Polêmicas no samba

março, 2008 at 1:16 am 8 comentários

Arte OSAMBA.NET

Por Thiago Dias

Paulinho da Viola fez “Argumento” para criticar Benito de Paula. Martinho da Vila ficou irritado com uma nota baixa no carnaval e atacou Chico Buarque. Este, por sua vez, não gostou de uma camisa rubro-negra dada por Ciro Monteiro à sua filha e respondeu com um samba bem tricolor. João Nogueira, defendendo o Rio, não perdeu a chance de alfinetar o “iô-iô” Caetano Veloso. Clara Nunes e Beth Carvalho incorporaram o duelo Emilinha x Marlene. Sozinho, Arlindo Cruz conseguiu o sucesso que não tinha com Sombrinha.

Verdade ou mentira?

Estas histórias correm o mundo do samba. Algumas são confirmadas pelos envolvidos. Outras não passam de boatos, nunca comentados pelos protagonistas. Há ainda os que negam veementemente as discórdias.

O blog O SAMBA lista algumas das polêmicas mais famosas entre os sambistas, e você comenta lá embaixo se acha que as histórias são verdadeiras ou não.

Martinho da Vila x Chico Buarque

Em 1967, Chico Buarque foi jurado dos desfiles no Rio de Janeiro. E não gostou muito do samba da Vila Isabel, composto por Martinho da Vila e Gemeu para o enredo “Carnaval das ilusões”. Não deu 10.

A escola acabou em quarto lugar. A nota de Chico não agradou Martinho. Pouco tempo depois, o Zé Ferreira escreveu a música “Caramba”, que dizia: “Malha, malha, malhador/ que não aceita a evolução/ (…) Caramba, nem o Chico entendeu o enredo do meu samba”.

Paulinho da Viola x Benito di Paula

De gravatinha, terno, cabelo comprido e piano, Benito di Paula fazia o povo requebrar com seu samba diferente. Foi logo tachado de brega. Mas fez sucesso. Tanto, que cerca de 20 anos depois, o grupo Revelação estourou nas rádios com “Do jeito que a vida quer”.

Mas, quando surgiu, Benito criou polêmica. Era criticado pelo seu estilo de tocar samba. Coincidentemente, naquela época, Paulinho da Viola lançou “Argumento”. O bamba da Portela dizia: “Tá legal, eu aceito o argumento / Mas não me altere o samba tanto assim / É que a rapaziada está sentindo a falta / De um cavaco, do pandeiro e de um tamborim”.

Paulinho nunca confirmou que o recado era para Benito.

João Nogueira x Caetano Veloso

No histórico disco “Clube do samba”, de 1979, João Nogueira (em parceria com Paulo César Pinheiro), detona um tal de “Iô-Iô” na faixa 11. Há versos assim:

“Você exalta a Bahia, porém nunca mais por lá ficou / E deu pra falar mal do Rio, morando aos pés do Redentor”

“Até no início você parecia que era um bom rapaz / Mas com essa mania de estar todo dia em jornal falou demais”

“Homem que é homem não muda como você mudou”

Baiano, morador do Rio de Janeiro, todo os dias nos jornais e que ainda não se encaixa na definição “homem que é homem”. Muitos dizem que a crítica era para Caetano Veloso.

Escute “Iô-iô” no player do blog, no menu à sua direita, bem aí do lado, na caixinha verde.

Chico Buarque x Ciro Monteiro

Grandes amigos, Chico e Ciro tinham um ponto de discórdia: a paixão por times de futebol diferentes. Buarque é Fluminense, Monteiro era Flamengo. Ambos fanáticos. Em 1969, Ciro resolveu provocar o tricolor: mandou para Silvia, filha recém-nascida de Chico, uma camisa rubro-negra de presente.

Chico não perdeu tempo e fez, em “homenagem” ao amigo, a música “Ilmo. Sr. Ciro Monteiro”, também chamada de “Receita para virar casaca de neném”. Nela, ele diz: “Minha petiz agradece a camisa / Que lhe deste à guisa de gentil presente / Mas caro nego, um pano rubro-negro / É presente de grego não de um bom irmão”. Chico termina afirmando que “nasceu desse jeito uma outra tricolor”.

Mas o papai estava errado: Silvia acabou virando rubro-negra.

Clara Nunes x Beth Carvalho

Para Arthur Xexéo, colunista de O Globo, o duelo entre Clara Nunes e Beth Carvalho fez lembrar a disputa entre Marlene e Emilinha, as divas do rádio. Na biografia de Clara, o autor Vagner Fernandes tenta explicar a rivalidade. Segundo o livro, as duas começaram a se estranhar quando Clara gravou um disco de samba na Odeon. Fez sucesso e gerou ciúme na mangueirense, que havia proposto um LP do gênero antes e não teve a idéia aceita pela gravadora. Beth acabou indo para a Tapecar.

