O Alfaiate, na linha do samba

outubro, 2007 at 7:05 am 20 comentários

alfaiate011.jpg

Por Emiliano Mello, Thales Ramos e Thiago Dias
Foto de Bruno Villas Bôas

“Pode deixar a porta aberta, aqui todo mundo me respeita”. A voz veio lá de dentro, enquanto o bamba deitava os jornais do dia na grande mesa de madeira coberta de tecidos finos. O relógio marcava 10h30 da manhã quando entramos no atelier de Walter Alfaiate, no oitavo andar de um prédio em Copacabana, sobre um centro comercial popular. “Isso é um verdadeiro zoológico, vocês precisam ver as figuras que moram aqui”, diria o compositor em seguida, referindo-se à “fauna” de tipos cariocas que circula diariamente pelo edifício.

Os melhores, no entanto, estavam colados à parede do pequeno conjugado. A história do samba contada em fotografias. Entre os registros, mestres como Paulinho da Viola, Nei Lopes, Paulo César Pinheiro e toda uma constelação de notáveis sambistas. Havia também um Clóvis Bornay orgulhosíssimo ao lado de Alfaiate.

“Rapaz, como o pessoal caçoa dessa foto! Mas não tem problema”, cai na gargalhada e, rápido, aponta para outra foto em que aparece abraçado a uma Luciana Gimenez exuberante em peitos, lábios escarlates rematando os 34 dentes de porcelana. Ele não é bobo.

Walter Alfaiate faz uma leitura rápida do jornal – havia saído duas matérias sobre ele naquele dia. Escaldado, certifica-se de que não há erros como de outra feita, quando um jornalista foca pôs-lhe palavras absurdas na boca. Tudo certo. Matéria aprovada, mas faz a pequena confidência ao blog O Samba:

“Esse lance de estar aparecendo na televisão, no jornal, está me prejudicando um pouco. Veja bem, não estou reclamando. Eu gosto, mas o pessoal começa a ligar achando que você está com dinheiro no bolso. As pensionistas pedem uma grana; se eu dou cem, elas querem trezentos. Aí fica complicado.”

Entre ternos e calças – que faz para clientes ilustres como Paulinho da Viola, Monarco, Nelson Sargento e o deputado Chico Alencar – o compositor tem se dedicado ao projeto do novo disco, o terceiro de sua carreira, ainda sem nome e linha de repertório definidos. No entanto, é com calma de monge que ele tem encarado o novo trabalho, que aos poucos vai tomando forma através da parceria com o grande Wilson Moreira, com quem divide as composições.

Alfaiate não crê em inspiração divina. Apesar de católico praticante (ele mantém em seu atelier um altar com diversos santinhos de papel colados à parede), acredita que a inspiração advém de um bom momento vivido: “Tenho que estar de bem comigo mesmo, com a namorada, com dinheiro, do contrário não sai porra nenhuma”, confessa, pedindo desculpas em seguida pelo palavrão.

Pois a idéia é lançar o novo disco somente no meio do ano que vem. Enquanto isso, segue trabalhando seu último álbum, “Tributo a Mauro Duarte”, lançado em 2005. O compositor não quer cometer os erros do passado, quando, talvez desacreditando do próprio talento, não batalhou a carreira com muito afinco.

“Fui crooner, na década de 60, de boate em Copacabana (bolero) e lá havia uma cantora, Alzirinha Brandão, que queria me levar pra radio, mas eu tremi no alicerce, a verdade é essa”. Fato que passou a mudar em 1998, quando finalmente gravou seu primeiro cd.

O respeito inconteste dos bambas do mundo do samba o ajudou a superar as inseguranças do passado. Seu primeiro disco, “Olha aí”, foi lançado direto em cd quando ele já contava 68 anos, o que o torna, de certa maneira, um filho da era digital.

Hoje, aos 77 anos, Walter Alfaiate encara com admiração as novas tecnologias disponíveis para a música sem qualquer preconceito. Recentemente dividiu o palco com laptops e outros equipamentos eletrônicos no projeto Multiplicidade, do qual saiu entusiasmado.

“Foi ótimo, gostei pra caramba! Não tenho preconceito. A música é um idioma, só fiz questão de ensaiar, não sou como o Romário. Se alguém falou mal, foi por trás. E se vier falar comigo, digo que sou dono do meu nariz. Se eu fosse mais jovem entrava de cabeça nesse troço”, confessou o sambista ao blog.

Sobre o funk, a mesma admiração, mas deste somente o balanço e a energia lhe interessam: “Não sou contra o funk, só contra as letras que fazem apologia às drogas, à violência. Se eu não estivesse velho, caía dentro. Mas se eu descer, pra subir de novo fica difícil, né?!”, concluiu rápido, arrancando risos da equipe do blog.

Ao final do bate-papo de quase três horas, pouco antes de posar para a foto que ilustra a matéria, fez a derradeira confidência:

“Adivinha com quem eu gravei no projeto Cidade do Samba, do Zeca Pagodinho? Negra Li, é mole?! Então baba, malandro! Cantei Jura, de Sinhô. Cantei para ela ‘jura, jura / de coração / para que um dia / eu possa dar-te o amor / sem mais pensar na ilusão’. Quando cantei os versos, falei a sério mesmo.” Não é à toa que o mestre é conhecido como o magnata supremo da elegância.

