A grande paixão
fevereiro, 2010 at 1:41 am 1 comentário
Por Thiago Dias
As fantasias já estão na Comlurb, os carros alegóricos voltaram à Cidade do Samba e a bola preta agora só rola nas mesas de sinuca. Na cabeça, fica o samba de enredo. Sempre. Da safra de 2010, a maioria vai ser esquecida. Certamente guardarei os versos da Imperatriz, da Vila Isabel e, talvez, o refrão da Mangueira. Mas alguns, há anos, guardam lugar cativo no lalaiá do chuveiro. Que maravilha reencontrá-los no livro “Samba de enredo – história e arte”, um belo presente pós-carnaval de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas.
Mais do que explicar e lembrar letras históricas, a dupla tem opinião própria. E os dois me pegaram de surpresa – boa – ao elegeram o melhor samba de enredo da história: “Seca do Nordeste”, levado pela Tupi de Brás de Pina ao desfile na Praça XI em 1961. A escola ficou em segundo lugar no Grupo 2 (atual Grupo de Acesso), atrás da Unidos do Cabuçu, mas subiu para o Grupo 1 (atual Grupo Especial).
Tenho uma vasta coleção de sambas de enredo e sabia que este era considerado um dos mais bonitos, mas não lembrava muito da música. Ainda bem que Mussa e Simas lembravam. A letra de Gilberto Andrade e Waldir de Oliveira, que ganhou gravação do mestre Jamelão, é impressionante e realista, com versos como “O chão continua seco e poeirento / No auge do desespero / Uns se revoltam contra Deus / Outros rezam com fervor”. “A Tupi foi a primeira escola de samba a eleger um enredo de protesto, a falar de um problema brasileiro”, escreve a dupla no livro.
Mussa e Simas consideram “Seca no Nordeste” o melhor da história “não só pela beleza poética e melódica, mas pela revolução na trajetória do carnaval”. O livro tem uma passagem que bate com o que eu pensso desde menino: desfile na Sapucaí é coisa séria, por isso me irrita o bate-estaca no camarote número 1 com suas madonnas e maradonas. “O samba da Tupi mostra uma coisa importante: carnaval pode ser uma festa; mas desfile de escola de samba é coisa séria; e tem um alcance muito maior, tem um sentido épico que transcendo o próprio carnaval”, concluem os dois, que no ano passado fizeram uma obra antológica para o enredo “Tambor” no Salgueiro, mas ficaram fora da avenida para mais uma cópia de “Explode Coração”.
É evidente que os compositores da Tupi acertaram na mão. Entendo a importância daquela música para a época de afirmação das escolas, quando o samba de enredo ainda buscava uma forma definitiva. Escolher o “Melhor de todos os tempos” é uma tarefa árdua e polêmica. Tiro o chapéu para Mussa e Simas, pois seria fácil ficar fora dessa briga. Há quem ache “Aquarela brasileira”, o clássico de Silas de Oliveira no Império Serrano em 1964 (reeditado em 2004), o maior. Essa é quase uma unanimidade no mundo do samba. Mas também estou fora dessa corrente.
Salgueiro, Mangueira, Mocidade e Portela possuem safras de encher qualquer disco de clássicos. “Liberdade, liberdade”, campeão com a Imperatriz em 1989, é a música de carnaval que eu mais cantei na minha vida. “Raízes”, a obra-prima de Martinho da Vila sem rimas em 1987 também poderia liderar o “top 10″ sempre. Mas eu atravesso o mar e o tempo para achar o maior. Vou a 1977, cinco anos antes do meu nascimento. Recorro aos versos de Aurinho da Ilha, Ione do Nascimento, Ademar Vinhaes e Waldir da Vala para ver o como o sol nasceu na sutileza do amanhecer: “Domingo”, da minha União da Ilha, é o samba de enredo mais bonito da história.
Os escritores do livro citado neste post não esqueceram dessa pérola insulana. Para a dupla, “Domingo” é o “maior samba descritivo de cenas e paisagens populares”. Mussa e Simas lembram que o hino é “composto todo em menor – o que leva a uma reflexão interessante: mesmo para um desfile descontraído e alegre, como foi o da União, é possível descer o tom do canto sem prejuízo da evolução e da harmonia”.
Abaixo, o vídeo de “Domingo” e a letra de “Seca no Nordeste” (escute o samba da Tupi no player ao lado, na gravação de Jamelão):
Seca no Nordeste (1961 – Tupi de Brás de Pina)
Autores: Gilberto Andrade e Waldir de Oliveira
Ô Ô Ô Ô Ô
Sol escaldante, terra poeirenta
Dias e dias, meses e meses sem chover
E o pobre lavrador
Com a ferramenta rude
Dá forte no solo duro
Em cada pancada parece gemer
Ô Ô Ô Ô Ô
Geme a terra de dor
Ô Ô Ô
Não adianta meu lamento meu Senhor
Ô Ô Ô e a chuva não vem
O chão continua seco e poeirento
No auge do desespero
Uns se revoltam contra Deus
Outros rezam com fervor
Nosso gado está sedento, meu Senhor
Nos livrai dessa desgraça
O céu escurece
As nuvens parecem
Grandes rolos de fumaça
Chove no coração do Brasil
E o lavrador
Retira o seu chapéu
E olhando o firmamento
Suas lágrimas se unem
Com as lágrimas do céu
O gado muge de alegria
Parece entoar uma linda melodia
Ô Ô Ô Ô Ô
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1.
William Garibaldi | setembro, 2010 às 2:59 pm
Também amo Domingo, acho que é o meu favorito! Sinto forte em meu peito outros tantos… mas Domingo é uma obra poética, cheia de lirismo e originalidade, uma fotografia do Rio de Janeiro!