Archive for setembro \30\UTC 2008

O sensato destino de Almir Guineto

Por Thiago Dias, Emiliano Mello
e Thales Ramos. Foto de Ari Kaye

Tupã, município a 520 quilômetros da capital São Paulo, tem cerca de 65 mil. Um deles sabe bem o valor que tem o silêncio de uma pequena cidade: Almir Guineto, que há cinco anos trocou a batucada dos grandes centros pela paz no interior paulista. O compositor jura que agora só bebe água, tenta parar com o cigarro e que não cai mais nas tentações como antigamente.

“Ninguém é de ferro. Descobri isso com a idade”, diz o sambista, de 61 anos.

Na década de 80, Almir Guineto chegou a fazer cinco shows por noite, 67 por mês. “Era uma ignorância”, resume o sambista, que não tem a mesma badalação de 20 anos atrás, mas segue como um dos artistas mais lembrados nas rodas, com sucessos como “Pranto que chorei”, “Insensato destino”, “Caxambu”, “Mel na boca”, “Conselho”, “Lama nas ruas”, entre diversos outros.

Leia aqui a entrevista exclusiva

O exílio o afastou do público carioca, que sente falta da presença do bamba. Mas ele nem pensa em voltar a morar na terra natal. Almir deixou o Rio de Janeiro e o morro do Salgueiro cedo. Em 69, já morava em São Paulo para tocar cavaquinho com os Originais do Samba. A ida para o interior veio após o casamento com Cristina, neta de uma líder de escola de samba em Tupã.

“É a cidade dos aposentados. Todo mundo me pergunta como eu deixei a praia para morar lá. Mas a gente descobre que dá para se adaptar a qualquer lugar. Não saio mais do mato não”, afirma

Boi, amendoim e Almir Guineto. Estas são as três estrelas de Tupã. A mudança representa também o início de um novo estilo de vida do cantor. Nos anos 80, quando o pagode estourou no Brasil, ele ficou marcado por faltar a muitas apresentações. Hoje, reconhece que “ficar bêbado todo dia” não vale mais a pena.

“Tinha uma época que o pessoal só entrava no show depois que eu e o Zeca (Pagodinho) já estávamos na casa. A gente faltava muito, isso era um absurdo”, admite Almir, em entrevista exclusiva à equipe O SAMBA, em um hotel no Rio.

O compositor garante não sentir saudades do tempo em que era o maior nome do pagode no Brasil, já que “nem podia sair de casa”. Mas, em Tupã, a rotina de autógrafos continua quando anda pelas ruas. Coisa rara, por sinal. “Ele não sai muito de casa não. Fica mais trabalhando, mas parece que ele gosta muito da cidade”, conta o prefeito Waldemir Gonçalvez Lopes.

Na chácara em Tupã, nada de pagodes. Lá reina a tranqüilidade e o samba perde para o sertanejo no gosto popular. “O negócio é cantar para boi”, brinca Almir, se referindo às freqüentes festas de peão boiadeiro da cidade.

A música sertaneja pode ser a preferida na cidade, mas a presença do carioca faz o samba ser respeitado. “Sabemos da obra do Almir, de tudo que ele fez pelo samba. É uma honra tê-lo aqui, pois Tupã não tem celebridades”, diz o prefeito.

2 comments setembro, 2008

Roberto Silva, sem perder a majestade

Por Thales Ramos

“Treino é treino, jogo é jogo”, disse Roberto Silva, na passagem de som. Parafraseando Didi, o Príncipe Etíope, o Príncipe do Samba acertava os últimos detalhes para sua apresentação no palco do Sesc Niterói.

No jogo, deu tudo certo. Cantando para um auditório lotado, quase todo formado por contemporâneos, ele esbanjou simpatia e disposição. Sempre interagindo com o público, sambou o show inteiro. O público matou saudades e, como sempre, Roberto Silva cantou muito.

O Príncipe do Samba mostrou o carisma que só os grandes cantores têm. Cada música que cantava, sempre sem olhar a letra, fazia uma pausa para se dirigir ao público: “Juracy foi uma música que o Caetano (Veloso) pediu pra gravar comigo, no Casa de Samba”, lembrou.

E, assim, se seguiram Amélia e uma série de clássicos de Nelson Cavaquinho e Ataulfo Alves. Outra história interessante foi a surpresa que Zeca Pagodinho preparou no aniversário de casamento dos pais:

“Ele me ligou e pediu para que eu fosse na casa dele em Xerém. Cheguei escondido para não estragar a surpresa. Quando os pais dele me viram, ficaram muito emocionados”, lembrou.