Walter Alfaiate não dá ponto sem nó. Salve!

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20 Comentários Add your own

  • 1. Juninho  |  outubro, 2007 às 3:40 pm

    Salve!

    Responder
  • 2. Anônimo  |  outubro, 2007 às 4:12 pm

    muito boa materia!!!!
    parabéns ao pessoal do blog.
    Walter Alfaiate sempre de bom humor …
    faaloo
    abração

    Responder
  • 3. Marles Santos  |  outubro, 2007 às 11:24 am

    Ele é lindo demais !
    Figura nota 10, símbolo universal do samba carioca e brasileiro.

    Responder
  • 4. priscila  |  outubro, 2007 às 4:09 pm

    Que matéria sensacional! Tá uma delícia de ler! parabéns ao blog e obrigado por existir Walter Alfaiate! :-)

    Responder
  • 5. Vagalú*  |  outubro, 2007 às 1:42 pm

    sempre bom…
    Parabéns!

    Responder
  • 6. rod  |  outubro, 2007 às 5:34 pm

    beleza de matéria!!!

    Responder
  • 7. mario  |  outubro, 2007 às 8:04 pm

    “uma delícia de ler…”
    á garoooto!

    Responder
  • 8. Thiago Dias  |  outubro, 2007 às 1:53 pm

    Amigos, mais uma matéria que nasceu na entrevista com o Walter Alfaiate para o blog:

    http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Botafogo/0,,MUL144925-4399,00.html

    Sobre o amor dele pelo Botafogo, no GLOBOESPORTE.COM.

    Abraços

    Responder
  • 9. Ramon  |  outubro, 2007 às 5:28 pm

    ficou elegante como o próprio walter alfaiate. parabéns galera! sempre nos brindando com belas matérias!!!

    Responder
  • 10. Jimi  |  outubro, 2007 às 9:27 pm

    Bola dentro!!!!!!!

    Responder
  • 11. Venâncio  |  outubro, 2007 às 11:01 pm

    Muito bom trabalho..

    Afinadissimo a materia..

    Responder
  • 12. Carla  |  outubro, 2007 às 9:31 pm

    :~ o walter é uma gracinha! adorei!!!

    Responder
  • 13. Sall  |  outubro, 2007 às 3:07 am

    Excelente matéria, rapaziada!
    A equipe toda está de parabéns!
    Um grande abraço,
    Sall
    .

    Responder
  • 14. corporation  |  outubro, 2007 às 1:24 am

    muito bom o texto e a vibe da matéria.

    Responder
  • 15. adailton  |  outubro, 2007 às 2:17 am

    oi galera, sempre estou por aqui acompanhando o trabalho de vcs, dessa vez resolvi comentar… parabéns pela matéria! admiro demais o trabalho, a coragem, a personalidade e a decência do mestre walter alfaiate. tá muito massa mesmo a matéria e a foto. parabéns pra toda equipe do blog…
    abração

    Responder
  • 16. paula  |  outubro, 2007 às 3:34 pm

    Vim pelo yahoo atrás do Walter Alfaiate e caí aqui nessa matéria. Não poderia ter dado sorte maior, além de ler essa matéria divertida, descobri um site de samba maravilhoso! :)

    Responder
  • 17. Coquinho  |  outubro, 2007 às 11:04 pm

    Matéria nos padrões de elegância suprema da escrita.

    Responder
  • [...] PDRTJS_settings_318004_post_1104 = { "id" : "318004", "unique_id" : "wp-post-1104", "title" : "Walter+Alfaiate+precisa+de+doadores+de+sangue", "item_id" : "_post_1104", "permalink" : "http%3A%2F%2Fosamba.net%2F2010%2F01%2F07%2Fwalter-alfaiate-precisa-de-doadores-de-sangue%2F" } Nosso querido Walter Alfaite – a quem devemos muito aqui no blog e no jornal O Samba – ainda está internado em estado grave na Unidade Coronariana do Hospital da Lagoa, na Zona Sul do Rio. Ele precisa de doadores de sangue. Quem puder doar sangue deve comparecer ao Hemorio, na Rua Frei Caneca, no Centro. Basta citar o nome do hospital e do paciente, Walter Nunes de Abreu. Todo tipo de sangue pode ser doado para repor o banco. Para quem não sabe, ele sofre de enfisema pulmonar, ineficiência cardíaca, arritmia, insuficiência renal, gastrite e esofagite. Walter Alfaiate deu entrevista ao blog em outubro de 2007, quando ainda estávamos começando. Confira a entrevista O Alfaiate, na linha do samba. [...]

    Responder
  • [...] O Alfaiate na linha do samba. Entrevista publicada aqui e no jornal. Baba Malandro. Texto de Emiliano Mello O Samba é o dom deles. Junto com outros sambistas, clicado por Bruno Villas Bôas [...]

    Responder
  • 20. Anônimo  |  setembro, 2011 às 5:41 pm

    oi! voce sabe se o atelier dele ainda está funcionando??? e o endereco?? gostaria de visitar!
    obrigada

    Responder

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