Archive for janeiro, 2008
Daniel Pereira: de aleluia a saravá

Por Emiliano Mello
Foto Bruno Villas Bôas
Do alto do trio-elétrico, Daniel Pereira, chapéu panamá tortinho na cabeça, puxava com voz grave o bloco “Imprensa que eu Gamo”. Fosse um jardim, lá embaixo seriam rosas cobertas de orvalho. Eram cabrochas à chuva, no entanto, que enfeitavam as ruas das Laranjeiras, no Rio. Braços lançados ao céu, levavam no gogó: “Minha cidade ainda é maravilhosa / Tá cheia de avião / Relaxa e goza”, refrão de “Na tropa do imprensa, ninguém pede para sair”. Vencedor deste ano, o samba de Daniel Pereira era chiclete na boca dos foliões.
Três dias antes, no café do Cinema Odeon, Daniel confidenciou ao blog O Samba que a disputa não havia sido fácil. Segundo ele, algumas pessoas ligadas ao bloco foram contra a composição. Sob a alegação de que seu samba incitava a violência, houve quem sugerisse mudanças na letra. Daniel negou-se: “Renan Calheiros encheu o nosso saco um tempão. Por que a gente não pode agora implicar com ele? A gente queria mesmo bater, pôr o dedo no olho”, esclarece. Acabou levando o bicampeonato para casa.
Preocupado com a falta de profissionalismo no samba (“Tudo é muito amador ainda”, lamenta), Daniel Pereira é apontado por alguns como figura polêmica. Suas opiniões nem sempre são bem recebidas. Jornalista como em “Malandro JB” (Renato Barbosa – Nei Lopes), quando não está cantando, é no blog Samba de Rede, do jornal O Dia, que dá expediente. “Minha coluna é a única que compra briga com sambistas. Tem que mudar essa mentalidade de rivalidade no samba. Eu brigo para mudar”.
A luta é para que eles sejam mais valorizados como artistas, despidos de estereótipos. “Existem sambistas que têm uma obra maravilhosa e não podem ser considerados artistas. Parece que fica feio para eles. A impressão é que, para ser bamba, deve-se viver à margem, na pobreza, ferrado na vida”. Chama o garçom e o pergunta se este ouviu falar de Luiz Carlos da Vila. O rapaz franze os olhos e sacode a cabeça numa negativa. Daniel então conclui: “Veja, o Luiz é um cara genial, um talento gigantesco, mas infelizmente não é popular; as pessoas não o conhecem. Isso tem que mudar”.
Para ilustrar o seu raciocínio, lança mão de uma provocação: “Popular é Claudia Leite, Ivete Sangalo… Por que elas não cantam samba? Eu queria ver a Claudinha Leite, uma gata daquelas, cantando samba. Imagina como seria do cacete! Mas não há essa abertura. Por que será?”, indaga.
Sua formação musical é curiosa. Cresceu dentro da igreja Pentecostal, lia a bíblia diariamente. Foi durante os cultos que descobriu-se músico. Aos 17 anos gravou o disco evangélico “Mais que vencedor”, independente, pôs a viola nas costas e rodou o Brasil fazendo shows em igrejas. Assinava Daniel Levi, em referência à tribo sagrada dos Levitas, famosa por seus cantores. Vendia discos de mão em mão. Bateu 10 mil cópias.
Aos 18 resolveu conhecer a vida fora da igreja. E foi a partir de um show da Teresa Cristina, na Lapa, que resolveu mergulhar de cabeça no samba. Passou a freqüentar rodas com a mesma paixão com que lia salmos, ainda que no princípio fosse sozinho: “Meus amigos eram todos protestantes”. O dinheiro, antes reservado ao dízimo, agora era gasto com a boemia. Não demorou para comprar o primeiro disco de samba, “uma coletânea qualquer do Paulinho da Viola, um gênio”. Daí para frente, em regime intensivo, dedicou-se a estudar o gênero. Após a clausura, começou a fazer seu barulhinho nas rodas cariocas, timidamente.
Daniel costuma dizer que fez o caminho inverso dos crentes tradicionais, trocando o templo pela vida boêmia: “No meu caso, fiz uma ‘sujagem’ cerebral”, brinca. Quem primeiro o apresentou à malandragem da Lapa foi o jornalista Eduardo Aveiro. Em pouco tempo já estava atrás dos blocos carnavalescos, sobre os quais escrevia no “Blogdebloco”, do Globo Online. Hoje, apesar de afastado dos cultos, Daniel enxerga semelhanças entre o samba e a igreja como na reverência aos mais velhos, nas pessoas alegres cantando, na cumplicidade: “Os códigos são os mesmos”, conclui. Entretanto, no que diz respeito ao mercado, faz a ressalva carregada de crítica: “O evangélico é mais aberto. Em qualquer lugar que você chega consegue cantar. Cansei de ver gente na Lapa dizendo que não sabe cantar Candeia, sabendo.”
