Archive for dezembro, 2007

Do Sal a Oswaldo Cruz

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Por Thales Ramos

O Dia Nacional do Samba fica mais popular a cada ano. Os trens partem mais cheios e o bairro de Oswaldo Cruz fica cada vez mais lotado. Há quem reclame que muita gente que não gosta de samba embarca nos vagões por causa do estardalhaço do evento ou por causa da pegação. Faz sentido isso? Sim. Mas também faz sentido que muita gente que “marcava toca” anda abrindo a guarda pra cuíca e pro agogô.

Quando se pisa pela primeira vez dentro daquele trem, não há quem não reconheça ou se deslumbre pelo poder que do samba. E, fora comemorar a data sagrada dos bambas, é também um dia para celebrar a amizade e contemplar as belas mulheres, por que não?

Todo dia 2 de dezembro minha rota é a mesma. Primeiro a Pedra do Sal, depois Central do Brasil, local de assistir a algumas apresentações da nata do samba e, por fim, parto para Oswaldo Cruz, onde aporto na Roda do Buraco do Galo e como o melhor mocotó do mundo.

Neste ano, a Pedra estava melhor que nos anos anteriores. Local que no passado foi mercado de escravos e era “ponto de encontro de sambistas que trabalhavam como estivadores” – como diz a placa que tem lá. A energia é tremenda. Basta lembrar que João da Baiana e Pixinguinha se reuniam naquelas bandas.

Quem marca ponto atualmente na Pedra são figuras como Camunguelo, Edinho Oliveira e a encantadora Márcia Moura. Camunga é flautista genial e toda vez que pega o microfone saúda o pessoal da estiva. “Parece uma entidade”, bem disse um amigo meu.

Edinho, militante antigo do movimento negro e do samba, é quem comanda a roda, cantando, ciceroniano e explicando coisas da antiga. Márcia, sempre de branco e com sorriso aberto, castiga com seu partido-alto, contagiando quem é atingido por ele.

Ao embarcar na Central, o samba é servido nos vagões no estilo self-service. Escolha o que lhe apetece, amigo. É muito batuque, ziriguidum, telecoteco. É palma da mão, é na garrafa d’água, na lata de cerveja. Ninguém fica parado. É aquele momento de gol no Maracanã, todo mundo é amigo. A pessoa do lado merece seu abraço, seu sorriso.

Se visto do alto a Mangueira mais parece o céu no chão, visto de cima Oswaldo Cruz é um verdadeiro chão de estrelas. Muitas rodas de samba. Muita comida. Difícil crer que as pessoas que estão chegando ali visitem o bairro em outras datas. O 2 de dezembro é desculpa para ir ao bairro de Paulo de Portela. Se você conhece a história de Seu Paulo, da Portela, Candeia e outros, a sensação de estar lá é melhor ainda.

Ultimamente – principalmente depois deste blog – tenho travado muitas discussões sobre o que é samba. Se existe samba de raiz, se fulano pode cantar samba de sicrano, se vale a pena ou não fazer um disco com músicas que já foram gravadas mais de cem vezes. A conclusão que eu tiro disso tudo é que o que torna o samba tão singular, genial e belo é a sua simplicidade e seu poder de agregação. Como o das pessoas de Oswaldo Cruz.

dezembro, 2007 at 1:46 am 5 comentários

Maria Rita na ponta da língua

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Por Emiliano Mello e Thales Ramos
Foto de Thales Ramos

A Lapa foi o lugar que Maria Rita escolheu para dar início à turnê mundial do disco “Samba Meu”, o terceiro de sua carreira. A Fundição Progresso, com todos os seus problemas de acústica, foi testemunha do enorme sucesso que a cantora tem construído ao longo dos anos. A noite era de gala, e o público cantou em uníssono todas as músicas, num coro que ia desde os sucessos mais antigos às novas canções apresentadas naquela noite.

Se como disse Jackson Pandeiro “no Rio de Janeiro todo mundo vai de samba / a pedida é sempre samba”, não haveria lugar mais adequado do que a cidade maravilhosa para a estréia. E Maria Rita, diga-se de passagem, sentiu no começo o encontro com a platéia da cidade que é a maior referência do gênero.

Um pouco tensa, a cantora entrou no palco toda de rosa, com uma saia esvoaçante abaixo da linha da cintura, exibindo sem dó a barriguinha e um naco generoso da coxa direita. Já há algum tempo a rapaziada tem comentado a boa forma da cantora e, in loco, marmanjos (e mocinhas) faziam comentários libidinosos ao seu “corpitcho”. Sua barriga, em close, não saía do telão.

Maria Rita abriu o show cantando as músicas do novo trabalho. Quando notou que o público levava no gogó, parou e agradeceu: “Gente, vocês estão gostando? Está muito lindo isso aqui. Obrigado por vocês terem vindo”, frase que viria a repetir umas quatro vezes durante a apresentação. Logo a gigantesca platéia carioca a pôs no colo. Mas, por incrível que pareça, era a cantora quem embalava a galera. Difícil evitar o clichê, Maria Rita cantou e encantou os presentes.

Se nesse primeiro disco de samba – excelente por sinal – muitos chiaram por ainda não ter aquele suingue de roda, no show funcionou muito bem. A escolha do repertório e dos compositores foi acertada. As parcerias de Arlindo Cruz (das tão faladas seis músicas) com compositores da “vagabundagem” – como Picolé, Fred Camacho, Jr Dom, Serginho Meriti e o compadre Franco – cresceram muito ao vivo, dando às canções a pegada que faltava.

“Salve Arlindo Cruz”, agradeceu de coração após cantar “Tá perdoado” (Arlindo Cruz e Franco). Maria Rita corre de braços abertos em direção à platéia. Começa então a cantar “Caminho das águas” (Rodrigo Maranhão), tema de abertura da minissérie “Amazônia”. Nesse momento ela não se agüenta e deixa as lágrimas escorrerem. Em seguida, deixa o palco e volta em um vestido verde prateado, de caneta de fora. O público, que já estava seduzido, desabou-se diante da musa.

Zarpando do Rio, começa a turnê pelas cidades do Brasil, Estados Unidos e Europa. Agora bem mais tranqüila, certamente. Depois do afago da última sexta-feira, Maria Rita pode ter certeza: seu samba já pode ser o nosso também.

dezembro, 2007 at 10:07 pm 5 comentários

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