelangelo vive bem perto, em forma de samba é Almir Guineto”. Mas muita gente considera você um gênio…
- Ele é doido (risos). Não gosto desse papo, ninguém é gênio. Deus dá talento para todas as pessoas.
Você é tido como o inventor do banjo no samba. Como surgiu a idéia de adaptar o instrumento para o ritmo?
- Foi na época dos Originais do Samba, com o Mussum. Ele era muito versátil. Pegamos o banjo brasileiro, de quatro cordas, e mandamos fazer na afinação de cavaquinho. Só foi funcionar no Cacique, pois lá não tinha microfone. Deu certo, uma maluquice.
Você era bom no partido-alto também. Ainda versa?
- Minha linha é essa, mas caiu muito. Não é mais como antigamente. Na escola do Cacique havia muito improviso. Eu, Zeca, Deni, Baiano. Éramos bons. Hoje em dia eu parei. Em disco não acho legal, parece que é festa. Quem canta por último fica como vencedor.
Sua relação com o Zeca é forte. Consegue explicar por que ele é esse fenômeno de popularidade?
- Porque trabalha muito, é profissional. Eu larguei. Nos anos 90, eu não queria mais gravar. Ele tem valor, é talentoso. Escreve muito, e pouca gente sabe disso.
Muitos sucessos dele são seus. E a maioria dos seus sucessos são músicas de outros compositores, certo?
- Prefiro dar minhas músicas para os outros. Tem gente que reclama, diz que eu que deveria gravar. Mas não me incomodo. Eu não paro de compor, é o meu forte. Também não paro de fazer shows, pois hoje só ganha dinheiro quem faz show.
4 Comentários Add your own
Deixe uma resposta
Enviar trackback para este post | Subscribe to the comments via RSS Feed
1. O samba é meu dom | setembro, 2008 às 1:07 am
[...] LEIA AQUI A ENTREVISTA DE ALMIR GUINETO AO SAMBA. [...]
2.
name | agosto, 2010 às 6:38 am
Add New Comment here,
3. Almir Guineto deu recado para Dilma e Serra « O samba é meu dom | outubro, 2010 às 10:54 pm
[...] Papa. O melhor disso tudo é que tem samba para isso. Em 1981, no disco “O Suburbano”, Almir Guineto gravou “Saco Cheio” (D. Fia/Marcos Antônio), criticando o uso indiscriminado da [...]
4.
Fábio | novembro, 2011 às 5:55 pm
Almir sou um grande fã seu negão, vc fundo d´ quintal, zeca, arlindo, sombrinha,beth, vcs são a essência do samba. Adimiro mto o trabalho d´ vcs de praticamente uma brincadeira k vcs faziam as quartas vcs viraram ícones da música brasileira. ;p