Como compositor, tem se tornado especialista em concursos de marchinhas. Além do bicampeonato no “Imprensa que eu Gamo”, venceu a disputa do “Barbas” e até o fechamento desta matéria brigava pela vitória no “Voltar para quê?”. Fora dos blocos, Daniel circula ainda com desenvoltura pelas rodas de samba do Rio e prepara o seu disco de estréia “só com samba de vagabundo, de malandragem”. Sobre o CD adianta que, apesar de não descartar refrões chicletes, será diferente dos que tem sido feitos por aí: “Quero mandar recado para a sociedade. Sou um cara polêmico, mas sou muito bem humorado. Eu tomo floral”. Dá um sorriso largo, um último gole no chope e ruma para a Lapa.
55 comments janeiro, 2008
Pela poesia dos nomes de favela
Por Bruno Villas Bôas
Nomes de favela, na minha humilde opinião, é a melhor faixa do cd Lamento do Samba, de Paulo César Pinheiro. É a música que me agarrou de primeira. Moyseis Marques também gostou. Regravou o samba em seu primeiro cd, lançado pela Deckdisc em setembro do ano passado. Nesse videoclip, muito bem produzido, ele apresenta sua versão. Saiba mais do cantor, uma das revelações da turma surgida na revitalização da Lapa, na matéria de Thiago Dias, no post abaixo.
4 comments janeiro, 2008
Mais um da Vila

Por Thiago Dias
Ele não é da Vila Isabel, como Martinho. Mas é da Vila da Penha, como o padrinho Luiz Carlos. Moyseis Marques, criado no subúrbio da Leopoldina, lançou recentemente seu primeiro CD de samba, após flertar com forró e até o funk. “Tive uma adolescência como a de qualquer garoto da Zona Norte. Fui a muito baile funk, pagodes. Se eu falar que cresci ouvindo Chico Buarque e Paulinho da Viola estarei mentindo”, diz ao SAMBA.
Não, não trata-se de um MC que virou partideiro. Do funk, ficou apenas a lembrança dos bailes da juventude. O namoro com a música começou com forró, quando fez parte dos grupos Forró na Contramão e Xaxados e Perdidos. Em seguida, pulou para o samba, ajudando a fundar o Casuarina e o Tempero do samba.
Hoje, o cantor e compositor tem 29 anos. Ele conta que começou a se interessar por música aos 17, quando deixou a Vila da Pena para morar na Zona Sul. Em seu disco, gravou “14 anos”, de Paulinho. “É uma letra com a qual me identifico. Meus pais não queriam um filho metido com música. Queriam que eu tivesse emprego fixo, trabalhasse em banco, ser militar. E eu sou o oposto de tudo isso”, conta. Está lá também a bela “Nomes de Favela”, do mestre Paulo César Pinheiro.
Com a ajuda de Luiz Carlos da Vila, foi conhecendo os bambas e passou a tocar com alguns deles pela Lapa. Ao mesmo tempo, passou a estudar a história da música e a conhecer aqueles que a fizeram. “Você acaba tendo as referências ao seu lado, como dona Ivone, Wilson Moreira, Délcio Carvalho… Não é como um cara que está no Japão e só reproduz aquilo que ouviu um dia”, analisa.
Em seu CD, que demorou quase dois anos para ficar pronto e contou com o auxílio luxuoso de Paulão Sete Cordas, Moyseis mistura formas de samba, dá um toque de forró, regrava clássicos e arrisca com composições próprias. É mais um a tentar colocar a cabeça para fora no mar de novos talentos. Origem de respeito ele já tem.
2 comments janeiro, 2008
Baba, malandro
Por Emiliano Mello
Em outubro Walter Alfaiate nos recebeu em seu ateliê, em Copacabana, onde batemos um longo papo. A conversa agradável rendeu uma bela matéria, publicada no blog e na primeira edição do nosso jornal.
Na ocasião, seu Walter nos disse que havia ficado encantado com a beleza da rapper Negra Li, com quem gravou “Jura” (Sinhô) para o CD/DVD “Cidade do Samba” (Zecapagodiscos/EMI). Era a primeira vez que ele a encontrava. A morena estava num vestido de cetim curtíssimo. Walter, elegante como sempre, trajava gala.
“No Cidade do Samba, eu gravei com a Negra Li. É mole?! Baba, malandro! Cantei Jura, e quando cantei os versos, falei a sério mesmo”, diria o sambista.
Seqüência do projeto “Casa de Samba”, que fez grande sucesso nos anos 1990, “Cidade do Samba” é primeiro trabalho do selo Zecapagodiscos, de Zeca Pagodinho. Lançado em novembro, o disco bateu 100 mil cópias vendidas em apenas dez dias. Ouro.
Produzido por Max Pierre, o projeto traz duplas inusitadas como Dudu Nobre e Chorão; Gilberto Gil e Marjorie Estiano; Velha Guarda da Portela e Vanessa da Mata; Roberto Silva e Roberta Sá; Leci Brandão e Casuarina, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila, entre outros.
No entanto, Walter Alfaiate e Negra li estão apenas no DVD, já que infelizmente não havia espaço no CD devido à baixa capacidade de armazenamento da mídia. Além do casal, ficaram de fora do CD ainda as seguintes duplas: Nelson Sargento e Teresa Cristina; Dona Ivone Lara e Nilze Carvalho; Arlindo Cruz e Sandra Sá; Dorina e Almir Guineto.
Confira acima a apresentação que mexeu com a cabeça de seu Walter.
5 comments janeiro, 2008
