Archive for julho \31\UTC 2008
Skylab: um samba raio laser

Por Emiliano Mello, Thales Ramos e Thiago Dias
Ele não morou na Vila, como Noel. Mas como o poeta, canta o Rio em crônicas que desvelam a cidade com a precisão de um trovador urbano enviesado. Os 16 anos de carreira tomam forma nos nove discos gravados na mais pura independência, sem qualquer apoio de gravadoras ou selos multinacionais, o que não lhe impediu de faturar o prêmio Claro de música Independente de 2005, tampouco de ser dos mais assíduos convidados do programa do Jô, na Globo.
Rogério Skylab está longe do estereótipo do carioca “da gema”. Sua música passa ao largo do litoral carioca, posto que a praia não lhe causa interesse. Prefere os subterrâneos do metrô, as ruas cáusticas que transpiram óleo diesel, o cheiro do ralo, clima febril dos inferninhos, a luz vermelha do cabaré. E a biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil: “Sempre fiz questão de ler os livros que os professores não indicavam”. Provocador, Skylab tem uma obra que, à vista dos mais preguiçosos, é difícil de classificar. Costuma dizer que faz uma troca de estilos o tempo todo, uma troca esquizofrênica. Mas há um fio que alinhava toda a sua obra e lhe garante o olhar crítico de que lança mão para cantar o Rio de Janeiro contemporâneo como poucos. Este fio é o samba. “Eu tenho uma relação profunda com o samba”. Um samba “harmonizando a lua com a bomba atômica”.
O blog conversou esta semana com Rogério Skylab, artista dionisíaco que lançou recentemente Skylab VIII, oitavo disco da saga musical em dez atos que ele vem construindo há nove anos. No bate-papo, Rogério fala pela primeira vez sobre a sua forte relação com o samba, sua paixão pelo Salgueiro, antecipa como será o seu DVD e nos dá pistas de como serão os próximos projetos. Como ótimo provocador, nos convida ainda a mover o foco da discussão a respeito da “raiz” do samba para longe do lugar-comum. Fazendo lembrar o saudoso Chacrinha, ele veio para confundir e não para explicar. Skylab gosta do confronto de idéias, fazendo jus à sua formação acadêmica em literatura e fisolofia pela UFRJ.
Em “samba isquemia noise” você canta: “O samba é o pai de todos / No samba eu me criei / Com o samba eu faço música / O samba é o puro prazer / Samba que eu quero ver”.Você costuma dizer que suas músicas são ficção. Então como é a sua relação com o samba, afinal?
Bem, essa palavra “ficção” é um problema. Para o senso comum, “ficção” é algo que não corresponde à realidade. Ou seja: se eu disse que o meu trabalho é ficcional, você logo interpreta como não tendo nada a ver com a minha vida. Não é bem assim. Entendo por ficção algo imaginado. Mas daí a pensar como aleatório, sem nenhuma relação com o que vivo e o que penso, vai uma distância considerável. Eu sempre digo que o meu trabalho é vivencial, ou seja, ligado à minha vida. Mas não é biográfico. Os acontecimentos do dia-a-dia não estão no que escrevo; as sensações, sim. Eu tenho uma relação profunda com o samba.
Na mesma música você diz que “o samba vive no exílio”. No entanto, está espalhado por todo o Rio, por toda a Lapa e Zona Norte principalmente. Não seria uma contradição?
(Risos) De fato o samba está espalhado por toda parte. Principalmente no Rio de Janeiro. Digo mais: a mim parece impossível qualquer compositor, sendo carioca, não fazer samba. Eu faço uma analogia com o catolicismo aqui no Brasil. Você pode ser umbandista, mas é católico também. Pode ser do candomblé, mas é católico também. Vou mais fundo: você pode ser ateu, mas é católico. O que quero dizer com isso? É uma questão de cultura, não é uma questão de opção pessoal. Sendo brasileiro, você é necessariamente católico, ainda que não tenha nunca colocado os pés numa igreja. Seguindo a linha de raciocínio, eu diria o mesmo do samba, se você é nascido e criado no Rio de Janeiro. Aqui você pode fazer heavy metal e ainda assim estará fazendo samba. A imagem do “samba no exílio” é que, por mais que você se sinta alijado de todos que o cercam, por mais que seja considerado um ET, em sendo carioca, ainda assim você estará fazendo samba. O meu samba vive no exílio.
Seu samba tem “aparência de raio laser”, como você diz na música “Um samba bem quente”. Paulinho da Viola, em “Argumento”, diz: “Tá legal, eu aceito o argumento / Mas não me altere o samba tanto assim. O que acha dos defensores do samba puro, do resgate das raízes, sem interferências modernas como “raio lasers”?
Esta questão é a que pega. Aí o bicho pega. Vou me alongar. Em primeiro lugar, eu desconfio muito daqueles que pregam um sentido pro samba, isto é, um sentido único. Até porque se formos para a origem do samba, vamos perceber uma confluência de elementos díspares: africanos, portugueses e até mulçumanos. Este caldo de cultura que constitui o samba e que, de uma certa forma, constitui o brasileiro, tem uma vocação para o múltiplo, para o “diferente”. Foi com Getúlio Vargas que se começou a defender a idéia do “nacional” em oposição à música de vanguarda. Nessa época, o maior arauto do nacionalismo na música brasileira era Mário de Andrade, sem esquecer, claro, do genial Vila-Lobos. Foi justamente nessa época que o samba como música radiofônica começou a se constituir. A partir daí foi que começou o abismo entre música nacional e música de vanguarda – coisa que não existia antes.
Esta é uma discussão que provoca debates acalorados ainda hoje…
Exatamente. Ela permanece viva na cultura brasileira. Perpassou a bossa nova, o tropicalismo e até mesmo o rock brasileiro. Pra mim, é uma falsa discussão. Beth Carvalho está errada, Paulinho da Viola está errado, e Caetano Veloso, nos primórdios do tropicalismo, também estava errado quando fez a música “A voz do morto”, ironizando “a voz do morro”. Esta divisão não me interessa porque serve justamente ao nacionalismo xenófobo e complexado. Quero que o samba tenha um amplo espectro como formador de nossa cultura. Tenho alergia a tudo que é “raiz” porque, no fundo, visa a interesses reducionistas. Eu quero que o samba seja mais. Daí por que valorizo aqueles que perverteram o samba, criando uma nova história. E ela passa por João Gilberto (não incluo a bossa-nova, apenas João Gilberto); depois por Jorge Ben com seu “Samba Esquema Novo”; chega em Chico Buarque (toda a sua obra, especialmente “A ópera do malandro”); João Bosco no início de sua carreira em parceria com Aldir Blanc; e chega nos dias atuais, com Marcelo D2 e Mundo Livre S/A, que introduziu o cavaquinho no movimento Mangue Beat.. Sob este aspecto, os carnavalescos das escolas de samba estão a léguas de distância do samba de raiz. Graças a Deus.
Você disse torcer pelo Salgueiro, de onde vem essa paixão? Há algum samba-enredo que tenha te marcado, seja do Salgueiro ou não? Já desfilou, ou desfilaria se convidado?
Eu morava na Tijuca e um dia, quando criança, fui à Praça Saens Peña com a minha mãe. Ali eu vi pela primeira vez a Xica da Silva fantasiada a rigor – a Xica está para o Salgueiro como o goleiro Castilho está para o Fluminense. Depois, ainda bem novinho, assisti na Presidente Vargas (não havia ainda o Sambódromo) ao Salgueiro com o seu enredo “Bahia de Todos os Deuses”. Havia ainda aquela passista gostosa, agora me foge o nome, que saiu até na capa de um disco de vinil da escola. Às vezes vejo umas coisas, como por exemplo: o cara chega do Nordeste com 22 anos de idade, já formado, e com o tempo se torna um verdadeiro carioca. Falácia. Esse cara nunca será carioca. Ele não experimentou na infância, quando se começa a formar a personalidade, os acontecimentos essenciais da cidade. Eu, por exemplo, não sou cartão postal. Mas com cinco anos de idade fui com meu pai ao meu primeiro jogo de futebol no Maracanã. São experiências básicas, decisivas, de formação. Nunca saí por uma escola. Se sair, saio pelo Salgueiro. Fui convidado pela Mangueira e não quis. Pra mim, isso é coisa séria. Sou Salgueiro e não sou mais nada. Assim como sou Fluminense e não sou mais nada. Se você é carioca, você me compreende.
