Julho, 2008

Skylab: um samba raio laser
POR EMILIANO MELLO, THALES RAMOS E THIAGO DIAS
Ele não morou na Vila, como Noel. Mas como o poeta, canta o Rio em crônicas que desvelam a cidade com a precisão de um trovador urbano enviesado. Os 16 anos de carreira tomam forma nos nove discos gravados na mais pura independência, sem qualquer apoio de gravadoras ou selos multinacionais, o que não lhe impediu de faturar o prêmio Claro de música Independente de 2005, tampouco de ser dos mais assíduos convidados do programa do Jô, na Globo.
Rogério Skylab está longe do estereótipo do carioca “da gema”. Sua música passa ao largo do litoral carioca, posto que a praia não lhe causa interesse. Prefere os subterrâneos do metrô, as ruas cáusticas que transpiram óleo diesel, o cheiro do ralo, clima febril dos inferninhos, a luz vermelha do cabaré. E a biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil: “Sempre fiz questão de ler os livros que os professores não indicavam”. Provocador, Skylab tem uma obra que, à vista dos mais preguiçosos, é difícil de classificar. Costuma dizer que faz uma troca de estilos o tempo todo, uma troca esquizofrênica. Mas há um fio que alinhava toda a sua obra e lhe garante o olhar crítico de que lança mão para cantar o Rio de Janeiro contemporâneo como poucos. Este fio é o samba. “Eu tenho uma relação profunda com o samba”. Um samba “harmonizando a lua com a bomba atômica”.
O blog conversou esta semana com Rogério Skylab, artista dionisíaco que lançou recentemente Skylab VIII, oitavo disco da saga musical em dez atos que ele vem construindo há nove anos. No bate-papo, Rogério fala pela primeira vez sobre a sua forte relação com o samba, sua paixão pelo Salgueiro, antecipa como será o seu DVD e nos dá pistas de como serão os próximos projetos. Como ótimo provocador, nos convida ainda a mover o foco da discussão a respeito da “raiz” do samba para longe do lugar-comum. Fazendo lembrar o saudoso Chacrinha, ele veio para confundir e não para explicar. Skylab gosta do confronto de idéias, fazendo jus à sua formação acadêmica em literatura e fisolofia pela UFRJ.
Em “samba isquemia noise” você canta: “O samba é o pai de todos / No samba eu me criei / Com o samba eu faço música / O samba é o puro prazer / Samba que eu quero ver”.Você costuma dizer que suas músicas são ficção. Então como é a sua relação com o samba, afinal?
Bem, essa palavra “ficção” é um problema. Para o senso comum, “ficção” é algo que não corresponde à realidade. Ou seja: se eu disse que o meu trabalho é ficcional, você logo interpreta como não tendo nada a ver com a minha vida. Não é bem assim. Entendo por ficção algo imaginado. Mas daí a pensar como aleatório, sem nenhuma relação com o que vivo e o que penso, vai uma distância considerável. Eu sempre digo que o meu trabalho é vivencial, ou seja, ligado à minha vida. Mas não é biográfico. Os acontecimentos do dia-a-dia não estão no que escrevo; as sensações, sim. Eu tenho uma relação profunda com o samba.
Na mesma música você diz que “o samba vive no exílio”. No entanto, está espalhado por todo o Rio, por toda a Lapa e Zona Norte principalmente. Não seria uma contradição?
(Risos) De fato o samba está espalhado por toda parte. Principalmente no Rio de Janeiro. Digo mais: a mim parece impossível qualquer compositor, sendo carioca, não fazer samba. Eu faço uma analogia com o catolicismo aqui no Brasil. Você pode ser umbandista, mas é católico também. Pode ser do candomblé, mas é católico também. Vou mais fundo: você pode ser ateu, mas é católico. O que quero dizer com isso? É uma questão de cultura, não é uma questão de opção pessoal. Sendo brasileiro, você é necessariamente católico, ainda que não tenha nunca colocado os pés numa igreja. Seguindo a linha de raciocínio, eu diria o mesmo do samba, se você é nascido e criado no Rio de Janeiro. Aqui você pode fazer heavy metal e ainda assim estará fazendo samba. A imagem do “samba no exílio” é que, por mais que você se sinta alijado de todos que o cercam, por mais que seja considerado um ET, em sendo carioca, ainda assim você estará fazendo samba. O meu samba vive no exílio.
