Fiel, rabugento, irreverente e imortal
junho, 2008 at 3:11 am Deixe um comentário
Por Thales Ramos
Jamelão foi um dos maiores cantores de samba de todos os tempos. O maior intérprete (ele não admitia ser chamado de puxador) de samba-enredo de todos os tempos, o mais antigo. O mais fiel. Neguinho da Beija-Flor também é fiel, no entanto, Jamelão tem mais tempo de fidelidade.
Já escutei dizer, mas não confirmei, que Jamelão teria puxado samba em outra escola em um carnaval. Mas um homem que em mais de cinqüenta anos de relação, dorme uma só noite fora de casa, não pode ser chamado de infiel. Foram 57 anos de amor à Mangueira. Talvez por isso, no carnaval de 99, ele não teria deixado um “intruso” deitar em sua cama. Nesse ano, a Mangueira desfilaria com o enredo “O século do samba”. Alexandre Pires gravou com o mestre no cd e aparecia ao lado dele, nas chamadas da televisão. Mas no dia do desfile, Jamelão fechou a porta na cara do mineirinho.
Com fama de rabugento era o terror das reportagens na concentração dos desfiles. Era comum deixar os repórteres com cara de tacho, depois de suas repostas atravessadas. Indagado pelo global Ari Peixoto, sobre ser o único puxador a não desfilar no chão, foi seco e direto: “Malandro é o gato que come peixe e não vai à praia”. Desconcertado e ao vivo, Ari, se limitou a dizer, “esse é o Jamelão, sempre irreverente”. Outra vez, após a apuração dos resultados e com a verde e rosa, fora dos desfiles das campeãs, ao ser consultado sobre o resultado, disse: “Algum bichinho saiu da arca de Noé”, uma alusão a zebra.
O que poucas pessoas não lembram (ou sabem) é que ele também foi um grande intérprete de samba-canção. Por ser uma figura com identificação tão forte com as escolas de samba, esse lado de sua carreira foi meio esquecido. Lupicinio Rodrigues, “o rei da dor-de-cotovelo”, por exemplo, teve em Jamelão o maior intérprete para suas músicas. Assim como esteve também esteve a frente da Orquestra Tabajara durante um bom tempo.
Voltando aos desfiles. Jamelão afirmava que quem puxava alguma coisa era puxador de carro, carroça ou de fumo, por isso recusava a alcunha de puxador e afirmava sempre que podia que era intérprete, sempre com sua marra habitual, claro. Além de desfilar apenas em cima do carro de som, outra mania de Jamelão era cantar com elásticos na mão. O carnavalesco Max Lopes diz que era superstição do cantor, porém, em 2003 Jamelão dá uma versão mais bem humorada sobre o assunto no programa da Hebe, como podem ver no video acima. “É simpatia mesmo. Porque quando me dão o dindin eu já tenho elástico pra prender”.
Depois, em rede nacional Hebe lhe propõe um selinho. Lembrando a esposa que estava em casa, o baluarte recusou. Era fiel ou não era?



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