A nova guarda
março, 2010 at 10:30 pm 1 comentário
Por Thiago Dias
“A comissão julgadora deu o primeiro lugar à XXX, que impressionou não pelo samba, pela harmonia ou pela bateria, mas pelo luxo de suas alegorias e pela ostentação de sua comissão de frente”, diz o texto de Sérgio Cabral.
Agora, pergunto: que nome você colocaria no lugar do XXX? Em que ano se deu este desfile citado pelo pai do governador fluminense? Errou quem disse Unidos da Tijuca e 2010. No livro “As escolas de samba do Rio de Janeiro”, Cabral lembra a vitória da Vizinha Faladeira em 1937, quando a comissão de frente da “agremiação recreativista” do Santo Cristo usou um carro e seis cavalos para abrir o seu desfile campeão.
A entrada de novos elementos foi um “choque” para a época, um ano depois do primeiro título da hoje inovadora Unidos da Tijuca. O escritor conta que, apesar de terem dado as melhores notas para a Vizinha Faladeira, os jurados Raul Alves, Carlos Ferreira, Abílio Harry Alves e Lourival Pereira (sim, só eram quatro) fizeram questão de escrever um texto contestando o resultado, relatando o que parecia errado nos recursos utilizados pela campeã e na forma de julgamento:
“A comissão não deixa de reconhecer ter sido a Portela (vice) a que mais preencheu as finalidades das escolas de samba. Entretanto, assim procedeu em virtude dos quesitos apresentados não corresponderem ao julgamento a realizar. (…) Pensa também a comissão que a exibição de carros alegóricos e de comissão de frente a cavalo ou de automóveis foge à finalidade das escolas de samba, hoje a parte maior, mais interessante e mais nacionalista do carnaval carioca”.
A imprensa, que hoje delira com a mágica de Paulo Barros na Sapucaí, também foi contra a comissão de frente turbinada do pessoal do Santo Cristo. O livro mostra que a “Gazeta de Notícias” fez uma crônica descendo a lenha na Vizinha Faladeira: “Isto não é mais escola de samba”, escreveu o jornal reclamando também dos cavalos e carros alegóricos.
Faz tempo que um samba emocionava “a Velha Guarda lá na comissão de frente”, como cantava a Vila Isabel em 1984 nos versos de Martinho. Na era Sambódromo, as equipes coreografadas tomaram a dianteira das escolas e viraram notas.
O estudo “Comissões de frente – Alegria e beleza pedem passagem”, disponibilizado no site “Academia do Samba”, conta que em 1985 os dançarinos da Mocidade foram os primeiros a se posicionarem à frente do carro Abre-Alas. Seis anos depois, em mais um título da escola de Padre Miguel, a coreografia nas comissões de frente passou a ser atrelada ao enredo abordado. Em 1994, mais uma vez com Renato Lage na agremiação do Castor, há a estreia do tripé para compor o cenário e a performance dos componentes.
A partir daí, destaque para a trupe de Rosa Magalhães na Imperatriz, que deu um salto de qualidade no quesito e transformou a comissão de frente em fator decisivo para a conquista de um título na Sapucaí. Mas ela sozinha não ganha jogo. Que o diga a Mangueira, que em 1999 fez história com os “sósias” de Pixinguinha, Donga, Sinhô, Ismael Silva, Natal, Cartola, Mestre Fuleiro, Nelson Cavaquinho, Candeia, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Tia Ciata, Carmen Miranda e Noel Rosa, comandados por Carlinhos de Jesus, mas não levantou o caneco.
A turma de Paulo Barros marcou seu nome na avenida em 2010. As meninas que trocavam de roupa em dois segundos serão lembradas como inovadoras. Ajudaram a tirar a Tijuca da longa fila de espera pelo primeiro lugar. E, ao contrário dos pioneiros da Vizinha Faladeira, não foram contestadas. Sinais de um novo tempo, de nova guarda.
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1.
Flank Bezerra | março, 2010 às 4:13 pm
Sei não! (…) Comissão de frente como a da Mangueira de 1999 não teve igual!
Que me disculpem! Sem preconceito ou mania de passado.
Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar… Mas, a rapaziada vai começar a sentir falta de um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim…