Archive for maio \30\UTC 2008

Samba com graça e de graça

Por Thales Ramos
Foto de Bruno Villas Bôas

Não é exagero dizer que no “Rio de Janeiro todo mundo vai de samba”, como cantava Jackson do Pandeiro, de segunda a domingo. Andamos a cidade de ponta a ponta – e mais um pouco – para mapear as rodas e fazer um roteiro que não dói no bolso de ninguém: é tudo gratuito. O mês está começando, programe-se e depois rode a vontade. Na foto, Pedro Ivo, vocalista do Quilombo de Candeia (veja sugestão de domingo).

Segunda-feira

Batuque na Cozinha, Pedra do Sal (Rua Argemiro Bulcão,38 Gamboa. 18 h) – A expressão “cara de segunda-feira” não funciona se você começar a semana na Pedra do Sal, outrora reduto de Pixinguinha e João da Baiana. O grupo Batuque na Cozinha reúne músicos e compositores todas as segundas. “A idéia é cantar alguns sambas que não tocamos em nossos shows, além de reunir alguns amigos para cantar alguns inéditos”, explica André Corrêa, do Batuque. A roda não tem microfone por conta da vizinhança, que volta e meia atira ovos no público. Mas isso em nada abala o bom clima da roda. A cozinha do bar é excelente.

Bip-Bip (Rua Almirante Gonçalves, 50, Copacabana. 20h) – O Bip Bip mantém uma roda de chorinho. O bar é pequeno. As paredes são decoradas com fotos interessantes, de gente da antiga, como João Nogueira e Roberto Ribeiro abraçados com a camisa do “Clube do Samba”. “Comecei isso aqui com ajuda de gente como Cristina Buarque e Elton Medeiros”, diz Alfredo Mello, dono do bar há 14 anos. O Bip bip já teve um livro lançado sobre sua história (“Um bar a serviço da amizade”) e um cd. A renda de ambos foi revertida para projetos sociais que o bar participa.

Terça-feira

Bar Mãe D’água (Praça Leoni Ramos, 7, São Domingos, Niterói. 20h) – O quarteto formado pelo grupo Situkerê faz um som de primeira. A cantora Mônica no vocal só comprova a falta que as mulheres fazem nas rodas, tanto tocando quanto cantando. Ao lado dela, as piadas impagáveis de Almir (pandeiro), além de Joel (sete cordas) e Ernane (cavaco), que já gravou comercial de tv ao lado de Zeca Pagodinho. Pra quem é estrangeiro em Nikiti, a praça onde fica o bar é ao lado da Cantareira.

Beco do Rato (Rua Morais e Vale, 5, Lapa. 20h) – Muitos dos músicos que tocam segunda-feira na Pedra estão por lá. A roda também é levada no gogó. “Quando começamos a roda aqui no beco, queríamos resgatar o clima da Joaquim Silva de dez anos atrás”, diz o percursionista e compositor Mingo, que tem músicas gravadas pelo Batuque na Cozinha e Galocantô. Dando sorte, você presencia duelo de partido-alto (artigo raro nas rodas) entre Baiaco, Chacrinha, Café e Bananada, o faz tudo da casa. Dica: o caldinho de feijão do bar em frente é a pedida.

Quarta-feira

Projeto Samba na Fonte, Pedra do Sal – Voltando à Pedra, tem o projeto “Samba na Fonte”. “A idéia é fazer daqui um celeiro de compositores”, argumenta Ferreira, um dos organizadores da roda, que já teve suas composições nos discos de Wanderley Monteiro e Galocantô. Para o final de abril existe o projeto de um site e um disco, com os seis autores de maior destaque da roda.

Bip-Bip – O simpático bar da zona sul volta ao passado e faz uma roda de Bossa Nova.

Sexta-feira

Beco do Rato – Fique atento ao Beco do Rato na sexta. O pessoal sai do trabalho direto para lá. Depois de certa hora, está todo mundo por conta. Segura a cabrocha pelo pulso e o malandro pela cintura, qualquer piscar de olhos e você perde o par.

