Archive for agosto, 2007
Minas Gerais no samba
Por Thales Ramos
Que Ataulfo Alves foi um mestre, todo mundo sabe. O mineiro de Miraí é dono de uma pá de sucessos que hoje é hit em rodas de samba no Rio de Janeiro. Mas o que podemos ver nesse video é que, além de ser responsável por canções inesquecíveis, como “Bonde São Januário” e “Vassalo do samba”, ele foi responsável pela introdução de Clara Nunes no universo do samba.
“Clarinha canta samba. Você tem que cantar música brasileira. Você tem uma voz tão boa”, lembra Clara Nunes, nessa raridade de vídeo. Ataulfo sugeriu e Clara – mineira, de Caetanópolis – acatou a dica.
É quase impossível não aceitar um conselho desses, vindo de quem vinha. Quem ganhou foi o samba, quem ganhou fomos nós. No samba, Clara Nunes foi uma das cantoras mais candentes da música brasileira. De quebra, o mestre ofereceu à cantora “Você passa e eu acho graça” (com Carlos Imperial), música que está no gogó de qualquer freqüentador de roda de samba que se preze.
Eles não estão mais entre nós, mas as imagens acima eternizam a genialidade e a presença fundamental dos dois.
Estações do samba

Por Thiago Dias
Finalmente conheci o parador que Marquinhos de Oswaldo Cruz, Edinho Oliveira e Arlindo Cruz cantam o percurso em “Geografia Popular”, aquela do “Gente boa, onde Aniceto está?”.
Ao contrário do caminho feito pelos compositores, não saí de Deodoro, o ponto final. Embarquei na Central do Brasil, com destino ao Engenho de Dentro. Parada obrigatória e, como diz a letra, o trem tá muito lento.
Trem, diga-se de passagem, maneiro. Com ar condicionado, bancos limpos e letreiros luminosos. Pena que Paulo da Portela e outros bambas não tinham esse conforto. Se já faziam obras-primas sacolejando em vagões velhos e empoeirados, imaginem o que não fariam sentadinhos em uma temperatura agradável?
Praça da Bandeira, São Cristóvão, o lindo bairro imperial, e Maracanã. Perto do estádio, a memória busca imagens do “Canal 100”, do mar rubro-negro em dia de clássico inundando a plataforma.
Depois, a Mangueira. É a quarta parada, mas ostenta o nome de “Estação Primeira”. Uma versão diz que Cartola assim a batizou por ser a “primeira estação onde tem samba desde a Central”. Faz sentido.
Os vendedores ambulantes, que já foram até tema de música gravada por Zeca Pagodinho, continuam lá. Uns andam uniformizados, vendendo água, refrigerante e picolé. A maioria segue na moita, com barras de chocolate em mochilas. São Francisco Xavier, Riachuelo, Rocha, olha o mate, Sampaio, Engenho Novo, cerveja, Méier.
De longe, o Engenhão. Belo estádio construído para os Jogos Pan-Americanos e dado de presente ao Botafogo. É lá que eu fico, me perguntando onde Aniceto está, gente boa.
Vera? Que Vera? Nem conheço
Por Bruno Villas Bôas
Guilherme de Brito, nosso homenageado do mês, em apresentação memorável ao lado de Nelson Cavaquinho. Eles tocam “Amor perfeito”, clássico da dupla, composto em 1976: “Pode haver outra mulher / Tão carinhosa / Mas para mim / Só Vera”.
Tão bom quanto o samba, é o diálogo no final. Dona Durvalina, esposa de Nelson Cavaquinho, está sentada entre os dois sambistas.
Nelson Cavaquinho (com cara de deboche): “Nem conheço essa Vera, sabe disso, ou não?”
Guilherme de Brito (entregando o parceiro): “Esse negócio da Vera, como é que é esse negócio aí? É que eu participei do negócio na segunda parte… A Vera é por conta dele…”
Dona Durvalina (sem graça): “Também estou querendo saber essa história… Mas ele ainda não contou…”
Nelson Cavaquinho (mudando de assunto): “Sabe Guilherme, eu fiz essa música em Mangueira, sabe? Naquela tempo, eu gostava de fazer duas, três músicas por semana. Mas depois até você… trouxe um grande alívio para mim. Faço a primeira, tu faz a segunda. Tu faz a primeira, eu faço a segunda. Às vezes deixo a letra por tua conta… E nós assim vamos seguindo.”
Amor perfeito
(Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)
O amor é como a flor
Que nasce e morre
Quando não
Se espera
Pode haver outra mulher
Tão carinhosa
Mas para mim
Só Vera
Disse que plantou amor perfeito
Em meu jardim
Sei que me enganou
Mas fui feliz assim
Pois quando partiu
Eu vi a sua maldade
No jardim
Eu só colhi saudade
Guilherme de Brito, a flor e o espinho

Por Bruno Villas Bôas
“Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”, um lindo verso de Nelson Cavaquinho, certo? Nem tanto. O famoso trecho do samba “A flor e o espinho”, um dos mais belos da música brasileira, foi composto, na verdade, por Guilherme de Brito, poeta, pintor, compositor e o maior parceiro de Nelson.
Neste mês de agosto, O Samba rende homenagens ao grande Guilherme de Brito, que morreu em abril do ano passado, aos 84 anos.
Nascido Vila Isabel, onde pegava caronas no carro do famoso vizinho Noel Rosa, Guilherme ganhou um cavaquinho quando tinha apenas oito anos. Seu primeiro samba foi gravado em 1955, por Augusto Calheiros, quanto já tinha cerca de 30 anos. Poucos tempo depois, conheceu Nelson Cavaquinho, em Ramos.
Nelson foi boêmio, de passar dias e noites em bares, enquanto Guilherme trabalhou na antiga fábrica de discos Edson por trinta anos. Apesar de opostos, a afinidade musical superou qualquer diferença, permitindo a produção de clássicos como “Pranto de poeta”, “Folhas secas”, “Quando eu me chamar saudade”.
Conhecido pela melancolia, Nelson transmitiu o tema ao parceiro, que com muita sensibiliadde soube absorver o lamento do samba. “Eu aprendi com o Nelson essa melancolia”, declarou Guilherme ao site Samba & Choro, em 2001, poucos anos antes de falecer. “Mesmo quando eu fazia a primeira parte, procurava me colocar no lugar dele.”
O histórico verso de “A flor e o espinho” surgiu quando Brito e Nelson estavam em uma leiteria da Rua Pedro I. “Tinha uma porra duma mulher, que eu não sei quem era, que entrava lá na porta e já vinha rindo. Era bonita, uma dentadura muito bonita, e aquilo ficou na minha mente. Ria escandalosamente”, disse ao site Samba & Choro.
Pouco tempo depois, Guilherme de Brito foi a Niterói com o Augusto Calheiros. Na volta, chegando à Praça XV, a frase caiu: “Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor”. Guilherme disse ao site que não tinha papel para anotar. “Peguei o maço de cigarros, desfiz o papel e pedi uma caneta ao garçom.”
Ele fez um pacto de parceria com Nelson e jamais o traiu, apesar de o parceiro ter pulado a cerca pelo menos duas vezes. “Ele propôs a mim, não sei por que, que só compuséssemos juntos. Ele queria até levar pro tabelião, nós tentamos, mas não podia ser feito. Mas eu até o fim fui leal a ele, nunca compus com outro”, afirmou.
O primeiro disco gravado por Guilherme de Brito foi “Quatro grandes do samba”, em 1977, ao lado de Nelson Cavaquinho, Candeia e Elton Medeiros, no qual também atuava como cantor. Três anos depois, lançou “Guilherme de Brito”, apenas com músicas de sua autoria.
Bossa nova é samba. E dos bons
Por Emiliano Mello e Thiago Dias
Pesquisadores da música brasileira costumam dizer que, se a bossa nova existiu um dia, ela nasceu no morro da Mangueira, na viola de Geraldo Pereira. Bossa nova é samba. Difícil provar o contrário.
Pode ser um samba “metido a besta”, como dizem alguns, por causa das influências de jazz e da música francesa, além de letras mais trabalhadas. Mas é samba. E dos bons.
Numa praia da Barra deserta, ainda sem a atual muralha de prédios, Luiz Bonfá, João Gilberto e Tom Jobim tocam para as atrizes Mylène Demongeot, Gloria Paul e Sylvia Koscina. João e Bonfá estão vestidos de maneira impecável. Tom é o único sem camisa.
Sentados na areia, fazem uma rodinha e, com muita bossa, seduzem as três pin-ups em biquínis de duas peças. Lindas. Sylvia, deitada de frente para Tom, não esconde seu encanto pelo maestro brasileiro, com seu topete ao vento.
De repente, uma correria se instala, um peixe fisga a isca lá atrás. Tom continua sentado. Sylvia também. Com uma sereia aos seus pés, o maestro dá por encerrada a pescaria. O filme é “Copacabana Palace”, do italiano Steno (Stefano Vanzina). Uma raridade de 1962.