“O que eu conhecia dela era o fato de ser uma cantora de música brega. Ela não tinha nada a ver com samba, era mineira. Eu tinha, sou carioca”, diz Beth no livro, insinuando ainda que a rival era mangueirense e que passou a freqüentar a Portela e a se vestir de branco por imposição do produtor Adelzon Alves.

Arlindo Cruz x Sombrinha

Alguns dos maiores sucessos do Fundo de Quintal levam a assinatura da dupla, como “O show tem que continuar” (com Luiz Carlos da Vila) e “Só pra contrariar” (com Almir Guineto). Em 1993, deixaram o grupo e partiram para a carreira solo. Três anos depois, uniram-se e formaram a dupla Arlindo Cruz e Sombrinha. Lançaram três discos juntos e, em notícia surpreendente, anunciaram a separação em 2002.

Arlindo disse que o acordo foi amigável. “Decidimos nos separar porque seria uma opção mais rentável para os dois. Não em dinheiro, mas em trabalho”, afirmou o compositor do Império Serrano na época. Por outro lado, Sombrinha mostrou-se surpreso e ficou magoado com a decisão. “Nunca fui convidado para participar do pagode que ele organiza na Barra da Tijuca com convidados e parece que perdemos 8 anos de trabalho”, disse.

Hoje, Arlindo bomba com vinheta na Globo e músicas gravadas por Marcelo D2 e Maria Rita. E o Sombrinha, por onde anda?

* * * *

Para quem pensa que acabou há, ainda, uma briga antológica que marcou a história da música popular brasileira. Briga de gigantes. Mas esta, só no próximo post. Aguardem!

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8 Comentários Add your own

  • 1. Tibério  |  março, 2008 às 3:32 am

    Valeu mais uma vez rapaziada!!!! Buscando e apresentando informações, fatos e lendas sobre o Samba.

    Muito boa a matéria!!!!

    Responder
  • 2. Andrea N.  |  março, 2008 às 2:12 pm

    Se as historias sao verdadeiras ou nao, eu nao sei, mas acho que nem importa. Comparar os musicos e trazer a tona sambas e historias tao interessantes, com detalhes que eu ja tinha me esquecido ou nem sabia, ja foi um exercicio tao legal de memoria e de apredizado sobre a nossa propria cultra, que soh isso ja valeu. Adorei!

    Responder
  • 3. Artur de Bem  |  março, 2008 às 11:05 pm

    Algumas brigas saudáveis, que termina em sambas, são válidas. Normal.

    Brigas como Beth e Clara é que não são muito compreendidas pelos fãs.
    Há quem diga que quando a Beth chegava num ambiente onde Clara estava, Clara cantarolava:
    “Pra quem gosta de cachaça, bebe wisky muito caro
    Pra quem diz que é do subúrbio, Lunabar fica distante
    Pra quem preza a todo instante a justiça social
    Tá ganhando muita grana investindo capital
    É melhor deixar de extremos que já tá pegando mal

    Que verdade é essa que você conta pra gente
    Na verdade a verdade é geralmente aparente”
    (Gisa Nogueira)

    Arlindo e Sombrinha é um caso a parte. Arlindo tem sucesso, mas não é mais aquele sambista que o revelou.

    Há ainda as brigas entre samba e bossa-nova, Donga e Ismael, etc…

    Foi boa a lembrança. A maioria dos fatos eu nem conhecia!

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  • 4. Francisco Carlos da Silva  |  março, 2008 às 1:49 am

    Como a Dona Beth MENTE MAL…
    Ela só pensou em fazer disco de Samba em 1971 e Clara JÁ GRAVAVA SAMBA desde 1968,influenciada por Ataulpho Alves.
    E tem mais:
    Alcione,Xangô da Mangueira,Martinho da Vila,entre outros,TAMBEM NÃO SÃO CARIOCAS…
    A INVEJA MATA,DONA BETH…

    Responder
  • 5. Marco  |  março, 2008 às 1:36 pm

    Boa matéria. A Beth usou um argumento bem chinfrim. Será que ela concordaria com ele hoje? Só para lembrar, Mauro Duarte também era mineiro. E a do João Nogueira foi a melhor. Aliás, dá-lhe MENGO!!!

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  • 6. Gustavo Sirelli  |  abril, 2008 às 3:56 pm

    Só pra deixar claro: o Ciro Monteiro presenteava todos os filhos de amigos, ao nascer, com uma camisa do Flamengo, fossem os pais flamenguistas ou não. A diferença entre todos e o Chico, é o samba magistral que saiu da brincadeira.

    Abs.

    Responder
  • 7. Paulo Roberto Moura  |  abril, 2008 às 8:33 pm

    Histórias maravilhosas que ficaram marcadas sejam verdadeiras ou simples invenções. Clara Nunes e Beth Carvalho a história rendeu muito.

    Responder
  • 8. carlinhos  |  setembro, 2011 às 12:04 am

    Se é verdade a do João foi um tapa de peloca mesmo, além de ser um sambão.

    Responder

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