Sábado

Buraco do Galo (Rua Dona Vivencia, 97, Oswaldo Cruz. 19 h) – No primeiro sábado do mês, depois da feijoada da Portela, a roda Buraco do Galo tenta resgatar a tradição de compositores de Oswaldo Cruz. Existe há 11 anos e o microfone fica aberto para cada compositor cantar três músicas. O clima é magnífico e familiar. O coral de pastoras já vale a ida ao lugar, assim como o mocotó e a barraca de pastéis, onde você opta pela mistura de recheios.

Feijoada do Quilombo (Rua Ouseley, 710, Fazendo Botafogo) – No segundo sábado do mês tem a feijoada do Quilombo, na Fazenda Botafogo. Tire foto do lado do busto de Candeia, o lugar tem história. Embora seja longe, não é difícil de chegar. É a penúltima estação do metrô, não tem erro. Quem comanda a roda é o grupo Uto Tombo do Quilombo, que tem no banjo Fidélis Marques, primo de Arlindo Cruz e compositor de “Sorriso de um banjo”, sucesso na voz de Jovelina Pérola Negra.

Domingo

Projeto Samba na Praça (Morro São Lourenço, Praça General Rondon, Niterói) – No segundo domingo do mês volte a Niterói e suba o morro São Lourenço. Lá de cima vê-se toda a cidade e a praça onde rola o samba. Tem a igreja São Lourenço, a mais antiga do país, data do século XVII e fundada por Araribóia (também fundador da cidade). Ponto turístico. A barraca da dona Macira é especialista em “comida pesada”, como ela mesma diz.

Baluartes do Turiaçu (Bar do César, Rua Ricardo Silva, 43, Turiaçu) – É no terceiro domingo do mês. O bairro do Turiaçu é uma espécie de sub-bairro de Madureira. Um bairro dentro do outro. Típico samba de subúrbio que fortalece a comunidade, tem no comando Lelei Sabino, Paulo Omar e Cizinho (Velha Guarda do Império), que fecham a rua em frente ao Bar do César e promovem uma dinâmica roda de samba, com homenageados e convidados. O microfone fica aberto a quem quiser dar uma palinha.

9 comments maio, 2008

Do lamento à afirmação

Bruno Villas Bôas/OSAMBA.NET

Por Thales Ramos e Thiago Dias
Foto de Bruno Villas Bôas

Durante anos, a história do negro foi contada na avenida com lamento. “Sublime Pergaminho” (Unidos de Lucas, 1968 ) e “Heróis da Liberdade” (Império Serrano, 1969) viraram hinos imortais assim. Mas a fórmula é contestada por quem sempre brigou pelos direitos iguais, independentemente de cor ou posição social. Como Candeinha (foto), um dos principais discípulo das idéias do mestre Candeia na escola de samba Quilombo. Nem pense em exaltar o choro da raça perto desse senhor de olhos azuis.

“Quando cantamos ‘E o negro jornalista/de joelhos/beijou a sua mão’ ou ‘meu Deus, meu Deus/está extinta a escravidão’, fica parecendo que a Princesa Isabel é uma heroína. E sabemos que não é bem assim”, diz, citando a letra de “Sublime Pergaminho”. Levado para o Quilombo por Nei Lopes em 1979, Candeinha venceu a disputa de samba-enredo logo no ano seguinte, cujo enredo era a obra de Candeia. Com a experiência de três anos como diretor do Instituto de Pesquisas de Culturas Negras (IPCN), ele não poupa nem versos compostos por sambistas intocáveis como Silas de Oliveira. “Não tem como dizer que ‘Heróis da Liberdade’ não é um samba lindo. Mas quando aparece ‘passava noite vinha dia/o samba do negro corria’ é complicado. Chega de lamento!”, pede.

Quando foi fundado nos anos 70, o Quilombo tinha em seu estatuto a obrigação de pesquisar a história dos negros e exaltar seus personagens. A escola teve como enredo nomes até então pouco conhecidos, como Preto Cosme, João Cândido, Luiza Mahin e Luiz Gama. Apesar da postura pioneira de pesquisa, a agremiação de Candeia não foi a primeira a retratar personagens da cultura afro-brasileira. Em 1960, o Salgueiro foi campeão pela primeira vez com “Quilombo dos Palmares”. Três anos depois, repetiu o título como “Chica da Silva” e em 1964 cantou “Chico Rei”.