Seu samba tem “aparência de raio laser”, como você diz na música “Um samba bem quente”. Paulinho da Viola, em “Argumento”, diz: “Tá legal, eu aceito o argumento / Mas não me altere o samba tanto assim. O que acha dos defensores do samba puro, do resgate das raízes, sem interferências modernas como “raio lasers”?
Esta questão é a que pega. Aí o bicho pega. Vou me alongar. Em primeiro lugar, eu desconfio muito daqueles que pregam um sentido pro samba, isto é, um sentido único. Até porque se formos para a origem do samba, vamos perceber uma confluência de elementos díspares: africanos, portugueses e até mulçumanos. Este caldo de cultura que constitui o samba e que, de uma certa forma, constitui o brasileiro, tem uma vocação para o múltiplo, para o “diferente”. Foi com Getúlio Vargas que se começou a defender a idéia do “nacional” em oposição à música de vanguarda. Nessa época, o maior arauto do nacionalismo na música brasileira era Mário de Andrade, sem esquecer, claro, do genial Vila-Lobos. Foi justamente nessa época que o samba como música radiofônica começou a se constituir. A partir daí foi que começou o abismo entre música nacional e música de vanguarda – coisa que não existia antes.
Esta é uma discussão que provoca debates acalorados ainda hoje…
Exatamente. Ela permanece viva na cultura brasileira. Perpassou a bossa nova, o tropicalismo e até mesmo o rock brasileiro. Pra mim, é uma falsa discussão. Beth Carvalho está errada, Paulinho da Viola está errado, e Caetano Veloso, nos primórdios do tropicalismo, também estava errado quando fez a música “A voz do morto”, ironizando “a voz do morro”. Esta divisão não me interessa porque serve justamente ao nacionalismo xenófobo e complexado. Quero que o samba tenha um amplo espectro como formador de nossa cultura. Tenho alergia a tudo que é “raiz” porque, no fundo, visa a interesses reducionistas. Eu quero que o samba seja mais. Daí por que valorizo aqueles que perverteram o samba, criando uma nova história. E ela passa por João Gilberto (não incluo a bossa-nova, apenas João Gilberto); depois por Jorge Ben com seu “Samba Esquema Novo”; chega em Chico Buarque (toda a sua obra, especialmente “A ópera do malandro”); João Bosco no início de sua carreira em parceria com Aldir Blanc; e chega nos dias atuais, com Marcelo D2 e Mundo Livre S/A, que introduziu o cavaquinho no movimento Mangue Beat.. Sob este aspecto, os carnavalescos das escolas de samba estão a léguas de distância do samba de raiz. Graças a Deus.
Você disse torcer pelo Salgueiro, de onde vem essa paixão? Há algum samba-enredo que tenha te marcado, seja do Salgueiro ou não? Já desfilou, ou desfilaria se convidado?
Eu morava na Tijuca e um dia, quando criança, fui à Praça Saens Peña com a minha mãe. Ali eu vi pela primeira vez a Xica da Silva fantasiada a rigor – a Xica está para o Salgueiro como o goleiro Castilho está para o Fluminense. Depois, ainda bem novinho, assisti na Presidente Vargas (não havia ainda o Sambódromo) ao Salgueiro com o seu enredo “Bahia de Todos os Deuses”. Havia ainda aquela passista gostosa, agora me foge o nome, que saiu até na capa de um disco de vinil da escola. Às vezes vejo umas coisas, como por exemplo: o cara chega do Nordeste com 22 anos de idade, já formado, e com o tempo se torna um verdadeiro carioca. Falácia. Esse cara nunca será carioca. Ele não experimentou na infância, quando se começa a formar a personalidade, os acontecimentos essenciais da cidade. Eu, por exemplo, não sou cartão postal. Mas com cinco anos de idade fui com meu pai ao meu primeiro jogo de futebol no Maracanã. São experiências básicas, decisivas, de formação. Nunca saí por uma escola. Se sair, saio pelo Salgueiro. Fui convidado pela Mangueira e não quis. Pra mim, isso é coisa séria. Sou Salgueiro e não sou mais nada. Assim como sou Fluminense e não sou mais nada. Se você é carioca, você me compreende.
