Archive for abril, 2008

Datas da discórdia

Por Thiago Dias

O 28 de abril de 2008 foi comemorado com festa na Mangueira: a Estação Primeira se vestiu de gala para celebrar os 80 anos da sua fundação. Poucos dias antes (11 de abril), a Portela festejou 85. Mas as contas podem estar erradas.

Segundo o jornalista Sérgio Cabral, no livro “Escolas de samba do Rio de Janeiro” (editora Lumiar, 1996), a verdadeira data de fundação da Estação Primeira de Mangueira é 28 de abril de 1929 – ou seja, um ano depois do que diz a história oficial da escola. Na biografia “Paulo da Portela – Traço de união entre duas culturas”, as autoras Marília Barboza da Silva e Lygia Santos mostram que a Portela, ainda como bloco chamado Conjunto Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz, foi criada em 11 de abril de 1926.

A razão da polêmica: a Deixa Falar, considerada por unanimidade pelos sambistas como a primeira escola de samba da história mas que na verdade sempre quis ser um rancho, é de 12 de abril de 1928 (segundo o fundador Ismael Silva em depoimento a Cabral).

Mangueira x Deixa Falar

Em seu livro, Cabral, um dos maiores especialistas no assunto, mostra até um documento oficial da Mangueira, de 1939, com a data de fundação como 28 de abril de 1929 no papel timbrado da escola com o nome “Escola de Samba Estação Primeira” (aliás, há um registro na obra de que, até os anos 50, a Estação Primeira era o nome mais utilizado para referir-se à verde e rosa).

O pai do governador do Rio conta que, em 1927, com nomes como Zé Espinguela, Carlos Cachaça, Maçu e Cartola, o Bloco dos Arengueiros desfilou pela primeira vez no carnaval. Era o embrião da Estação Primeira. Dois anos depois, o grupo decidiu seguir o exemplo dos pioneiros do Estácio de Sá – criadores da Deixa Falar – para organizar um “bloco carnavalesco”, que em seguida passaria a ser uma escola de samba. Era a Estação Primeira de Mangueira.

Os documentos apresentados por Cabral foram retirados do arquivo do radialista Almirante (Henrique Foreis Domingues). São cartas enviadas ao radialista pela direção da escola, em janeiro e abril de 1939. Almirante também é o responsável por outro registro da fundação em 1929. Em 1939, o radialista recebeu em seu programa na Rádio Nacional os mangueirenses Carlos Cachaça, Nicanor, Cartola, Pedro Palheta, Agrícola, Neuma, Ulisséia e o presidente Agenor Murilo de Castro, e anunciou: “Em 1929, há dez anos, portanto, no dia 28 de abril, foi fundada a escola de samba da Mangueira”.

Ou seja, se a verde e rosa é de 12 de abril de 1928, ela teria surgido quatro meses antes da Deixa Falar.

Conjunto Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz

Em seus dados oficiais, a Portela foi fundada em 11 de abril de 1923. Porém, Marília Barboza da Silva e Lygia Santos mostram que a Portela, ainda como bloco chamado Conjunto Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz, foi criada em 11 de abril de 1926.

Antes, Paulo da Portela e seus amigos de Oswaldo Cruz brincavam carnaval nos blocos Come Mosca (organizado pela famosa festeira Dona Esther) e Baianinhas de Oswaldo Cruz, criado por Paulo, Antônio Rufino e Antônio Caetano – o trio que impulsionaria a Portela – em 1922. Mas, somente em 1923 o bloco ganhou estatutos e diretoria (o que daria razão aos 85 anos comemorados agora).

A Portela nasceria somente em uma reunião em 11 de abril de 1926, após os três amigos terem tido a idéia de organizar o grupo durante papo embaixo da mangueira na casa de seu Napoleão (pai de Natal). Caetano conta ao livro, para não restar dúvidas: “A fundação foi em abril de 1926 como escola de samba (…). Eu resolvi chamar de escola de samba porque, nessa época, a gente cantava samba que o Estácio fazia, aprendia com eles o ritmo. Agora, o Estácio era um grupo, um conjunto daquele pessoal que cantava ali do Estácio e ia para Mangueira, São Cristóvão. Eles não tinham ainda organização de escola de samba, mas usavam o nome”.

Ou seja: os portelenses também reconhecem a Deixa Falar como primeira escola de samba. Mas, as datas de fundação não batem.

abril, 2008 at 1:15 am 2 comentários

O senhor Velha Guarda

Bruno Villas Bôas/OSAMBA.NET

Por Thiago Dias
Foto de Bruno Villas Bôas

Em 1970, a Velha Guarda da Portela era reunida pela primeira vez para gravar um disco, produzido por Paulinho da Viola. Chico Santana, Manacéa, Alberto Nonato, Alcides e outros malandros históricos formavam o grupo. Entre aqueles senhores, um “menino” de 37 anos: Monarco, autor da música que dava nome ao disco “Passado de glórias”.

“Daquela formação que está na contra-capa do disco só eu estou vivo”, lembra o compositor. Antes mesmo dos 40, Monarco já era Velha Guarda. “Eu gostava de ficar com os velhos mesmo”, lembra o portelense, agora com 74.

