Archive for setembro, 2007
Com o aval do público e dos sambistas
Por Thales Ramos
Depois de o alto-falante anunciar que o show iria começar, surgiu no telão uma cena do documentário “Saravah”, no qual João da Baiana explica a Baden Powell e ao diretor Pierre Barouh as diferenças entre os cantos de candomblé e macumba. Quando o pano foi aberto, sete sambistas surgiram com muita ginga. E assim começou o show de lançamento do cd “Sorria para o samba”, o primeiro do grupo Batuque na Cozinha, no Teatro Rival BR.
André Corrêa (percussão), Paulo Roberto (pandeiro), Domingos Oliveira (cavaquinho), Dênnis Santanna (tantan), Dudu (flauta), Ary Júnior (banjo) e Álvaro Lúcio (violão) mostram já no primeiro disco que os anos de roda de samba na Lapa fortaleceram o grupo. Nesse primeiro trabalho, eles saem da mesmice das regravações de sambas antigos e apostam num repertório quase que todo inédito.
“A gente deu bastante preferência aos compositores que não estão na mídia, que estão no subúrbio, como Wantuir, um grande sambista, Marcelinho Moreira, Márcio Local”, afirma Domingos Oliveira, em entrevista ao blog O Samba. Fogem a essa regra apenas duas faixas do disco: “Batuque na cozinha” (João da Baiana), com participação de Dudu Nobre, e “Anjo Moreno” (Candeia), defendida no palco com muito coração por Ary Junior, um dos pontos altos do show.
Nas outras onze faixas que compõem o disco estão participações especiais de Beth Carvalho, Gabriel Moura, Rogê, Marcel Powell e Délcio Carvalho. No encarte do álbum, a benção de Martinho da Vila, que batizou o grupo com o sucesso de João da Baiana. “Estamos entrando nesse movimento de resistência do samba de raiz, que é difícil de fazer. Por isso, é importante ter essa gente mais tarimbada conosco”, disse André Corrêa.
Prova de que a escolha do repertório não estava equivocada foi a reação da platéia, que cantou quase todas as músicas do disco. Embora seja o primeiro do grupo, eles estão na batalha desde 94, sendo desde 98 com a atual formação. “Não fiquei tão surpreso com o pessoal cantando junto. A gente se aplicou bastante. Mas a sensação é realmente inesquecível. Estou perplexo”, disse extasiado Dênnis Santanna.
Se no álbum muita gente deu moral, no palco não foi diferente. O primeiro a subir foi Délcio Carvalho, que cantou com a letra na mão a belíssima “Melhor juízo”, parceria dele com Wanderley Monteiro. “Muito bom o show. Eu os adoro. Sou fã do André”, disse Délcio, depois de sair do palco. Dudu Nobre chegou rendendo homenagens e cantando seus conhecidos hits “Goiabada Cascão” e “Tempo de Dondon”.
Marcel Powell , filho de Baden Powell, também deu sua contribuição. Perfeito como sempre, dedilhou seu violão em “Oxóssi” (Marcio Local) e demonstrou sua admiração pelo trabalho do grupo. “Para mim, foi um prazer participar tanto do cd quanto do show de lançamento. É mais um grupo da nova geração que está levantando a bandeira do samba, que é maior produto da música popular brasileira”, disse.
Antes de executarem “Tempo do vovô”, os rapazes do Batuque avistaram Tia Nérinha, uma senhora de cabelos brancos e compositora da música. Ela levantou-se e dançou. Por duas vezes saudou e foi saudada com furor pela platéia que encheu o reformado Teatro Rival BR. O ijexá “Sorria com o samba” levantou o público. Junto com a coreografia das bailarinas, foi possível ver as cabrochas no salão “remando” com os braços.