Tem algum sambista que tenha influenciado a sua obra?
João Gilberto
O dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira fala até do “Zumbi do Mato”, mas não há nenhuma referência ao Rogério Skylab. A que atribui a omissão do verbete?
O Ricardo Cravo Albin já não bate bem com as bolas.
Costuma dizer que quer fazer da vida uma obra de arte, como em Foucault. Também diz que o artista tem a função exclusiva de entreter. Você, afinal, é um ARTISTA ou uma OBRA DE ARTE?
Eu não sei quando disse que a função exclusiva do artista é o entretenimento. Essa frase fica bem na boca de um Lulu Santos. Na minha, não. Quanto a fazer da vida uma obra de arte, eu bem tenho tentado. Mas não sei se tenho conseguido.
Como está a preparação do seu primeiro DVD? Quando sairá? Fale um pouco sobre o projeto.
A minha idéia inicial era fazer do “Skylab X” CD e DVD. Eu faria um retrospecto dos meus discos anteriores e, então, finalizaria a série dos Skylabs aí (N.R. série de 10 discos que vem sendo construída há nove anos). Só que já pintaram novas músicas, e seria um desperdício não gravá-las dentro do projeto. Assim foi que decidi fazer do “Skylab X” um disco de inéditas, como os anteriores, e para o bem de muita gente que não se conforma com o fim. E aí, sim, viria em seguida o “Skylab 00” – ponto final mesmo (com a gravação de um show ao vivo para CD e DVD). Mas quando digo fim, quero dizer fim desta série, deste projeto, com estes músicos, com esta forma de gravar os discos. Já estou idealizando um novo projeto – o “Skygirls”. Depois, o “Skybirck”. Por fim, o “Skyzé”. Acho que vai dar pé.
* * * *
Ouça aqui “um samba bem quente”
Assista aqui ao clipe da música “Parafuso na cabeça”
19 Comments Add your own
Leave a Comment
Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
Trackback this post | Subscribe to the comments via RSS Feed




1.
TIBERIO | Julho, 2008 at 9:25 pm
NÃO É SAMBISTA, MAS É UMA FIGURA SENSSACIONAL!!!!
2.
gabi | Julho, 2008 at 11:09 pm
Que figura!
3.
Samir | Agosto, 2008 at 4:21 am
Não é sambista, não é homem, não é nada…
4.
luiza | Agosto, 2008 at 4:48 am
Esse Samir é maluco pra comentar dessa forma.
Skylab é uma das figuras mais interessantes da MPB.
5.
Lucio | Agosto, 2008 at 4:50 am
Legal a entrevista. Normalmente um cara com o perfil dele seria anti-samba. Maneiro saber que o cara aceita e se deixa influenciar pelo samba
6.
rod | Agosto, 2008 at 12:48 pm
concordo. o cara é genial! e a entrevista tá muito boa, como de costume. =)
abs!
7.
Hugo | Agosto, 2008 at 3:55 pm
geeeeente, o que é isso?
8.
| Agosto, 2008 at 7:18 pm
Sintomático como essa crítica embute o preconceito que tenta denunciar, ou seja, o samba (e o sambista) é sempre “o outro”. E esse discurso da mistura (tão em voga) já pressupõe a divisão, não pensa nunca se somos ou não todos uns misturados. E nesse rame-rame, os “inovadores” do samba tem sempre que ser “externos” a ele, como se o samba, em si, não fosse capaz de ser dinâmico. E os “figuras” gostam muito de citar os de sempre (D2, JG, etc), sem jamais tocar, por exemplo, nas sucessivas revoluções que o samba sofreu, com Bide, Pixinguinha, etc etc.
