No samba, Silva é sinônimo de realeza
julho, 2008 at 4:45 pm 4 comentários
Por Thales Ramos
Silva é certamente o sobrenome mais popular brasileiro. E por isso mesmo, há quem o renegue. Observe entre os seus conhecidos: quem tem Silva e mais um sobrenome sempre opta pelo outro na assinatura. Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, um dos maiores treinadores do futebol brasileiro, é “da Silva”. Em rápida pesquisa na maravilha do Google, vi que tanto na Espanha como em Portugal, o nome era de família abastada. Também vi que no Império Romano recebia-o as famílias que moravam em cidades na selva (silva quer dizer selva, em italiano).
No Brasil, também não foi diferente. Os portugueses que aqui desembarcavam recebiam mais um sobrenome. Sendo assim, os que ficavam pelo litoral eram acrescidos do Costa e os que optavam pelo mato, o Silva. Posteriormente o nome foi bastante difundido pelos escravos, já que eles recebiam os nomes de seus senhores.
Continuando por aqui, temos Silvas famosos, incluindo o atual presidente, que não foi o primeiro. Antes do operário do ABC, o militar Costa e Silva subiu a rampa do planalto em 1967. Ayrton Senna também era “da Silva”, assim como Lampião e a escrava Xica, que virou filme, enredo do Salgueiro (1963) e hit de Jorge Benjor.
No samba temos um quarteto de ouro que leva Silva na assinatura. Ao contrário do lugar-comum do sobrenome, todos eles são pioneiros, únicos e geniais. Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra têm estilos diferentes e em comum – fora o sobrenome – a marca que cada um deixou na história.
Ismael Silva tinha como reduto o morro do Estácio. Um dos mais influentes sambistas da história é tido por muitos (há controvérsias) como o fundador da primeira escola de samba, a Deixa Falar, e é um dos principais responsáveis pela assimilação da cultura das escolas e do próprio gênero pelas classes financeiramente superiores. A levada do samba que conhecemos hoje tem forte contribuição de Ismael. Sua célebre frase: “No estilo antigo, o samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar assim na rua? Aí a gente começou a fazer um samba assim: bumbum paticumbumpruburundum”, serviu de inspiração para Beto Sem-Braço e Aluisio Machado comporem “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, para o Império Serrano, campeã do carnaval de 1982.
Contemporâneo de Ismael, Moreira da Silva foi o maior representante do samba de breque. Tinha fama de malandro e boêmio, mas sempre foi casado com a mesma mulher e dizia que dormia cedo. Talvez por isso tenha vivido quase cem anos (malandragem, de fato). Também era conhecido como Kid Morengueira, personagem que incorporou em alguns dos seus sucessos como “O Rei do gatilho” e “Os intocáveis”. Em “Acertei no milhar”, música que ele conta a história do malandro que fica milionário no jogo do bicho, ele dá uma “renegada” no sobrenome: “Eu vou comprar um nome não sei onde/de Marquês Morengueira de Visconde”. Era um showman.
A maior voz dos quatro Silvas, Roberto ficou conhecido como o “Príncipe do Samba” e cantava samba sincopado. Com mais de 300 discos gravados, teve muito sucesso na época de ouro do rádio, tendo feito parte do elenco das rádios Tupi e Nacional. Hoje, infelizmente, não grava mais. O último disco de Roberto data de 2002 e o penúltimo de 1979.
Na carência de bons novos intérpretes masculinos, reviver nomes como Roberto Silva não seria má idéia. Ouçam a série de discos “Descendo o morro”, são quatro volumes onde o eco da voz de Roberto o confirma como uma das mais belas vozes do samba. Em entrevista recente ao nosso jornal O SAMBA É MEU DOM, Paulinho da Viola disse: “O maior sambista vivo é Roberto Silva”, assim, de alteza para alteza.
Por fim, Bezerra da Silva fazia um samba repleto de duplo sentido, crítico e bem humorado. Samba para se ler nas entrelinhas. Suas letras eram compostas pelo cidadão que vivia o dia-a-dia da favela e das classes menos abastadas e tinham a maestria de traduzir as agruras diárias de forma crítica e engraçada. E Bezerra era o porta-voz dessa gente; ele mesmo, sempre ferino, um dos maiores críticos da indústria fonográfica. Infelizmente, não deixou sucessor. E pior, tem sido pouco cantado nas rodas de samba. Talvez a força da ironia de suas letras intimide alguns puristas.
De linhas tão diferentes, marcantes e especiais, todos os quatro comprovam que há samba para todos os gostos.
Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra, qual dos Silva lhe apetece mais?
* * * *
Vejam também:
Roberto Silva com a xará (e bijou) Roberta Sá cantando Falsa Baiana (Geraldo Pereira)
Trecho do curta “Onde a Coruja Dorme”, de Márcia Derraik e Simplício Neto, sobre Bezerra da Silva.
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1.
Eduardo Lapagesse | julho, 2008 às 5:07 pm
Excelente texto, com um gancho muito interessante. O blog tá bombando, tô gostando de ver. Esse menino, o Thales, tem uma proposta irrecusável do Qatar e quero ver como vocês farão para mantê-lo no elenco… rs
Abraços e vida longa ao Samba!
2.
Rafael | julho, 2008 às 5:16 pm
Kid Morengueira era o cara!! Já prendeu o James Bond, salvou o Pelé e ainda pegou a Claudia Cardinale. Tudo na mesma música!
Deveria ser mais lembrado nas rodas de samba por aí!!
O post tá maneiro!
3.
TIBERIO | julho, 2008 às 7:21 pm
DEPOIS DESSA MATÉRIA, GOSTARIA DE SER CHAMADO DE “TIBÉRIO SILVA”…
FICOU BOM, NE?!?!?!?!?! ATÉ PORQUE LEMBRA O NOSSO GRANDE ZAGUEIRO: “THIAGO SILVA”
4.
Fábioslva | julho, 2008 às 6:01 pm
Amigos do site o Samba e Meu Dom adorei a matéria sobre os Silvas do samba. Parabéns ao Thales Ramos pelo texto. Sensacional!
Fábio Silva, do site Galeria do Samba