A recepção que o trabalho do Batuque na Cozinha teve na noite da última terça-feira mostra que fazer o fácil nem sempre é a única solução. Apostando em uma nova geração de compositores, o Batuque faz o feijão com arroz, mas coloca um ovo frito em cima. Fazem vibrar gente da antiga, como Walter Alfaiate, que assistiu ao show acompanhado de Dorina e fez questão de frisar a importância da renovação no samba:
“Eu só fico feliz mesmo quando vejo essa rapaziada nova mandando ver no samba. Tem gente que ainda diz que o samba vai morrer. Morre nunca. Cresce cada vez mais”, afirmou Alfaiate. Aprovados por quem conhece. O grupo se apresenta tradicionalmente, às segundas-feiras, na Pedra do Sal, às 17h. O endereço é Rua Argemiro Bulcão, no Largo João da Baiana, na Gamboa.
5 comments setembro, 2007
Cacique de Ramos: ainda doce refúgio

Por Thales Ramos e Thiago Dias
Foto de Bruno Villas Bôas
Lá, onde as tamarineiras são da poesia guardiãs, o samba ainda existe. Continua perto de tudo, ali no subúrbio do Rio. A quadra da rua Uranus segue revelando talentos, mas se tornou difícil concorrer com o sambanejo e as regravações de bambas do passado. Aos Partideiros do Cacique de Ramos, resta manter as tradições daquele doce refúgio. Eles sabem que a fonte não secou.
“Todo feijão tem que ter um bom tempero. O importante é não deixar aquilo ali morrer”, diz Banana, um dos líderes dessa não tão nova geração de sambistas do Cacique de Ramos, bloco carnavalesco que revelou nomes como Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz e qualquer outro sambista que você lembrar que fez sucesso nos anos 80.
A madrinha da rapaziada da zona da Leopoldina continua sendo Beth Carvalho, que convidou os partideiros para abrir seu show no Circo Voador, na última semana, pelo programa Samba Social Clube da MPB FM. “É uma casa maravilhosa, com gente de todas as tribos. A idéia de fazer uma roda, fora do palco, foi ótima. A galera toda cantou com a gente. O povo está carente disso, né?”, indaga o partideiro.
Banana é uma figura responsa. Pode até intimidar pelo tamanho, mas lá de cima sai um papo maneiro. Do amor pelo batuque, criou a marca de camisas Coisa de Samba, com estampas como São Jorge, pandeiros e o símbolo do Cacique. Batizado Henrique Hatischvili, ele é de família de bambas e honra a tradição: neto de João da Baiana e filho de Neoci, fundador do Fundo de Quintal e um dos maiores partideiros da história.
“Eu tenho 38 anos, o Fundo tem 28. Vi muita gente passar pela minha casa. Meu pai levava todo mundo. Mussum, Zeca, Almir Guineto, Jorge Aragão, que era meu vizinho. A Beth vivia lá, adorava o feijão da minha mãe. O Sombrinha já morou na minha casa, quando meu pai o trouxe de São Vicente para tocar no grupo”, lembra. Com uma história dessas, coisa ruim não poderia sair de uma banda formada por ele.
Os Partideiros do Cacique contam com Banana, Carlinhos Tchatchatcha, Marcinho do Pandeiro, Márcio Vanderlei e Renatinho Partideiro. Eles dão conta do recado e puxam sambas dos seus ídolos da rua Uranus. Mas também arriscam inéditas. “Todo compositor é bem-vindo. Lá sempre foi assim. Havia a tradição de toda quarta-feira ter roda para apresentar sambas novos”, diz Banana.
Para quem quiser se arriscar a versar, o pagode rola das 17h às 22h no tradicional endereço do bloco. “Mudamos o dia para domingo. Mas tem que ser samba bom, não adianta pisar na grama sem chuteira”, afirma Banana, lembrando que para participar da roda também precisa ter gogó. “O Cacique de Ramos é o único pagode que rola há quase 30 anos sem o uso de microfone.”
Dos anos 80 para cá, muita coisa mudou no samba. A geração do Cacique deu origem ao pagode meio mauriçola, que dominou as rádios na década seguinte. Banjo, tantan e repique de mão viraram peças presentes em todos os grupos. Vale lembrar que a maioria dos líderes daquelas bandas cresceu ouvindo a galera do Cacique e muitos passaram a infância freqüentando a quadra.
Banana até defende esses grupos. “Eles abriram caminho para muita gente. Kiloucura, Molejo, Exaltasamba. Muitos acabaram, mas havia qualidade”, diz o partideiro. Não há como negar, contudo, que o mercado fonográfico ficou saturado do estilo deles. E a galera que havia começado o movimento nos anos 80 voltou a ser procurada. Zeca, com seu disco ao vivo de 1997, bateu recordes e tornou-se ídolo nacional.
Nessa linha, Arlindo Cruz é referência e cedeu cinco músicas para Maria Rita gravar, no álbum recém-lançado. Mas quem está começando agora, como é que fica? Está difícil encontrar compositores jovens sendo gravados pelos bambas. Dudu Nobre surgiu como novidade, mas depois dele poucos apareceram e se firmaram. Banana garante que a história está mudando:
“Caetano, Moisés, Renatinho Partideiro, Fred Camachoe e Márcio Vanderlei, da nova geração, estão sendo gravados. Muitos grupos que surgiram na trilha do Fundo acabaram, mas tem muita gente boa. O Xande de Pilares, do Revelação, vivia com a gente lá na quadra”, afirma Banana. “Tomara que apareça alguém para substituir a gente.”
Para uns, o Cacique é uma cachaça. Para outros, religião. Continua assim, com o samba em alta bandeira. Vai aparecer, para cantar com os passarinhos na manhã.
7 comments setembro, 2007
Beth Carvalho na ponta da língua

Por Thales Ramos
O episódio entre Beth Carvalho e integrantes da Estação Primeira de Mangueira no Carnaval 2007, quando a cantora foi barrada no desfile da escola, ainda não está resolvido, mas aos poucos vai sendo superado. Na última quinta-feira, dia 20, no Circo Voador, o público pediu insistentemente para Beth cantar um samba de Mangueira. “Eu já cantei”, respondeu ela, se referindo às músicas de compositores como Cartola e Nelson Cavaquinho.
O público não se deu por satisfeito e voltou a insistir: “Mangueira! Mangueira!” Uma bandeira da escola surgiu de forma quase mágica no palco. Beth disse, em tom de brincadeira: “Eu ainda estou meio assim com a Mangueira..”, fazendo sinal de mais ou menos com uma das mãos. Foi só iniciar o samba “Exaltação à Mangueira” (Enéas Brittes da Silva e Aloísio Augusto da Costa), no entanto, para Beth pegar a bandeira da escola e cantar animadamente.
O show de quinta-feira, o primeiro dela no Circo Voador, não é fácil de descrever. Não seria exagero dizer que as pessoas ficaram estupefatas diante de Beth, que completa 40 anos de carreira em 2007. Ela sambou o tempo inteiro, saculejando seus característicos cabelos vermelhos. Quando cantou “Vou festejar”, cena digna de Maracanã lotado, todos bateram palmas sincronizadamente e cantaram “Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão”, agitando o Circo Voador.
O público entrou com a corda toda no show, depois de uma apresentação partideiros do Cacique de Ramos. Foi com “Andanças” (Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi), um dos primeiros sucessos de sua carreira, que Beth levantou a galera pela primeira vez. Depois, ela cantou uma seqüência de compositores referênciais na história do samba: bambas do Cacique como Jorge Aragão, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, até os fundamentais Noel Rosa, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho e Cartola, passando por Chico Buarque e Gonzaguinha.
Outro ponto alto do show foi quando Beth puxou o violão e pôs chapéu de palha, sentou-se numa mesa de boteco no meio do palco e simulou uma autêntica roda de samba. Os músicos, como de praxe, perfeitos. É preciso ressaltar, contudo, o talento de Carlinhos Sete Cordas e Marcelo Pizzoti, na percursão, que além de espancar os atabaques com categoria ainda deu algumas canjas em “Ainda é tempo para ser feliz” (Sombra, Arlindo Cruz e Sombrinha) e “Dor de amor” (Arlindo Cruz, Acyr Marques e Zeca Pagodinho).
Terminado o show, a platéia não arredou o pé, pedindo o bis. Após um coro do hino do Flamengo, seguiu-se uma vaia da torcida arco-íris. A diva botafoguense voltou ao palco cantando “Fogooo, fogooo…” Ela concedeu mais alguns de seus sucessos, encerrando com “Caciqueando” (Noca da Portela). Ela agradeceu aos organizadores do show, promovido pela MPB FM, dentro de seu excelente programa Samba Social Clube.
Poucas vezes se viu debaixo da lona do Circo Voador artista e platéia em tão perfeita sintonia. Uma animação constante do começo ao fim, a certeza de estar diante de uma incomparável rainha do samba, de uma das maiores cantoras brasileiras. Todo mundo voltando pra casa feliz, depois de receber a benção da madrinha do samba.
6 comments setembro, 2007
Melhor cantora da nova geração

Por Equipe O Samba
O blog O Samba está promovendo, em sua recém-criada comunidade no Orkut, uma enquete para eleger a melhor cantora de samba da nova geração. Estão na disputa Ana Costa, Dorina, Nilze Carvalho, Roberta Sá e Teresa Cristina. Até a publicação deste post, Roberta Sá estava ganhando de lavada, com quase a metade dos votos.
Nossa comunidade fica no endereço: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=39415595
O blog precisou selecionar, infelizmente, apenas algumas das diversas excelentes novas cantoras que surgiram no samba. Abaixo, está um resumo da carreira de cada uma das cinco concorrentes, com informações obtidas em sites oficiais e no Dicionário Cravo Albin.
ANA COSTA - Nascida em 1968, no Rio, surgiu no cenário musical nos grupos Couer Sambá e no Roda de Saia. No ano passado, lançou o CD “Meu carnaval”, no qual interpretou músicas de Moacyr Luz, Wilson Moreira, Jorge Aragão, Almir Guineto, entre outros. Venceu o 5º Prêmio Rival Petrobras de Música em 2006 e cantou para o mundo em 2007 na abertura dos Jogos Pan-Americanos.
DORINA (Adorina Guimarães Barros) – Vencedora do prêmio Sharp de revelação do samba em 1996, quando lançou seu primeiro disco “Eu canto samba”, Dorina gravou seu primeiro DVD no ano passado, com participação de Beth Carvalho, Almir Guineto, entre outros. Neste ano, particiou do projeto “Violão e o Samba”, com a proposta de dar ao samba um roupagem nova. Dorina nasceu no Rio de Janeiro em 1959.
NILZE CARVALHO (Albenise de Carvalho Ricardo) – Com apenas 12 anos de idade, Nilze Carvalho gravou seu primeiro disco, “Choro de menina”. Aos 15 anos, contratada pelo empresário italiano Franco Fontana, começou a viajar pelo exterior. Em 2005, depois de passagem pelo grupo Sururu na Roda, lançou um disco solo chamado “Estava faltando você”. Nasceu em Nova Iguaçu (RJ) em 1969.
ROBERTA SÁ (Roberta Varella Sá) – Natural de Natal (RN), mudou-se para o Rio de Janeiro aos nove anos de idade. Fez cantoterapia e morou nos Estados Unidos, onde participou de corais. Participou, em 2002, do programa “Fama” (TV Globo). No ano seguinte, gravou “A vizinha do lado” (Dorival Caymmi) para a trilha sonora da novela “Celebridade” (Rede Globo). Lançou, em 2005, o CD “Braseiro”.
TERESA CRISTINA (Teresa Cristina Macedo Gomes) – Nascida em Bonsucesso, em 1968, foi considerada, ao lado do Grupo Semente, “reinventora” da noite da Lapa. O primeiro cd foi em homenagem aos 60 anos de Paulinho da Viola, que rendeu a ela o prêmio Rival BR e Prêmio TIM de música, como cantora revelação, e a indicação ao Grammy Latino de melhor disco de samba de 2003.
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Cocada boa

Por Thales Ramos
“Jesus não quer atrasar o lado de ninguém não”, disse Bezerra da Silva, ao entrar para a Igreja Universal do Reino de Deus. Quando ele se converteu, cheguei a temer. Pensei que Bezerra deixaria de lado seus sambas humorados, irônicos e de forte crítica social para se dedicar à música gospel. Estava enganado. Sempre abençoado, ele continuou a cantar suas canções narrando os cidadãos comuns, como trocadores de ônibus, anotadores de jogo do bicho e presidiários.
Anos depois, fiquei novamente preocupado com a conversão de outro ídolo: Carlinhos Cocada. Ele não era famoso ou reconhecido como Bezerra, mas tinha em mim um grande fã. Carlinhos Cocada vestia a camisa 7 do Araribóia, time de futebol do Rio do Ouro, bairro de Niterói. Adolescente e freqüentador de escolinhas de futebol, eu alimentava o sonho de um dia ser jogador, defender o tricolor das Laranjeiras e, embora fosse fã incondicional de Romário, Bebeto e Renato Gaúcho, preferia ser igual ou parecido ao Carlinhos Cocada.
Sempre que conto sobre Carlinhos, me perguntam com qual jogador ele parece. Costumo dizer que com nenhum. Tinha o estilo dele, único, assim como os três craques que citei. Vi Carlinho fazer gols antológicos, acabar com defesas inteiras.
Pois bem, o tempo passou e soube por terceiros que Carlinhos tinha parado de jogar depois que entrou para a igreja. Não cheguei a ficar “de mal com Deus”, como escreveram João Nogueira e Paulo César Pinheiro na emocionante “Espelho”. Mas fiquei triste, chateado. Adulto, ainda tinha esperança de rever meu craque, meu ídolo. Queria levar meus amigos para vê-lo e comprovarem que não havia exagero nos relatos das façanhas do atacante do azul e branco de Rio do Ouro.
Meses atrás, estava no aniversário do meu afilhado no bairro onde me acostumei a vê-lo brilhar. Em conversa com um amigo, sobre a situação do Araribóia, ele me disse que Carlinhos, depois que parou de jogar, virou técnico da equipe. Sendo assim, ele não parou de jogar por conta da conversão. Carlinhos também estava na festa. Lembrei-me de quando me apresentaram a ele dez anos atrás e me deixaram roxo de vergonha. Disseram: “Aí Carlinhos, o garoto é seu fã.” Apertei a mão dele. Tudo que me dizia, eu só balançava a cabeça dizendo sim e não, encabulado e com medo de falar besteira.
No fim de tudo, o velho sambista estava mais certo que nunca. Longe de Jesus querer atrasar o lado de alguém. Bezerra da Silva e Carlinhos Cocada, dois homens que foram muito bons no que fizeram. Um na música, outro no futebol. Tinham uma coisa em comum: eram irmãos em Cristo, como os evangélicos costumam dizer.
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O evangelho segundo Zeca Pagodinho

Por Emiliano Mello
“Se o samba não existisse, o mundo seria muito chato; chato pra cacete! Sem samba, acho que eu viraria crente, esses da Igreja Universal do Reino de Deus (risos).”
Zeca Pagodinho, no programa “Então tá, Vamos falar de música”, da MTV, exibido sexta-feira, dia 14 de setembro.
Além da frase, merece destaque a “vídeo-aula” de samba dada por Arlindo Cruz. Tocando seu cavaquinho, o compositor passeou por todos os estilos do gênero, explicando as diferenças e evoluções do samba ao longo dos anos de maneira simples e didática.