Monarco será o convidado especial da festa organizada pelo jornal O Samba, na próxima quinta-feira, dia 24, a partir das 21h no Bar da Ladeira (Rua Evaristo da Veiga, 149 – Lapa). No repertório, alguns dos maiores sucessos da turma da Portela: “Vivo isolado do mundo” (Alcides Dias Lopes), “Coração em desalinho” (Monarco e Ratinho), “Vai vadiar” (Monarco e Ratinho), “Quitandeiro” (Paulo da Portela e Monarco), “Linda Guanabara” (Paulo da Portela) e “De Paulo a Paulinho” (Chico Santana e Monarco). “Na hora a gente canta mais, no improviso. A festa vai ser bonita”, garante.

Foi Candeia quem fez Monarco abrir o olho para o seu talento. “Eu ficava muito lá em Oswaldo Cruz, nas calçadas, em pontos de bicho. Ele falava para mim: ‘Você está na lama’. O Candeia achava que eu podia estar por cima, que eu era melhor que alguns que faziam sucesso”, lembra. Depois da bronca, mostrou ao amigo a primeira parte de “Portela, uma família reunida”. “Ele adorou a música e fez uma segunda parte maravilhosa”, conta. Foi a única parceria entre os dois.

Apesar de ser muito gravado, Monarco descarta investir numa carreira de cantor. Prefere atuar como compositor, fazer shows com a Velha Guarda da Portela e alguns sozinhos pelo Brasil. Já lançou quatro discos sem os companheiros, mas sabe que é difícil sobreviver de vendagem hoje. “As pessoas dizem que são antológicos, mas vende pouco. Direito autoral também paga pouco. Os shows que pagam as contas”, diz.

FESTA JORNAL O SAMBA
Data: 24/04/2008
Local: Bar da Ladeira (Rua Evaristo da Veiga, 149 – Lapa – embaixo dos Arcos)
Hora: 21h
Participação: Samba da Amendoeira e Monarco
Couvert: R$ 10

* * *

PROMOÇÃO

A equipe O Samba e o Galocantô trazem mais uma promoção para os sambistas: um par de ingressos para o show do grupo no dia 25, próxima sexta-feira, no Teatro Rival, no Rio de Janeiro.

Para ganhar, é mole mole. Basta responder, para o nosso e-mail blogsamba@gmail.com (ou pelo Fale Conosco, no menu de cima do site), à pergunta: qual o nome do novo show do Galocantô?

A primeira pessoa que responder certo fatura o par de ingressos. Mãos à obra!

abril, 2008 at 11:30 pm 3 comentários

Paulo da Portela como você nunca viu e ouviu

Thiago Dias/OSAMBA.NET

Por Thiago Dias

Provavelmente, você já ouviu falar de Paulo da Portela. Mas, quase certamente, você nunca o ouviu. Chegou a hora.

O jornal/site O Samba conseguiu a cópia das duas únicas gravações existentes de Paulo da Portela cantando. As faixas nos foram gentilmente repassadas por Luis Carlos Magalhães, professor de carnaval na universidade Estácio de Sá e produtor de um documentário em homenagem ao centenário do “professor”.

As gravações fazem parte do acervo do pesquisador José Ramos Tinhorão, que em seu livro sobre a história da música popular brasileira classifica Paulo da Portela como “legendário”.

“O Tinhorão cita os principais compositores, artistas e cantores do Brasil, mas a única vez que usa um adjetivo é para o Paulo”, conta Luis Carlos, que reuniu ainda a obra do mestre em três CDs. “Um legítimo pirata, mas absolutamente invendável. A intenção é tirar das gavetas e registrar de uma forma unificada a obra musical conhecida dele”, explica.

As duas músicas que Paulo canta nessas faixas históricas são de Heitor dos Prazeres, um dos principais responsáveis de sua saída da Portela em 1941: as emboladas “Tia Chimba” e “Vou te abandonar”, de um álbum de 1930 da gravadora Brunswick. Você pode escutá-las no player do menu à sua direita, em uma caixinha verde. Divirta-se.

Mas as raridades do bamba não param por aqui. O Samba também teve acesso a um documento raro da Portela e, consequentemente, da história das escolas de samba: um caderno, de 1935, com letras de músicas de compositores portelenses, como Paulo, Ventura e Alcides, o malandro histórico. Tudo escrito a mão pelo arquivista Oswaldo dos Santos.

“Infelizmente, perdemos muitas coisas em incêndio e mudanças”, lamenta Umberto Alves, sobrinho-neto do “professor” que guarda esta e muitas outras relíquias, as quais pretende transformar em livro.

O caderno é marcado por curiosidades. Além das músicas, há receitas de culinária, com caligrafia bem diferente da de Oswaldo dos Santos. Umberto não sabe como elas foram parar lá, entre as composições. Na maioria das páginas, há o carimbo com o nome da Portela, então grafada “Portella”. O endereço da quadra era “Estrada da Portella, 302”.

