Maio, 2008

Bruno Villas Bôas/OSAMBA.NET

Do lamento à afirmação

POR THALES RAMOS E THIAGO DIAS. FOTO: BRUNO VILLAS BÔAS

Durante anos, a história do negro foi contada na avenida com lamento. “Sublime Pergaminho” (Unidos de Lucas, 1968 ) e “Heróis da Liberdade” (Império Serrano, 1969) viraram hinos imortais assim. Mas a fórmula é contestada por quem sempre brigou pelos direitos iguais, independentemente de cor ou posição social. Como Candeinha (foto), um dos principais discípulo das idéias do mestre Candeia na escola de samba Quilombo. Nem pense em exaltar o choro da raça perto desse senhor de olhos azuis.

“Quando cantamos ‘E o negro jornalista/de joelhos/beijou a sua mão’ ou ‘meu Deus, meu Deus/está extinta a escravidão’, fica parecendo que a Princesa Isabel é uma heroína. E sabemos que não é bem assim”, diz, citando a letra de “Sublime Pergaminho”. Levado para o Quilombo por Nei Lopes em 1979, Candeinha venceu a disputa de samba-enredo logo no ano seguinte, cujo enredo era a obra de Candeia. Com a experiência de três anos como diretor do Instituto de Pesquisas de Culturas Negras (IPCN), ele não poupa nem versos compostos por sambistas intocáveis como Silas de Oliveira. “Não tem como dizer que ‘Heróis da Liberdade’ não é um samba lindo. Mas quando aparece ‘passava noite vinha dia/o samba do negro corria’ é complicado. Chega de lamento!”, pede.

Quando foi fundado nos anos 70, o Quilombo tinha em seu estatuto a obrigação de pesquisar a história dos negros e exaltar seus personagens. A escola teve como enredo nomes até então pouco conhecidos, como Preto Cosme, João Cândido, Luiza Mahin e Luiz Gama. Apesar da postura pioneira de pesquisa, a agremiação de Candeia não foi a primeira a retratar personagens da cultura afro-brasileira. Em 1960, o Salgueiro foi campeão pela primeira vez com “Quilombo dos Palmares”. Três anos depois, repetiu o título como “Chica da Silva” e em 1964 cantou “Chico Rei”.

Se as letras pecavam às vezes pela superficialidade e pela infidelidade ao contexto histórico, devemos levar em conta a época em que foram cantadas na avenida. Falamos de um tempo em que a bibliografia sobre o assunto era precária e os compositores tinham como fonte de informação os livros didáticos das escolas, que hoje, como sabemos, deturpam e omitem fatos básicos da história da África, como o fato do Egito fazer parte do continente.

Candeinha compreende e defende os compositores da antiga. “A informação era ruim. O que sei hoje consegui a base de muitos seminários e leitura”. Em 1984, seu samba venceu a disputa no Quilombo que tinha como enredo a Rainha Agotimé (tema levado pelo Beija-Flor para a Marquês de Sapucaí em 2001). Antes de ler a sinopse de “O Xaxá de Ajuda e a Rainha Mina do Maranhão”, ele nunca havia escutado falar na monarca africana que foi vendida ao Brasil como escrava e instituiu a prática do vodu no Maranhão.

Em 1988, Candeinha viu na avenida parte daquilo que sempre defendeu. Com “Kizomba: festa da raça”, a Vila Isabel foi campeã exaltando Zumbi dos Palmares e pedindo o fim do apartheid. Mas foi da Mangueira a porrada mais forte. “Cem anos de Liberdade, realidade ou ilusão” batia forte contra o lamento: “Livre do açoite da senzala/Preso na miséria da favela”. “Aí já melhorou”, exclama o quilombola abrindo o sorriso, que pode até parecer contraditório com o tema, mas revela a gratidão pela tentativa de acordar o negro.

O carnaval de 2007 teve Porto da Pedra, Beija-Flor e Salgueiro com enredos afro-brasileiros. A primeira falou sobre a África do Sul, falando de Nelson Mandela, segregação e repressão. A escola de Nilópolis ratificou a herança genética africana na composição da história brasileira. Com “Candaces”, a agremiação tijucana foi mais ousada, contando a história das rainhas guerreiras da África oriental que governaram antes da era cristã e com um refrão lindo em ioruba.

Hoje, com várias fontes de pesquisa e uma informação mais qualificada, não há desculpas para os deslizes cometidos nos carnavais passados. Há que se contar a história do jeito que ela foi vivida. Sem lamentos.

Entry Filed under: Matérias. .

2 Comments Add your own

  • 1. Vitor Rebello - GRANES QUILOMBO  |  Maio, 2008 at

    Candeinha é uma grande pessoa e eu sou muito fã dele. Salve Feliciano Pereira, grande compositor quilombola!

  • 2. ROBERTO IIVAN, 30 (SAMBISTA, MÚSICO E JORNALISTA)  |  Maio, 2008 at

    Este é o manifesto de fundação do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba QUILOMBO - fundado por Antônio Candeia Filho em 08 de dezembro de 1975:

    “Estou chegando…
    Venho com fé. Respeito mitos e tradições,
    Trago um canto negro. Busco a liberdade.
    Não admito moldes!
    As forças contrárias são muitas, não faz mal…
    Meus pés estão no chão, tenho certeza da vitória,
    Minhas portas são abertas, entre com cuidado, aqui todos podem colaborar.
    Ninguém pode imperar. Teorias deixo de lado, dou vazão à riqueza de um modo ideal.
    A sabedoria é o meu sustentáculo…
    O amor é o meu princípio…
    A imaginação é minha bandeira…
    Não sou radical pretendo apenas salvaguardar o que resta de uma cultura.
    Gritei bem alto explicando a um sistema que cala vozes importantes e permite que outras totalmente alheias falem quando bem entenderem…
    Sou franco atirador!
    Não almejo glórias, faço questão de não virar academia, tão pouco palácio.
    Não atribua o meu nome ao tão desgastado sufixo.
    Nadas de forjadas e mal feitas especulações literárias.
    Deixo os complexos temas às observações dos verdadeiros intelectuais.
    Eu sou o povo… basta de complicações.
    Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.
    Quero sair pelas ruas do subúrbio com minhas baianas rendadas sambando sem parar…
    Com minha comissão de frente digna de respeito…
    Intimamente ligados as minhas origens, artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamento culturais profissionais…
    Não me incomodem, por favor, sintetizo um mundo mágico.
    Estou chegando…”

    SALVE ANTÔNIO CANDEIA FILHO, SALVE A QUILOMBO, SALVE CANDEINHA QUE DÁ SEQUÊNCIA EM TUDO ISSO, SALVE O VERDADEIRO SAMBA, LEGÍTIMA E AUTÊNTICA CULTURA POPULAR BRASILEIRA.

Leave a Comment

hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Categorias




Especiais

Links

Arquivos