Samba subversivo
novembro, 2007 at 4:01 pm 4 comentários

Por Thiago Dias
Está na versão online do dicionário Houaiss: “que ou aquele que expressa idéias, pensamentos, opiniões opostos ou profundamente diferentes dos da maioria, que, por isso, freq. se sente ameaçada; que ou aquele que prega ou executa atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida; revolucionário”. Definição de subversivo. Palavra feia, mas que mostra características de Aluísio Machado.Coroa malandro e boa praça, esse compositor da Velha Guarda do Império Serrano já foi tachado assim. Aconteceu nos anos 60, quando compôs “A humanidade”, música daquelas com letra que faz pensar e refletir por alguns minutos. Revolucionária. “Ela foi censurada, fui considerado subversivo… É mole? Só consegui gravá-la agora, no CD que lançamos pela Biscoito Fino”, diz o sambista ao blog, lembrando do disco “Império Serrano, um show de Velha Guarda”, de 2006.
No último sábado, Aluísio participou do show do Casuarina no clube Santa Luzia, no Rio, e roubou a cena. Além de sucessos como “Bumbumpaticumbumprugurumdum” (campeão em 1982 com o Império) e “Pisa como eu pisei”, o compositor fez questão de mostrar o samba subversivo. Diz assim:
A humanidade entrou em choque
Ninguém se entende mais
Os homens na face da Terra
Não querem paz, só pensam em guerra
Querem alcançar o infinito
Querem conseguir o que não está escrito
O mal suplantou a bondade
A mentira superou a verdade
Quem tem muito quer ter mais
Quem não tem resta sonhar
Quem não estudou é escravo
De quem pôde estudar
Os direitos humanos são iguais
Mas existem as classes sociais
Eu não sou de guerra, sou de paz
Quero trabalhar para poder ter
É dando que a gente pode dar
Eu quero ser livre e liberar
Eu quero estudar e aprender
Eu só quero aprender para ensinar
Aluísio subiu ao palco para cantar “Minha Filosofia”, samba gravado pelo Casuarina no disco de estréia. Não largou o microfone e avisou: “Quem mandou me chamar?”. Deu sua canja e tirou onda. “Se eu cantar mais uma, vou querer dividir o cachê”, brincou. A galera do grupo ria, mas também sabia ser séria. “Vamos aplaudir o Aluísio, esse cara é um dos maiores compositores do Brasil”, disse um dos integrantes.
O carinho da garotada deixou o coroa emocionado. “Eles me conhecem mais do que eu conheço eles. O Casuarina me gravou sem eu saber, nem conhecia o grupo”, conta. A proximidade com os mais jovens mostra que Aluísio tem afinidade com o mundo moderno. Tem e-mail e até MSN. “Não sei usar direito, mas sempre tem alguém para me dar uma ajuda”, diz, e logo depois dita o endereço virtual, com direito a “underline” e tudo.
Orgulhoso por já ter sido o braço direito do Beto Sem-Braço, seu parceiro em alguns dos 12 sambas-enredos que venceu no Império Serrano, Aluísio é daqueles bambas que não temem o futuro. Mas vai devagarzinho, pois sabe que água demais mata a planta. Mas a censura não mata a poesia.
Ouça um trecho da canção “Humanidade” no nosso player ao lado.
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1.
Marcelinho | novembro, 2007 às 4:21 pm
A letra é linda, pena q só tenha 30 segundos da música para ouvi-la. Vou tentar comprar esse cd.
2.
Marco | novembro, 2007 às 10:36 pm
Pensaria sim. Aluízio Machado é grandioso. Aliás, muitos outros sambistas foram censurados. Noca, Zé Keti, Silas de Oliveira e Hermínio Bello. Paulinho da Viola então nem se fala… Além do peso que todos eles têm para a música, são fundamentais para se entender um período sombrio de nossa história.
Parabéns pelo site. O trabalho de vocês é de primeira.
3. O Império e seus poetinhas. Aluísio Machado campeão « O samba é meu dom | outubro, 2010 às 3:20 pm
[...] e logo no ano de homenagem ao poetinha, um dos integrantes da parceria vencedora do samba-enredo é Aluísio Machado, mebro da velha guarda da escola e um dos seus filhos mais ilustres. Os outros parceiros vencedores [...]
4.
Sophia | outubro, 2011 às 8:22 pm
Hoje, 20/10 é o Dia do Poeta. Parabenizo o grande mestre Aluísio Machado, um dos maiores poetas que a Serrinha conheceu. Obrigada Aluísio pelo poder de sua criação. Saiba que seu legado jamais será esquecido.