Se as letras pecavam às vezes pela superficialidade e pela infidelidade ao contexto histórico, devemos levar em conta a época em que foram cantadas na avenida. Falamos de um tempo em que a bibliografia sobre o assunto era precária e os compositores tinham como fonte de informação os livros didáticos das escolas, que hoje, como sabemos, deturpam e omitem fatos básicos da história da África, como o fato do Egito fazer parte do continente.

Candeinha compreende e defende os compositores da antiga. “A informação era ruim. O que sei hoje consegui a base de muitos seminários e leitura”. Em 1984, seu samba venceu a disputa no Quilombo que tinha como enredo a Rainha Agotimé (tema levado pelo Beija-Flor para a Marquês de Sapucaí em 2001). Antes de ler a sinopse de “O Xaxá de Ajuda e a Rainha Mina do Maranhão”, ele nunca havia escutado falar na monarca africana que foi vendida ao Brasil como escrava e instituiu a prática do vodu no Maranhão.

Em 1988, Candeinha viu na avenida parte daquilo que sempre defendeu. Com “Kizomba: festa da raça”, a Vila Isabel foi campeã exaltando Zumbi dos Palmares e pedindo o fim do apartheid. Mas foi da Mangueira a porrada mais forte. “Cem anos de Liberdade, realidade ou ilusão” batia forte contra o lamento: “Livre do açoite da senzala/Preso na miséria da favela”. “Aí já melhorou”, exclama o quilombola abrindo o sorriso, que pode até parecer contraditório com o tema, mas revela a gratidão pela tentativa de acordar o negro.

O carnaval de 2007 teve Porto da Pedra, Beija-Flor e Salgueiro com enredos afro-brasileiros. A primeira falou sobre a África do Sul, falando de Nelson Mandela, segregação e repressão. A escola de Nilópolis ratificou a herança genética africana na composição da história brasileira. Com “Candaces”, a agremiação tijucana foi mais ousada, contando a história das rainhas guerreiras da África oriental que governaram antes da era cristã e com um refrão lindo em ioruba.

Hoje, com várias fontes de pesquisa e uma informação mais qualificada, não há desculpas para os deslizes cometidos nos carnavais passados. Há que se contar a história do jeito que ela foi vivida. Sem lamentos.

3 comments maio, 2008

Nobre defesa dos ídolos

Divulgação

Por Thiago Dias

Uma olhada nas músicas do novo CD/DVD de Dudu Nobre (“Roda de samba ao vivo”) mostra que ele não é bobo na hora de escolher repertório: há faixas de bambas como Candeia, Martinho da Vila, Geraldo Babão, Almir Guineto, Beto Sem Braço, Casquinha, Noca da Portela, Xangô da Mangueira, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Monsueto. Dudu é craque também na hora de defender seus ídolos.

Zeca, Almir, Martinho e Fundo de Quintal são as suas referências. “Quando comecei nessa parada, o que eu queria era ganhar o respeito deles. Hoje, posso dizer que meus ídolos são meus amigos”, diz, por telefone, ao SAMBA. Por isso, nem tente criticar alguns deles perto de Dudu.

O cantor não gostou de saber, por exemplo, que Cristina Buarque, em entrevista a Daniel Pereira no blog “Samba de Rede”, afirmou que “existe uma leva boa” de compositores, mas “não tem nenhum gênio”. Ela foi mais além: “Há quanto tempo não aparece gente expressiva? Pelo menos, desde a década de 1970, não apareceu ninguém”. Dudu sentiu-se atingido pela declaração da irmã de Chico: “Eu fico chateado… Como que falam que Zeca não é gênio? Já sentou com Almir, Zeca, Arlindo para compor? Eu já. E falo que todos eles são gênios. O que o Almir faz é impressionante”, defende.

A resposta não parou por aí. Com a língua afiada, o marido da Bombom foi mais longe nas críticas. “Vou ser até mais polêmico: ali na Lapa tem algumas pessoas que só sabem ficar olhando para a Lapa. E ficam dizendo: ‘Tem que cantar samba de 1930, 1940, é só isso que presta’. Graças a Deus tem um pessoal de lá com uma visão diferente, que canta 1930, 1940, mas faz o deles. É o pessoal que está crescendo, Casuarina, Teresa Cristina, Roberta Sá… Eles regravam, mas têm o costume de preservação e renovação. Quem tem cabeça minúscula, vai ficar na Lapa cantando para 40 pessoas para sempre”, ataca.

