O dia em que Cartola desafiou Leci Brandão
outubro, 2007 at 12:50 am 3 comentários

Por Thales Ramos
Foto de Bruno Villas Bôas
Nas antigas rodas dos partideiros de Mangueira, quando um sambista citava o nome de outro, o desafiado precisava responder versando. Certa vez, Cartola citou o nome de Leci Brandão na roda. Na época, a cantora era aspirante à ala de compositores da verde e rosa e queria ser aceita. Era a chance de mostrar serviço.
“Consegui responder na roda e passei a ser notada. Naquele tempo, para fazer parte da ala de compositores, era preciso passar por uma espécie de estágio”, lembra Leci Brandão. O resto todo mundo sabe: ela foi aceita pela nata de Mangueira e se tornou a primeira mulher a entrar para a seleta ala de compositores.
Vestida com as cores da escola, Leci Brandão foi a última convidada do programa “Palco MPB”, promovido pela MPB FM, a subir ao palco do Teatro Rival, no Rio. O show era justamente uma homenagem ao mestre Cartola, que completaria 100 anos em 2008. Ela cantou “Acontece” (Cartola) e “Corra e olha o céu” (Cartola e Dalmo Castello), além de contar sua história em Mangueira.
Bem-humorado, Elton Medeiros foi o primeiro a subir ao palco. Fez piada e cantou duas parcerias com Cartola, “Peito Vazio” e “O sol nascerá”. Ela explicou que a segunda música foi composta após os dois serem desafiados por um amigo a compor um samba na hora. “Em quarenta minutos o samba estava pronto”, afirmou Elton. Indagado sobre como definiria o parceiro, ele foi enfático: “Cartola foi meu mestre”.
O grupo “Anjos da Lua” foi, no entanto, o encarregado de tocar os maiores sucessos do mestre. O primeiro foi “Alvorada” (Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho), que segundo a cavaquinista Mariana Bernardes é música mais pedida nos shows. Os outros “anjos” foram Sandrinho (percussão), Pedro Holanda (violão), Jade (pandeiro), Marcelo Bernardes (flauta) e Galotti (cavaquinho).
Seguiram-se outros convidados. Antes de uma deslumbrante Nilze Carvalho cantar emocionada “As rosas não falam” e “Tive sim”, Nilcimar Nogueira, neta de Cartola, confirmou algumas homenagens que serão feitas ao avô no centenário dele ano que vem, como a da escola Unidos do Tuiuti, Unidos de Jacarepaguá e Viradouro.
Nilcimar também lembrou a história da música “As rosas não falam”: “Meu avô cultivava rosas no quintal e tinha uma muda muito bonita, que crescia rápido. Minha avó perguntou por que elas cresciam tanto e ficavam tão bonitas. Ele respondeu: ‘sei lá, as rosas não falam’”, explicou ela, arrancando risos da platéia que lotou o Teatro Rival.
O mineiro Vander Lee proporcionou à platéia um dos momentos mais emocionantes. Ele é o mais novo parceiro de Cartola. A iniciativa da parceria póstuma ocorreu depois da leitura do livro “Cartola: os Tempos Idos”. “Eu abri o livro e dei de cara com o poema Obscuridade”, lembrou. Sendo assim, Vander musicou (e bem) os versos.
Parceiro de Cartola em dez músicas, entre elas “Corra e olha o céu”, Dalmo Castelo lembrou contou da sua convivência com o cantor no morro da Mangueira e cantarolou algumas canções. Depois o jovem Mauricio Pessoa deu sua contribuição cantando “Minha”. Ele disse que conheceu a obra do mestre aos 17 anos, quando ele escutou Cazuza cantando “O mundo é um moinho”.
Nelson Sargento subiu ao lado de Agenor de Oliveira, que por pouco não é xará de Cartola (ele era Angenor). Nelson disse, entre outras coisas, que só chamava Cartola de senhor, assim como fazia com Geraldo Pereira e Babaú da Mangueira. Cantou “Homenagem ao mestre Cartola”, linda canção só com títulos de “Cartolianas”.
O show confirmou a genialidade de um dos maiores poetas da história da música popular brasileira, nascido Angenor de Oliveira. Para encerrar, nós do blog O Samba, que estamos prestando homenagem a Cartola neste mês de outubro, fazemos nossas as palavras de Nelson Sargento: “Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve”.
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1.
André | outubro, 2007 às 5:18 pm
Muito legal!
2.
João Manito | dezembro, 2007 às 9:13 pm
Conheci Cartola num show no Teatro da Paz em Belém,juntamente com Bete Carvalho, creio que na década de 80, no projeto Seis e Meia, quando ele já estava no ocaso de sua vida, mas no auge de sua carreira. Um show q me emocionou, pois eu até então, não tinha conhecimento desse “monstro” da música popular. Nem imaginava que ele existisse.Foi um choque que até hoje não consegui superar.Um poeta popular,que fez versos tão sublimes não pode existir. E o maia importante: musicou esses versos. Será que ele existiu mesmo?
3.
Anônimo | novembro, 2011 às 3:06 pm
i love you cartola