Dos tempos de Noel

março, 2010 at 11:21 pm Deixe um comentário

Por Thiago Dias

Ainda em um dos primeiros períodos de faculdade, ouvi de um professor em sala de aula uma teoria que jamais saiu da minha cabeça: “Os jornais não publicam suicídios para não incentivar que outras pessoas façam o mesmo”. Isso valeria para quem se joga da Ponte Rio-Niterói e nos trilhos do metrô, por exemplo, o que segundo ele aconteceria toda semana.

E o que isso tem a ver com samba? É uma pergunta que eu faria também se caísse nesse blog agora. Então respondo: a origem dessa teoria vem do início do século passado e envolveu, acreditem, Noel Rosa, o poeta da Vila.

A história está no melhor livro já escrito sobre o sambista, de João Máximo e Carlos Didier: “Noel Rosa: uma biografia”, que serviu de base para o enredo da Vila Isabel neste ano na Sapucaí.

Em outubro de 1927, perto de completar 17 anos, Noel chegou em casa de madrugada após mais uma noitada e deu de cara com uma cena chocante no quintal: sua avó, Bellarmina de Medeiros Rosa, com a cabeça pendurada por uma corda, morta. Vó Bella suicidou-se e o primeiro a ver o corpo foi o então estudante do São Bento.

João Máximo e Carlos Didier mostram que a notícia virou destaque em jornais da época, como “A Noite” e “O Correio da Manhã”. A família de Noel não gostou nada de ver sua intimidade nas páginas policias e reclamou. Coriolano de Góes, chefe de Polícia, também não e enviou um ofício proibindo a divulgação de “certos fatos policiais ocorridos na cidade”.

De acordo com “A Noite”, de 17 de outubro, Coriolano divulgou uma circular aos delegados distritais proibindo-os de passarem à imprensa informações sobre crimes de morte e casos misteriosos. O livro segue lembrando o fato e o texto lembra a teoria do meu professor em sala de aula: “Coriolano considera a divulgação pelos jornais de tais fatos influenciadores de espíritos fracos”.

Sete anos depois, Noel teria mais uma perda por suicídio: seu pai, Manoel, também matou-se. Infelizmente, o acesso à biografia do poeta é difícil. Só há exemplares em sebos e sites especializados, que pedem até R$ 400. Os autores, que atualmente não têm boa relação, já tentaram relançar a obra, mas esbarram em problemas com as sobrinhas de Noel, que alegam invasão de privacidade contra a família. Uma pena.

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