Para assistir ao vídeo, basta clicar aqui.
O programa tem reprise na quarta-feira, dia 19, às 11h; na quinta, passará à 0h30; e no sábado, às 15h30.
3 comments setembro, 2007
Ao mestre, com carinho

Por Thiago Dias
Pelo menos para alguma coisa o Katinguelê serviu na minha vida… Graças ao Salgadinho, aquele dos óculos na cabeça, eu ouvi pela primeira vez uma referência ao Mestre Marçal como intérprete. Só o conhecia por ter comandado a bateria da Portela e comentado desfiles de escolas de samba na televisão.
Em um disco ao vivo gravado por Reinaldo, o “Príncipe do Samba”, Salgadinho é convidado para cantar “Facho de Esperança”. No meio da música, ele falava: “É uma honra poder homenagear Mestre Marçal”. Abria-se um mundo novo para mim.
Consegui uma gravação do programa “Ensaio” com Mestre Marçal. A primeira porrada eu imagino na direção do Salgadinho e sua turma dos passos coreografados: “A inspiração dessa gente está acabando. De vez em quando, eu vou lá no baú porque a rapaziada que está aí… Inventaram o pagode, acabaram com o pagode. O pagode teve madrinha, teve padrinho, teve rei, teve não sei o quê. Hoje em dia não tem mais nada, estamos à disposição da lambada”.
Ritmista respeitado, Mestre Marçal era o preferido de Chico Buarque. Viajou o mundo na banda do queridinho do Brasil. Também era chamado por outros bambas para gravar em estúdio, como Clara Nunes, Martinho da Vila e Paulinho da Viola. Quando conseguiu realizar o sonho de ter seu próprio disco, cantando, juntou alguns dos maiores sambistas do país para fazer o coro.
“Meu primeiro disco foi em 1975. Até hoje se fala desse disco, porque o coro tinha Chico Buarque, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Djavan, finada Clara Nunes, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Miúcha, Cristina Buarque, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Conjunto Nosso Samba, João Nogueira. Era o coro milionário”.
E como ele pagou tudo isso? Não pagou, é claro. “Não teve cachê. Eles foram me presentear. Essa gente toda passou pela minha mão em estúdio, toquei com todos. Cuíca, tamborim, fazendo coro. Resolveram me homenagear, não há dinheiro que pague um coro desse”, disse ao programa “Ensaio”, da TV Cultura.
Mestre Marçal é bamba de berço: seu pai é o compositor Armando Vieira Marçal, um dos fundadores da “Deixa Falar”, primeira escola de samba da história. Em seus discos, o filho sempre gravou músicas do pai, principalmente as em parceria com Bide. É de emocionar a maneira que Mestre Marçal fala de Marçal, o pai. Sempre com respeito, saudade. Algumas passagens chegam a arrancar gargalhadas:
“Andei tomando uns cascudos do coroa, que foram bem dados. Não apanhei muito não. Uma vez ele me deu o dinheiro para pagar a mensalidade. Cheguei na Rua das Missões vinha descendo um bloco. Eu não tinha nada na mão, passei na casa de instrumento e comprei um pandeiro. Cheguei no bloco, me desengomei. Mas alguém me cagoetou. Em casa, ele me perguntou: ‘Foi à escola?’. ‘Fui’. ‘Pagou a escola?’. Digo ‘paguei’. ‘Cadê o recibo?’. ‘Perdi’. Aí o bicho pegou. Alguém já tinha cagoetado. Não tinha nada na rua, tô vendo a rapaziada ciscando no tapete, comprei um pandeiro e fui à luta também”.
