Ao mestre, com carinho
setembro, 2007 at 2:34 pm Deixe um comentário

Por Thiago Dias
Pelo menos para alguma coisa o Katinguelê serviu na minha vida… Graças ao Salgadinho, aquele dos óculos na cabeça, eu ouvi pela primeira vez uma referência ao Mestre Marçal como intérprete. Só o conhecia por ter comandado a bateria da Portela e comentado desfiles de escolas de samba na televisão.
Em um disco ao vivo gravado por Reinaldo, o “Príncipe do Samba”, Salgadinho é convidado para cantar “Facho de Esperança”. No meio da música, ele falava: “É uma honra poder homenagear Mestre Marçal”. Abria-se um mundo novo para mim.
Consegui uma gravação do programa “Ensaio” com Mestre Marçal. A primeira porrada eu imagino na direção do Salgadinho e sua turma dos passos coreografados: “A inspiração dessa gente está acabando. De vez em quando, eu vou lá no baú porque a rapaziada que está aí… Inventaram o pagode, acabaram com o pagode. O pagode teve madrinha, teve padrinho, teve rei, teve não sei o quê. Hoje em dia não tem mais nada, estamos à disposição da lambada”.
Ritmista respeitado, Mestre Marçal era o preferido de Chico Buarque. Viajou o mundo na banda do queridinho do Brasil. Também era chamado por outros bambas para gravar em estúdio, como Clara Nunes, Martinho da Vila e Paulinho da Viola. Quando conseguiu realizar o sonho de ter seu próprio disco, cantando, juntou alguns dos maiores sambistas do país para fazer o coro.
“Meu primeiro disco foi em 1975. Até hoje se fala desse disco, porque o coro tinha Chico Buarque, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Djavan, finada Clara Nunes, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Miúcha, Cristina Buarque, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Conjunto Nosso Samba, João Nogueira. Era o coro milionário”.
E como ele pagou tudo isso? Não pagou, é claro. “Não teve cachê. Eles foram me presentear. Essa gente toda passou pela minha mão em estúdio, toquei com todos. Cuíca, tamborim, fazendo coro. Resolveram me homenagear, não há dinheiro que pague um coro desse”, disse ao programa “Ensaio”, da TV Cultura.
Mestre Marçal é bamba de berço: seu pai é o compositor Armando Vieira Marçal, um dos fundadores da “Deixa Falar”, primeira escola de samba da história. Em seus discos, o filho sempre gravou músicas do pai, principalmente as em parceria com Bide. É de emocionar a maneira que Mestre Marçal fala de Marçal, o pai. Sempre com respeito, saudade. Algumas passagens chegam a arrancar gargalhadas:
“Andei tomando uns cascudos do coroa, que foram bem dados. Não apanhei muito não. Uma vez ele me deu o dinheiro para pagar a mensalidade. Cheguei na Rua das Missões vinha descendo um bloco. Eu não tinha nada na mão, passei na casa de instrumento e comprei um pandeiro. Cheguei no bloco, me desengomei. Mas alguém me cagoetou. Em casa, ele me perguntou: ‘Foi à escola?’. ‘Fui’. ‘Pagou a escola?’. Digo ‘paguei’. ‘Cadê o recibo?’. ‘Perdi’. Aí o bicho pegou. Alguém já tinha cagoetado. Não tinha nada na rua, tô vendo a rapaziada ciscando no tapete, comprei um pandeiro e fui à luta também”.
A entrevista ao “Ensaio” é uma aula. Frasista nato, Mestre Marçal lembra desfiles desde a década de 30, fala de sua experiência em escolas até chegar à Portela, reclama do samba atual. As declarações são feitas entre as músicas, a maioria de seu pai. O jeito de falar é engraçado, estilo Cebolinha, trocando o “L” pelo “R”. “Bloco” vira “broco”, “triste” passa a ser “tliste”. Na voz dele, soa genial.
Marçal deu origem a Mestre Marçal, que deixou o herdeiro Marçalzinho. Uma linhagem de respeito. Obrigado, Salgadinho.
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