Entre as letras, destaque para “Cidade Mulher”, do sensível verso “Cidade, quem te fala é um sambista / Anteprojeto de artista”. Vale lembrar que 1935 foi o ano do primeiro desfile oficial das escolas, vencido pela Portela.

abril, 2008 at 1:25 pm 1 comentário

A última canção do beco

Por Emiliano Mello

“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.”

(“Poema do Beco”, de Manuel Bandeira, publicado em Estrela da Manhã,1936)

Fica na Rua Moraes e Valle, escondido num canto da Lapa. É um beco que nasceu à sombra das sagradas paredes do Convento do Carmo, da secular Ordem dos Carmelitas. Beco das sarças de fogo, de paixões sem amanhãs. Chama-se Beco do Rato, assim nomeado por servir de “desova” de objetos roubados no passado.

Era onde os gatunos faziam a festa. Hoje é onde acontece, desde 2005, uma das rodas de samba mais famosas do Rio.

A fama do local vem de muitos anos, entretanto, e é fruto dos freqüentadores ilustres que pelo Beco passaram. Chiquinha Gonzaga, autora da primeira marcha carnavalesca (“Ó Abre Alas”, 1889) era um deles. Os compositores Sinhô, Noel Rosa e Ernesto Nazaré também. Madame Satã lá era respeitado e temido. O dândi João do Rio, cronista de fina pena, era encantado pelo lugar. Portinari também.

E o poeta Manuel Bandeira, que morou por 20 anos naquele recanto.

Foi lá que Bandeira escreveu seus famosos livros Estrela da Manhã e Lira dos Cinquent`anos, nos quais cita o Beco do Rato. Neste último, publicou o comovente “A última canção do beco”. Sobre a produção do poema, o poeta recorda:

“De repente a emoção ritmou em redondilhas, escrevi a primeira estrofe, mas na hora de vestir-me para sair, vesti-me com os versos surdindo na cabeça, desci à rua, no Beco das Carmelitas me lembrei de Raul de Leoni, e os versos vindo sempre, e eu com medo de esquecê-los (…) Chegando ao meu destino, pedi um lápis e escrevi o que ainda guardava de cor… De volta à casa, bati os versos na máquina e fiquei espantadíssimo ao verificar que o poema se compusera, à minha revelia, em sete estrofes de sete versos de sete sílabas.”

Da próxima vez que levar a cabrocha à roda do Beco do Rato, lembre-se de Bandeira.

E para entrar no clima, O SAMBA disponibiliza para você, com exclusividade, “A última canção do beco”, narrado pelo próprio Manuel Bandeira. Ouça aqui.

abril, 2008 at 12:31 am 7 comentários

Papel de parede

Por Equipe O Samba

Leitores d’OSAMBA, atualizamos a seção papéis de parede. Colocamos dois novos “wallpapers” produzidos a partir de imagens feitas pela equipe do blog.

Um é da bateria do Império Serrano, feita durante apresentação em Madureira. Outro é de um bar de Niterói. Em breve, mais papéis de parede.

Para conferir, basta clicar aqui.

abril, 2008 at 4:47 am Deixe um comentário

Reunião de escritores

Por Thiago Dias

Cartola é o maior compositor de samba da história. Para mim, e para muitos outros – mais entendidos do que eu – também. Por isso é sempre bom ler ou ouvir histórias de sua vida e análises de suas obras. Ainda mais quando feitas por quem viu de perto o mangueirense em ação. Como Paulo César Pinheiro.

A extinta revista “Música Brasileira”, em sua edição número 15 (outubro de 1998), traz uma homenagem aos 90 anos de Cartola, com textos de Elton Medeiros, João Nogueira, Jorge Simas, Roberto Nascimento, Sergio Cabral, Mariana Blanc, Nelson Sargento e um depoimento emocionado de PC Pinheiro, que revela uma bonita face de Angenor de Oliveira: a exaltação de sua própria obra.

Não por vaidade ou exibicionismo. PC nos mostra que Cartola era o maior fã de sua própria obra. “Ele me contava as histórias das canções. E mostrava como usava os acordes para cada clima de cada frase. Tinha a noção perfeita do que a harmonia devia dizer em cada verso de tristeza ou de alegria, de calma ou de tensão, de resignação ou de ansiedade, de conselho ou de paixão”, diz o eterno parceiro de João Nogueira.

O que impressiona é que Cartola foi um autodidata, aprendeu a tocar violão sozinho. Com Noel Rosa, passou a conhecer a poesia brasileira e, segundo seus biógrafos Marília Trindade Barboza e Arthur de Oliveira, era um leitor voraz dos poetas parnasianos. Daí vem mais uma bela revelação de PC Pinheiro: Angenor guardava, em uma pasta, poemas que raramente mostrava a outras pessoas. PC foi um dos felizardos.

“Abria e me mostrava poemas, sonetos, versos que escrevia ao longo do tempo sem jamais ter pensado em editá-los. E lia com segurança de um declamador profissional, fazendo as entonações necessárias ao espírito de cada intenção de sentimento. E repetia quando gostava. Trocava idéias literárias comigo como se estivéssemos numa reunião de escritores”, diz. E estavam.

abril, 2008 at 3:41 am Deixe um comentário


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