A entrevista ao “Ensaio” é uma aula. Frasista nato, Mestre Marçal lembra desfiles desde a década de 30, fala de sua experiência em escolas até chegar à Portela, reclama do samba atual. As declarações são feitas entre as músicas, a maioria de seu pai. O jeito de falar é engraçado, estilo Cebolinha, trocando o “L” pelo “R”. “Bloco” vira “broco”, “triste” passa a ser “tliste”. Na voz dele, soa genial.
Marçal deu origem a Mestre Marçal, que deixou o herdeiro Marçalzinho. Uma linhagem de respeito. Obrigado, Salgadinho.
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Rubem Confete, documento do samba

Por Thales Ramos
Foto de Bruno Villas Bôas
No centenário armazém entre as ruas Gomes Freire e Senado, no bairro da Lapa, o pessoal do Centro Popular de Cultura Aracy de Almeida dobra os últimos panfletos a respeito da roda de samba realizada no local. Vassouras penduradas e uma infinidade de azeites e aguardentes ocupam as antigas prateleiras. Sentado à mesa da calçada, um senhor de camisa azul e calça branca pede uma cerveja. De cinco em cinco minutos, é abordado com uma mesma saudação: “Fala Confete!”
Rubem dos Santos, conhecido como Rubem Confete, completou 70 anos em dezembro do ano passado. Fala muito, mas não fala demais. Tudo o que diz é absolutamente relevante e essencial. Durante quase duas horas de entrevista e, posteriormente, outras tantas mais ao lado dele, fica claro que se está próximo de alguém que fez e ainda faz diferença no samba e na cultura carioca.
“O grande problema das rodas é que, quando você está com público muito grande, o cara só quer cantar samba que o pessoal conhece”, afirma Confete, acrescentando, contudo, que existem espaços para novas composições. “Tem uma juventude compondo. Antigamente, a juventude só cantava as músicas antigas, de rádio. Hoje não, eles já cantam suas próprias composições.”
Leia aqui a entrevista completa com Rubem Confete
Dentro do Armazém do Senado, duas panelas de arroz carreteiro são colocadas à disposição da freguesia. O cheiro gostoso vem cá fora. Confete, depois de beber um copo de cerveja, pede uma dose de cachaça, sendo prontamente atendido. “Sambista, antigamente, para estourar, tinha que ficar velho. Paulinho da Viola foi uma exceção, assim como Martinho da Vila. O sambista ficava lá no morro, nas escolas.”
E quem fala começou no samba ainda menino, nos blocos de carnaval. Foi passista da Mangueira e viu o nascimento do Império Serrano. Conviveu nas escolas de samba com bambas como Natal da Portela e Mestre Fuleiro. Foi ele, inclusive, quem indicou o cantor Roberto Ribeiro e Dicró às gravadoras.
Confete está com um grave problema de visão, mas não se deixa abalar. Além de comandar, ao lado de Dorina, um programa na Rádio Nacional, das segundas às quintas-feiras, das 13h às 15h, planeja lançar o seu segundo disco solo. Ele também quer gravar um dvd que irá chamar de “Tributo a Zumbi dos Palmares”, com seis ou sete músicas de sua autoria, além de parcerias com Nilze Carvalho e Délcio Carvalho.
Confete também atuou como jornalista. Foi foca da revista do “Museu da Imagem e do Som”, escreveu na Tribuna da Imprensa (onde fez a primeira entrevista com a ainda criança Nilze Carvalho) e nos jornais de esquerda Pasquim e Lampião. Foi comentarista de carnaval na TV Globo, TVE e Rede Manchete, além de radialista nas rádios Roquete Pinto e Nacional (sua casa há 27 anos).
Depois de um longo e histórico bate-papo, Confete explica que precisa marcar presença no Bar Paulistinha, que fica a poucos quarteirões do Armazém do Senado. Pouco tempo depois, para a surpresa de quem permaneceu no Armazém, ele reapareceu para dar uma canja. E prova que tem uma belíssima voz, encerrando a palinha com “Sublime Pergaminho”, samba-enredo da Unidos de Lucas, de 1968.
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