Tem algum sambista que tenha influenciado a sua obra?
João Gilberto
O dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira fala até do “Zumbi do Mato”, mas não há nenhuma referência ao Rogério Skylab. A que atribui a omissão do verbete?
O Ricardo Cravo Albin já não bate bem com as bolas.
Costuma dizer que quer fazer da vida uma obra de arte, como em Foucault. Também diz que o artista tem a função exclusiva de entreter. Você, afinal, é um ARTISTA ou uma OBRA DE ARTE?
Eu não sei quando disse que a função exclusiva do artista é o entretenimento. Essa frase fica bem na boca de um Lulu Santos. Na minha, não. Quanto a fazer da vida uma obra de arte, eu bem tenho tentado. Mas não sei se tenho conseguido.
Como está a preparação do seu primeiro DVD? Quando sairá? Fale um pouco sobre o projeto.
A minha idéia inicial era fazer do “Skylab X” CD e DVD. Eu faria um retrospecto dos meus discos anteriores e, então, finalizaria a série dos Skylabs aí (N.R. série de 10 discos que vem sendo construída há nove anos). Só que já pintaram novas músicas, e seria um desperdício não gravá-las dentro do projeto. Assim foi que decidi fazer do “Skylab X” um disco de inéditas, como os anteriores, e para o bem de muita gente que não se conforma com o fim. E aí, sim, viria em seguida o “Skylab 00” – ponto final mesmo (com a gravação de um show ao vivo para CD e DVD). Mas quando digo fim, quero dizer fim desta série, deste projeto, com estes músicos, com esta forma de gravar os discos. Já estou idealizando um novo projeto – o “Skygirls”. Depois, o “Skybirck”. Por fim, o “Skyzé”. Acho que vai dar pé.
* * * *
Ouça aqui “um samba bem quente”
Assista aqui ao clipe da música “Parafuso na cabeça”
19 comments julho, 2008
Parafuso na cabeça
Caderninho, caneta roída na ponta, gravador de fita e máquina fotográfica no lombo. O blog está na rua. Segue para uma entrevista com um personagem sensacional. Tão logo pronta, entra no ar.
Semana próxima. Você se surpreenderá, meu chapa.
Alguma idéia de quem seja?
9 comments julho, 2008
No samba, Silva é sinônimo de realeza
Por Thales Ramos
Silva é certamente o sobrenome mais popular brasileiro. E por isso mesmo, há quem o renegue. Observe entre os seus conhecidos: quem tem Silva e mais um sobrenome sempre opta pelo outro na assinatura. Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, um dos maiores treinadores do futebol brasileiro, é “da Silva”. Em rápida pesquisa na maravilha do Google, vi que tanto na Espanha como em Portugal, o nome era de família abastada. Também vi que no Império Romano recebia-o as famílias que moravam em cidades na selva (silva quer dizer selva, em italiano).
No Brasil, também não foi diferente. Os portugueses que aqui desembarcavam recebiam mais um sobrenome. Sendo assim, os que ficavam pelo litoral eram acrescidos do Costa e os que optavam pelo mato, o Silva. Posteriormente o nome foi bastante difundido pelos escravos, já que eles recebiam os nomes de seus senhores.
Continuando por aqui, temos Silvas famosos, incluindo o atual presidente, que não foi o primeiro. Antes do operário do ABC, o militar Costa e Silva subiu a rampa do planalto em 1967. Ayrton Senna também era “da Silva”, assim como Lampião e a escrava Xica, que virou filme, enredo do Salgueiro (1963) e hit de Jorge Benjor.