Depois do show, mesmo com a van de motor ligado, Roberto foi paciente e concedeu uma entrevista rápida ao blog, bem disposto e elegante.

O SAMBA: Paulinho da Viola nos disse em uma entrevista que o senhor é o maior sambista vivo. O que o senhor pensa disso?

ROBERTO SILVA: – Eu o conheço desde pequeno. Eu toquei com o César, pai dele. Uma vez eu estava gravando uma música do Flamengo e ele, garoto, estava lá sentado me olhando. Anos depois ele virou Paulinho da Viola. Isso muito me honra. Ele tem carinho por mim. O Paulinho disse: “Jamais aceitarei o título de príncipe do samba, enquanto o Roberto tiver vivo.” O João Gilberto disse que sou o Rei do Samba, mas não vou aceitar isso. Ser rei dá muito trabalho (risos).

O senhor foi um ícone da época de ouro do rádio. O senhor ainda ouve rádio?

- Ainda escuto. Rádio Nacional, MEC, Roque Pinto. Gosto muito do programa do Osmar Frazão, um programa de pesquisa.

“Jornal da Morte” (Miguel Gustavo), gravada pelo senhor, parece muito atual pela quantidade de jornais sensacionalistas.

- É uma letra muito moderna. Eu cheguei a ser preso na época da ditadura por causa dessa música. A letra “Um escândalo amoroso / Com retratos do casal / Um bicheiro assassinado / Em decúbito dorsal”, é bem atual sim. Canto nos shows e faz muito sucesso. A Pitty gravou, o Nação Zumbi também.

O samba perdeu espaço?

- Não acho. Se você for ver o pagode é uma continuação do samba. O pagode é o filho do samba, eu diria. Eu entro no palco e o pessoal canta comigo. No Nordeste então é uma loucura. Eu faço shows pelo Brasil inteiro e é sempre assim. O público jovem também gosta muito de mim.

E quem o senhor gosta de ouvir hoje?

- Zeca Pagodinho, Casuarina, Quinteto em Branco e Preto, Caetano Veloso e Roberta Sá, entre outros.

No palco, o senhor samba o tempo inteiro. Como mantém a forma?

- Faço minha fisiquinha né? Não fumo e não bebo mais. Tenho uma companheira (aponta a esposa Syone) que vale muito. Ela parece uma injeção de ânimo (risos).

7 comments setembro, 2008

Mistério sem explicação

Por Thiago Dias

“Tinha certeza que a vida ia ser melhor com esses sambas”, diz Marisa Monte a Paulinho da Viola para explicar por que começou a pesquisar as músicas dos compositores de Oswaldo Cruz. Uma frase que martela na minha cabeça desde que deixei a sala 5 do Unibanco Artplex nesta quarta-feira, às 21h35. Essa é a essência de “O mistério do samba”, documentário dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor.

Sempre foi difícil explicar a alguém o que sinto quando escuto uma canção de Manacea, por exemplo. Ou de Cartola, que não é da Portela, assim como eu. É como Paulinho resume no filme quando lembra uma roda de samba na Portela: não se explica, só se sente.

Em 1970, o “sucessor de Paulo” sentiu que era preciso registrar aquilo. E produziu o primeiro disco da Velha Guarda da sua escola. Quase 30 anos depois, Marisa foi levada pela mesma curiosidade e nos presenteou com “Tudo Azul”, cuja pesquisa deu origem ao documentário.

Em entrevista ao SAMBA É MEU DOM, o diretor Lula lembra que a cantora considera a produção do disco uma missão de cidadã. Ver “O mistério do samba” é uma obrigação de cidadão. Eu votarei nulo ou até viajarei só para não ter que ir na urna eletrônica. Mas quero ir ao cinema de novo, de novo e de novo ver os mestres na telona.

Como explicar a cena de Monarco lembrando a letra de “Nascer e florescer”, de Manacea, até então nunca gravada? E as histórias de Argemiro, o “velho mais safado” que Zeca Pagodinho já conheceu? Ou a confirmação que Casquinha fez “Falsas Juras” para Tia Surica, sua ex-namorada? Não se explica, só se sente.

Confesso que temi que o filme ficasse mais em cima de Marisa e Paulinho do que das tias e compositores portelenses. Os dois são fundamentais para a preservação e divulgação dos sambas de Oswaldo Cruz e merecem destaque. Mas Lula e Carolina acertam na mão. Marisa e Paulinho vão ao bairro, nos apresentam a cultura local e abrem espaço para a Velha Guarda nos contar sua própria história. As duas estrelas, responsáveis por unir este grupo, até aparecem pouco para o que representam. Deixam o show para Monarco & Cia.

