Para tudo começar na quarta-feira
fevereiro, 2009 at 7:18 pm 6 comentários

Por Thiago Dias
Sempre tive raiva da Quarta-Feira de Cinzas. Mais novo, lamentava o fim do carnaval. Mais velho, reclamava de ter que voltar a trabalhar. Ainda rolava uma história de não poder comer carne. Em qualquer época, a mesma agonia à tarde: após a apuração na Globo, e depois de algum tempo na CNT, tristeza. Nenhuma maior que a de 2001, quando a União da Ilha caiu.
Sabem aquele samba do Martinho, “para tudo se acabar na quarta-feira”? Para mim era assim, sempre. Tudo acabava ali, na Quarta de Cinzas. Algumas pessoas comemoravam, a maioria nem se importava com o que saía da boca do Perlingeiro. Afinal, é apenas carnaval, certo? As escolas são só diversão de turista, lavagem de dinheiro do jogo do bicho, paraíso de popozudas e carnavalescos. O que interessa é a pegação de abadá na Bahia.
Lembro que há exatos oito anos, longe do Rio de Janeiro, tive que ouvir gracinhas de pseudo-torcedores da Viradouro, que não sabiam nem que Joãosinho Trinta já estava lá na Grande Rio. A Ilha caiu. Chorei, confesso. Em 2002, mais longe ainda, chorei de novo, quando ouvi pela primeira vez o samba sobre Caxias graças a um download, no meio da neve.
Não vi a fase de ouro da minha escola. Então, o que me restava era ouvir os sambas históricos e vibrar com eles. Como um dia, ainda na neve, em que um mineiro emplacou uma sequência de três músicas da minha União, durante um pagode improvisado com baldes e latas de lixo em uma casinha na estação de esqui. Aquilo, para mim, era um título.
Sei que fomos roubados em 1977, quando “Domingo”, na sutileza do amanhecer, encantou a Presidente Vargas. Thales Ramos, que escreve aqui no blog também, já me provocou um dia: “Você não era nem nascido e vem dizer que roubaram a Ilha, Thiago?” Amigo, fomos roubados. Pelo menos, deixa eu pensar assim. Quem é América me entende.
Um ano depois, “O amanhã”, provavelmente o samba-enredo mais gravado e cantado na história. “Bom, Bonito e Barato”, que virou expressão fácil no dia-a-dia, até no futebol. No colégio, já adolescente, um professor de Literatura meio carnavalesco me disse que “Burro na cabeça” era o hino mais bonita da União. Fui pesquisar e rui-barboseei: era o primeiro samba do Franco na escola. No ano que eu nasci, um presente: “É hoje”, aquele que vocês conhecem na voz da Fernanda Abreu, mas que entrou para a história com Aroldo Melodia. Fernanda, por que não dar o crédito na sua gravação? E se fosse da Mangueira?
Aí veio a fase do Franco, eu já tinha noção das coisas. “Festa profana”, com Quinho, e “De bar em bar, Didi um poeta”: porre 1 e porre 2, como dizia o José Lattari. Como esquecer de Franco, que muito anos depois nos deu uma amizade tão intensa e tão rápida, a mais importante na história deste blog que virou jornal e que voltou a ser blog, um tanto quanto pouco atualizado, é verdade.
Em 1994, a minha estreia no sambódromo. Setor 13, praça da Apoteose, refrigerante e quentinha no isopor. Quinho de volta à União, após ser campeão pelo Salgueiro. Vocês já sabem disso, meu sonho era ser o Quinho. Fazer o quê? O samba, de novo, era de Franco. Chiquinho Spinoza nos brindou com “Abrakadabra”. Quarto lugar, última vez no desfile das campeãs. Alegria passageira, esquecida com o apagão de 2001.
Até a Quarta de Cinzas que passou, o único título da da Ilha havia sido em 1974, “Lendas e festas das Yabás”. Um clássico de Aroldo Melodia. Trinta e cinco anos depois, outro Melodia, o Ito, ajudou a escrever o samba campeão de 2009 com “Viajar é preciso”. De novo, me peguei chorando em uma Quarta-Feira de Cinzas. Foi a reação instantânea quando veio a notícia, em ondas tão fracas de rádio. Uma apuração confusa, sem parciais e sem a certeza de que já estava no último quesito. Um silêncio interminável de 20 segundos e o anúncio: União da Ilha campeã.
Confesso que chorei, porque agora tudo recomeça na quarta-feira.
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1.
Anônimo | fevereiro, 2009 às 9:14 pm
Quase chorei lendo, admito. A União da Ilha é maravilhosa. Ela tem esse poder. Saudações insulanas, de um apaixonado pela escola mais simpática do Carnaval carioca.
2.
Anônimo | março, 2009 às 2:34 am
Depois que a União caiu em 2001, o desfile das escolas de samba perdeu a graça pra mim, não era a mesma coisa. E de lá pra cá ficava na expectativa da subida pro grupo especial (várias vezes os jornais apontaram a Ilha como favorita pra subir, o que me deixava esperançoso, mas outra escola ganhava). Esse ano, deram a Estácio como favorita, então eu pensei: “Mais um ano que não vamos subir”, mas então veio a surpresa. CAMPEÃ! Um porre de felicidade!
3.
Daniel | março, 2009 às 9:22 am
galera, nada a ver com o post, é que eu gostaria de saber aquele samba esta chegado a hora do henricao é de qual album? valeu!
4.
C. Maria | abril, 2009 às 12:16 am
Bonito. Simples e bonito.

Esse ano, infelizmente, não vi os desfiles… E nem pude acompanhar a apuração porque estava trabalhando
Meu carnaval foi transformado em cinzas e morreu com cara de quarta… Mas o samba não morre, não é mesmo?
5.
Pedro | agosto, 2009 às 3:21 am
Muito bom o blog,o samba raiz, nao deixe o samba morrer (8)
6.
Rafael Dias | fevereiro, 2010 às 6:59 am
Saudações insulanas! tenho apenas 18 anos, mas tenho todos os granes sambas da união da ilha na ponta da lingua, nossa escola realmente emociona, nao sei pq torço pra união,na minha familia são todos evangelicos,por isso tenho certeza que está no sangue,driblei o preconceito da minha familia e hoje sou um torcedor nato da união,quando soube da união campeã estava em salvador, na casa de parentes,o choro foi eminente! nunca sentira uma emoção tão grande! a união é minha vida!