Por falar em regravações, Dudu também tem exagerado na dose nos últimos anos. Compositor de mão cheia e com música gravada por Zeca quando tinha apenas 21 anos (“Vou colocar seu nome na macumba”), como cantor acabou ficando famoso por faixas como “A grande família”, “Goiabada Cascão” e “No tempo de Don-Don”, além de um CD com alguns dos melhores sambas-enredo da história. “’Essas eu gravei a pedido da Globo. O Faustão me ligou cinco vezes, falando do CD dos sambas-enredo. Não posso dispensar”, diz.. Em seguida, faz questão de lembrar seu sucesso como compositor: “Nos últimos 14 anos, só não tive música em um disco do Zeca. Das últimas sete faixas de trabalho dele, três são minhas. Quem não gosta, tem que engolir”, completa.

Dud diz não ter medo de ficar marcado pelas regravações. Em breve, planeja lançar um CD de inéditas. Mas, como completa dez anos de carreira em 2009, sabe que poderá ter que fazer mais um trabalho de faixas já conhecidas. “Me cobram um disco de inéditas. Mas, às vezes, as pessoas não entendem. Se a gravadora me pede para fazer um disco ao vivo porque é mais fácil de vender, não posso virar as costas para ela. É a gravadora quem banca a gravação. Um disco custa R$ 200 mil. Eu não posso negar um pedido da gravadora. Eu faço o que me pedem, mas desde que seja o que eu gosto”, explica.

No “Roda de samba ao vivo”, Dudu traz as inéditas “Seu Gastão vai me bancar” (parceria com Zeca), “Que mundo é esse” e “Tinha cachaça no meio” (parcerias com Almir Guineto e Fred Camacho). “Sou um compositor novo, atuante. Mas, infelizmente, no samba que eu faço há poucos cantores para gravar. Tem o Zeca, o Arlindo, o Fundo de Quintal, a Beth Carvalho… Não é como pagode romântico, que uns 15 grupos gravam”, compara.

41 comments maio, 2008

Vista a camisa d’O Samba!

Todos os dias recebemos dezenas de e-mails pedindo o jornal O samba é meu dom em cidades fora do Rio de Janeiro. No início, tentamos atender a maioria, mas infelizmente os custos com os Correios ficaram elevados demais.

Para atender aos pedidos, resolvemos criar a campanha Vista a camisa d’O Samba. A partir de agora, vendemos o simpático kit com uma camisa O samba é meu dom, que segue com as três edições já lançadas do jornal.

O preço é de apenas R$ 25, incluído o frete. Além de levar o jornal até a sua casa, a campanha nos ajuda a manter este espaço vivo, pois está cada vez mais difícil fechar as contas a cada edição.

Ah! E os cinco primeiros leitores que comprarem o kit ganham ainda, de cortesia, um adesivo com o logo do nosso jornal.

Para adquirir o kit, basta clicar no banner ali do lado do nosso blog (ou clicar diretamente aqui) e preencher o formulário. Assim que recebermos os pedidos, responderemos.

Vista a camisa d’O Samba!

Contamos com a ajuda de vocês.

2 comments maio, 2008

Monarco comanda festa da 3a edição d’O Samba

Por Equipe O Samba

Com a presença ilustre de Monarco, o jornal O samba é meu dom comemorou em grande estilo a chegada de sua terceira edição às ruas. No último dia 24 de abril, a roda de samba voltou a tomar conta do Bar da Ladeira, na Lapa.

“Foi ótimo, parecia uma família reunida”, disse Monarco, no dia seguinte, com a voz rouca. Pudera: o líder da Velha Guarda da Portela, que havia combinado cantar 12 músicas, ficou cerca de uma hora e meia com o microfone na mão, sem deixar ninguém parado.

A roda de samba, comandada pelo Samba da Amendoeira, contou com canjas ainda da mineira Aline Calixto, convidada especial de Monarco, Daniel Pereira, o blogueiro mais polêmico do Brasil, André Correa, do Batuque na Cozinha, André Jamaica, Feijão de Corda e Pedro Ivo, do Quilombo de Candeia.

Mais uma vez, agradecemos a presença de todos. A família está crescendo.

1 comment maio, 2008


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