Como em um teatro, a platéia na sala 5 bateu palmas para a Velha Guarda quando as luzes se acenderam. Os portelenses não estavam ali, ao vivo. Mas todos sentiram, sem precisar de explicação, que a vida é sim melhor com esses sambas.

* * * *
Trailer do filme

2 comments setembro, 2008

O mistério do samba em azul e branco

Bruno Veiga/Divulgação

Por Emiliano Mello e Thales Ramos

Na última sexta-feira estreou “O mistério do samba”, longa de Lula Buarque de Holanda e Carolina Jabor sobre o cotidiano e a riqueza arística da Velha Guarda da Portela. Além dos imortais portelenses Jair do Cavaquinho, Monarco e Tia Surica, o filme traz depoimentos de Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola e Marisa Monte, todos destacando a importância da Velha Guarda em suas formações musicais.

Por e-mail, o blog entrevistou o diretor Lula Buarque de Holanda, que nos falou, entre outras coisas, do plano de uma possível exibição do longa no bairro de Oswaldo Cruz.

Produzido em conjunto pela Conspiração Filmes e Phonomotor, “O mistério do samba” é fruto de quase 10 anos de pesquisa e 200 horas de filmagem. Alguns críticos brasileiros já se anteciparam em apontar o documentário como o “Buena Vista Social Club brasileiro”. Lula Buarque, no entanto, avisa: “Quando fizemos as primeira filmagens o Buena Vista ainda não tinha sido filmado.”

O SAMBA: Vocês colheram material junto aos bambas da Portela por quase 10 anos. Como foi organizar tudo e montar em pouco mais de uma hora de filme?

LULA BUARQUE: – Nós começamos as filmagens sem um roteiro, filmando intuitivamente o que nos parecia mais emocionante. Quando conseguimos o patrocínio da Natura para finalizar o projeto, ficamos cinco meses limpando o material na ilha e reduzimos para oito horas de material num primeiro momento até chegar a três horas de bruto. Neste momento começamos a definir o roteiro e as novas cenas que seriam filmadas. Com mais 30 horas de material , ficamos mais quatro meses até chegar ao corte final.

No total, foram mais de 200 horas de gravação, o que nos deixa curioso a respeito do material que ficou de fora. Certamente há muita preciosidade no baú. A respeito desse material inédito e de valor histórico, há planos para levá-lo ao conhecimento do público? Quais?

- Um dos pecados mais comuns no cinema é o excesso. Nos preocupamos em fazer um filme com um ritmo instigante e não podíamos usar tudo. No DVD vamos usar bastante coisa que ficou de fora. O resto do material vai ficar na “adega” da Conspiração.

A imprensa vem apontando o “Mistério do samba” como uma espécie brasileira de “Buena Vista Social Club”, de Win Wenders. Até que ponto a comparação procede? Essa necessidade de comparar produções nacionais à estrangeiras te incomoda?

- Na verdade os dois filmes são primos. Quando fizemos as primeira filmagens o Buena Vista ainda não tinha sido filmado. O fato de filmar mestres das duas culturas foi uma sincronicidade. A comparação é natural

O samba atravessou o século passando por diversas transformações: do namoro com o Jazz, na bossa nova, até as recentes fusões com a música eletrônica e até com o hip hop. Qual seria o mistério dessa música que se faz cada vez mais atemporal e universal?

- No caso do nosso filme o mistério que sugerimos revelar é a simplicidade. Como aquele cotidiano de Oswaldo Cruz se transforma em poesia. O samba tem uma força de raiz , de base da nossa cultura. Nada parece ser capaz de exterminá-lo. A fusão com outros ritmos faz parte do seu poder transformador.

Por que um gênero musical que é a base da música brasileira ainda é marginalizado a ponto de não haver, como mostra o filme, o registro de muitas das canções pesquisadas?

- A Marisa fala que fazer a produção de um disco como o Tudo Azul faz parte de sua missão como cidadã. Não podemos esperar que o estado resolva todas as nossas deficiências. O filme, esperamos, vai estimular em muitas pessoas, este desejo de preservar o que está quase esquecido.

Vocês têm em mente expor o filme em Oswaldo Cruz, para as pessoas que moram lá?

- Num futuro próximo vamos exibir o filme no Portelão para a comunidade portelense. Possivelmente em um Domingo logo após a feira das Iabás, organizada pelo Marquinhos de Oswaldo Cruz.

1 comment setembro, 2008


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