Archive for agosto, 2008

Luz sobre o Quilombo de Candeia

Por Thales Ramos

Cinco meses depois de voltar a desfilar na avenida, o GRANES Quilombo, escola de samba fundada por Antônio Candeia Filho, tem mais um estímulo importante para a retomada de suas atividades: o documentário “Eu sou o povo!”, da trinca de estreantes Bruno Bacellar, Luis Fernando Couto e Regina Rocha.

Embora o material de divulgação do documentário diga “Eu sou o povo! Sobre Antônio Candeia Filho”, o filme não é propriamente sobre Candeia, como explica Bruno Bacellar, em entrevista ao blog O Samba:

“O filme não é exatamente sobre ele. É sobre o Quilombo, mas não há como se falar de Quilombo sem falar do Candeia e vice-versa”, esclarece o diretor.

E ele tem razão. A escola de Fazenda Botafogo, Zona Norte do Rio, foi idealizada em 1975 não apenas por Candeia, mas também por outros sambistas – oriundos ou não de escolas de samba – que estavam insatisfeitos com o rumo comercial que as agremiações vinham tomando.

“Os ideais do Quilombo são do Candeia e de todos que rumaram para lá. São daqueles que buscaram resistir às modificações que estavam ocorrendo no Carnaval, às que puseram de lado os sambistas e toda a gente que vivia o cotidiana das escolas”, diz Bruno.

Filme tem imagens inéditas da escola

O documentário levou um ano pra ser concluído e ficou com 83 minutos no corte final. Os diretores prometem cenas inéditas, como de Paulinho da Viola como diretor de harmonia da escola. Muitas imagens foram conseguidas no acervo do MIS (Museu da Imagem e do Som), resultado de um acordo, o que impede – por enquanto – a distribuição comercial da obra.

“Quem sabe, no futuro, a gente não renegocia. Vamos mostrar em universidades e escolas, festivais, mostras públicas. É só nos convidar que nós vamos”, acrescenta Bruno.

O documentário será lançado nesta sexta-feira (22/8/2008), às 19h30, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj). O endereço é Largo de São Francisco 1, 2º andar, Centro de Niterói (RJ).

Fiquem atentos, principalmente, às entrevistas de quem fez parte da história da escola, como o ator Jorge Coutinho (atual presidente do Quilombo), Luiz Carlos da Vila, Wilson Moreira, Sérgio Cabral (pai) e Pedro Carmo, o Português, primeiro presidente do Quilombo.

Leia mais sobre a retomada do Quilombo de Candeia

Serviço:

Lançamento do documentário
Eu Sou Povo!
Sobre Antônio Candeia Filho
Dia 22 de agosto, sexta-feira, às 19h30
IFCS – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Largo de São Francisco, 1 – 2º andar – Salão Nobre – Centro

2 comments agosto, 2008

O céu abraça a terra

Por Equipe O Samba

“Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi”
(Chico Buarque)

“Dorival Caymmi falou pra Oxum:
Com Silas tô em boa companhia
O céu abraça a Terra,
Deságua o Rio na Bahia”
(Paulo Emilio/Aldir Blanc/João Bosco)

Adeus, mestre.

1 comment agosto, 2008

Chi-cle-te oba, oba!

Por Thales Ramos

O título acima, acho que todo mundo conhece. Ele é emitido nas micaretas, pelos chicleteiros. E o que são os Chicleteiros? São os fãs da banda de axé Chiclete com Banana. Muito antes das micaretas, dos chicleteiros e do vocalista Bel, com seu shortinho apertado entoar o canto, Gordurinha e Almira compunham “Chiclete com banana”, sucesso absoluto na voz de Jackson do Pandeiro (vídeo acima). Usando uma expressão tão atual quanto chicleteiro, Jackson, sim, quebrava tudo.

Almira foi casada com Jackson e se tornou sua companheira de apresentação. A música foi gravada pela primeira vez em 1970, no disco “Aqui tô eu”, o sétimo da carreira do paraibano. Dois anos depois, no fundamental “Expresso 2222″, o ex-ministro Gilberto Gil apresentou sua versão (excelente) para a música.

A letra de Almira e Gordurinha é bem crítica. Ela aponta a maneira estereotipada com que o americano via nossa cultura e observa, já naquela época, a influência demasiada dos costumes americanos nos nossos. Ainda observa que o contrário não acontece e com bom humor, oferece resistência: “Eu só boto be-bop no meu samba / Quando o Tio Sam tocar num tamborim”. Gil, que na época era antropofágico e não era bobo, assimilou o recado da dupla.

Na voz de Jackson do Pandeiro “Chiclete com banana” foi popularizada. E não poderia ser diferente. Jackson era genial e simples. Não é exagero dizer que é do mesmo naipe de Luis Gonzaga, o rei do baião. Possuía talento e sapiência popular necessários para alcançar reconhecimento e se tornar o grande artista que foi. Como diz o Chico, em “Paratodos”: “Vá de Jackson do Pandeiro”.

Chiclete com Banana

Eu só boto be-bop no meu samba
Quando o Tio Sam tocar num tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele aprender que o samba não é rumba
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Eu quero ver a confusão
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Tirurururiruri bop-be-bop-be-bop
Olhe o samba rock, meu irmão
É, mas em compensação
Eu quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão
Quero ver o Tio Sam, de frigideira
Numa batucada brasileira.

* * * *
Ouçam Jackson do Pandeiro cantando Chiclete com Banana, no player ao lado.
Jackson do Pandeiro e Almira em ação. Arrepiante.
Gilberto Gil e Marjorie Estiano cantando Chiclete com Banana

3 comments agosto, 2008

Saravá, jongo, saravá

Por Thales Ramos

Nesse vídeo, o pesquisador José Ramos Tinhorão bate um papo com Mestre Fuleiro, um dos fundadores do Império Serrano. O tema? Jongo!

Tinhorão, que é considerado xiita no que diz respeito à música popular brasileira (abomina bossa nova, por exemplo), valoriza bastante a conversa e procura tirar do mestre a melhor explicação possível sobre o que é jongo. O baluarte do “reizinho de Madureira” explica a Tinhorão as nuances do estilo, como o lado sobrenatural, o respeito às tradições e a batida do tambor.

“Eu acredito no sobrenatural. A gente, para brincar, pra dançar um pouquinho, na nossa cabeça, pede licença”, explica Mestre Fuleiro. Outra coisa que ele aponta, são as semelhanças das colocações dos versos nas rodas de jongo com os feitos pelos repentistas. No estilo desafio, pergunta e resposta. Daí, claro, não tem como não fazermos a ponte com o partido alto.

Não por acaso, dois dos maiores partideiros são oriundos da escola da Serrinha: Aniceto do Império (também fundador da escola) e Nilton Campolino. A dupla chegou a lançar um disco, “O Partido Alto de Aniceto & Campolino”. Campolino também aparece no vídeo, dançando com Janira do Jongo.

Hoje, o jongo anda bem valorizado. O grupo Jongo da Serrinha faz apresentações Brasil afora e conta até com patrocínio do Criança Esperança. Deve-se isso a pessoas como Tinhorão, que têm fé suficiente na cultura feita pelos homens simples do povo e documentam isso. E, claro, a homens como Mestre Fuleiro, que mantinham em seus quintais a tradição de seus antepassados.

Então, como dizia o partideiro: “Vamos na dança do caxambu / sarava / jongo / saravá”. Samba esse, que é um dos preferidos de um integrante deste blog.

1 comment agosto, 2008


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