No samba temos um quarteto de ouro que leva Silva na assinatura. Ao contrário do lugar-comum do sobrenome, todos eles são pioneiros, únicos e geniais. Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra têm estilos diferentes e em comum – fora o sobrenome – a marca que cada um deixou na história.
Ismael Silva tinha como reduto o morro do Estácio. Um dos mais influentes sambistas da história é tido por muitos (há controvérsias) como o fundador da primeira escola de samba, a Deixa Falar, e é um dos principais responsáveis pela assimilação da cultura das escolas e do próprio gênero pelas classes financeiramente superiores. A levada do samba que conhecemos hoje tem forte contribuição de Ismael. Sua célebre frase: “No estilo antigo, o samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar assim na rua? Aí a gente começou a fazer um samba assim: bumbum paticumbumpruburundum”, serviu de inspiração para Beto Sem-Braço e Aluisio Machado comporem “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, para o Império Serrano, campeã do carnaval de 1982.
Contemporâneo de Ismael, Moreira da Silva foi o maior representante do samba de breque. Tinha fama de malandro e boêmio, mas sempre foi casado com a mesma mulher e dizia que dormia cedo. Talvez por isso tenha vivido quase cem anos (malandragem, de fato). Também era conhecido como Kid Morengueira, personagem que incorporou em alguns dos seus sucessos como “O Rei do gatilho” e “Os intocáveis”. Em “Acertei no milhar”, música que ele conta a história do malandro que fica milionário no jogo do bicho, ele dá uma “renegada” no sobrenome: “Eu vou comprar um nome não sei onde/de Marquês Morengueira de Visconde”. Era um showman.
A maior voz dos quatro Silvas, Roberto ficou conhecido como o “Príncipe do Samba” e cantava samba sincopado. Com mais de 300 discos gravados, teve muito sucesso na época de ouro do rádio, tendo feito parte do elenco das rádios Tupi e Nacional. Hoje, infelizmente, não grava mais. O último disco de Roberto data de 2002 e o penúltimo de 1979.
Na carência de bons novos intérpretes masculinos, reviver nomes como Roberto Silva não seria má idéia. Ouçam a série de discos “Descendo o morro”, são quatro volumes onde o eco da voz de Roberto o confirma como uma das mais belas vozes do samba. Em entrevista recente ao nosso jornal O SAMBA É MEU DOM, Paulinho da Viola disse: “O maior sambista vivo é Roberto Silva”, assim, de alteza para alteza.
Por fim, Bezerra da Silva fazia um samba repleto de duplo sentido, crítico e bem humorado. Samba para se ler nas entrelinhas. Suas letras eram compostas pelo cidadão que vivia o dia-a-dia da favela e das classes menos abastadas e tinham a maestria de traduzir as agruras diárias de forma crítica e engraçada. E Bezerra era o porta-voz dessa gente; ele mesmo, sempre ferino, um dos maiores críticos da indústria fonográfica. Infelizmente, não deixou sucessor. E pior, tem sido pouco cantado nas rodas de samba. Talvez a força da ironia de suas letras intimide alguns puristas.
De linhas tão diferentes, marcantes e especiais, todos os quatro comprovam que há samba para todos os gostos.
Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra, qual dos Silva lhe apetece mais?
* * * *
Vejam também:
Roberto Silva com a xará (e bijou) Roberta Sá cantando Falsa Baiana (Geraldo Pereira)
Trecho do curta “Onde a Coruja Dorme”, de Márcia Derraik e Simplício Neto, sobre Bezerra da Silva.
4 comments julho, 2008
Melodia viva

Por Equipe O Samba
Obrigado, Aroldo. Segura a marimba!
Ouça em nosso player ao lado a canção “Azul, vermelho e branco”.
Aroldo Melodia deixará saudades.
Add comment julho, 2008