9.
TIBERIO | Agosto, 2008 at 8:29 pm
FIGURA DE MUITA PERSONALIDADE E TRICOLOR DE CORAÇÃO!!!!!!
10.
Gilson | Agosto, 2008 at 1:44 am
Pelo visto, esse anônimo mão entendeu nada. É a resistência que permanece, desde os idos de 50 com Getúlio Vargas. Uma resistência cheia de artério esclerose.
11.
Paulo | Agosto, 2008 at 1:33 pm
Tudo que é raiz é estático e não sai do lugar. É a personificação do conservadorismo. O samba nunca foi conservador e a história nos mostra que é justamente através de artistas que não se prendem a convenções conservadoras que o samba foi se modernizando. Curioso como os críticos sem fundamento sempre aparecem como anônimos
12.
| Agosto, 2008 at 3:16 pm
Quem falou em raíz?
“artistas que não se prendem a convenções conservadoras”
estamos falando de Skylab?
Porque não poderíamos falar de Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Bide, Marçal, Pixinguinha, Ismael, Wilson, Noel, Geraldo, etc etc etc?
O samba é revolucionário amigo, sempre foi, e quem quiser chegar é bem vindo, Skylab inclusive.
Só não precisa trazer, no bolso, a revolução instantânea (tipo miojo, saca?). Deixa o tempo falar, por favor.
E amigo Paulo, anônimos somos todos nos otros, dos teclados pra cá. Ou então faz favor de, no proximo comment, vir com foto, xerox autenticada e comprovante de residência.
13.
Carla | Agosto, 2008 at 2:11 pm
Sempre se fala em Cartola, Pxinguinha, Ismael, etc, etc, etc. O samba né de ninguém não, taí pra ser feito e influenciar quem quer que seja. Esse papo de samba tem que ser feito só por raiz é uma chaticee!
Excelente entrevista e uma atitude de muita personalidade publica-la parabéns!
14.
althayr | Agosto, 2008 at 5:05 am
Melhor assim, fugir do óbvio, buscar o samba onde não acreditam que ele esteja. Entrevista inteligente por mais nonsense que possa parecer, ou preferem ouvir o que o “Sorriso Maroto” tem a dizer?
Se prepara que aí vem o sambalada(!!!), samba + timbalada segundo nosso Carlinhos Brown, que adora uma chuva de garrafas de plástico.
15.
Julio Calmon | Agosto, 2008 at 8:34 pm
Excelente entrevista. A melhor que eu li nesta semana, disparada.
16.
luiza | Agosto, 2008 at 4:47 am
Essa entrevista mostra definitivamente um SKYLAB culto e genial. Todos os grandes sambistas deveriam ler essa entrevista.
17.
Mangia | Agosto, 2008 at 2:04 pm
A entrevista aponta para um Skylab que poucos conhecem (talvez quem não more no Rio). Refiro-me ao cara que passa tardes e noites na biblioteca do CCBB. Um pesquisador embasado e coerente em seu discurso acerca do samba e a sua utilização na formação do “nacional”. E o maneiro é saber que num blog dedicado ao samba, muitos estão a favor da renovação , evolução, e endossam a promiscuidade, o experimental , a homogeneidade, a fim de ver nascer uma novidade, assim como viram nossos antepassados no final do século XIX e início do XX. Parabéns ao blog por estimular, mesmo indiretamente, discussões desse tipo.
Forte abraço a todos!
18.
Chicco | Setembro, 2008 at 8:12 pm
Althayr, tu pegaste o espírito da coisa.
Skylab mostra-se inteligente na defesa dos princípios dele, com os quais, inclusive, nem concordo.
Um abraço
19.
Cristiano Kusunoki | Outubro, 2008 at 4:01 am
Muito boa a entrevista!
Não sabia deste mimo dele. Fiquei mais fã ainda…