Samba de terreiro longe das escolas
julho, 2007 at 4:43 am Deixe um comentário

Por Bruno Villas Bôas
O diálogo abaixo foi travado entre Paulinho da Viola e Anescarzinho do Salgueiro, em 1990, registrado no imperdível álbum “Paulinho da Viola e os Quatro Crioulos”, da TV Cultura. Participam ainda do disco Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Nelson Sargento.
Paulinho da Viola – Anescarzinho, você fez muitos sambas para o Salgueiro. Você é um compositor que a gente tem que estar sempre lembrando como um compositor do Salgueiro. Você, Djalma Sabiá, Geraldo Babão. Canta um samba que você fez para o terreiro, para a quadra do Salgueiro, um daqueles que, se cantar hoje lá no Salgueiro, todo mundo vai saber.
Anescarzinho do Salgueiro – “Água do Rio” (ouça no player do blog).
Paulinho – Vamos lá, mostra aí.
Água do Rio
(Anescar Pereira Filho / Noel Rosa de Oliveira)
Tudo ficou,
Tudo ficou diferente
Depois que você me deixou
Dos nossos beijos ardentes
Hoje resta o amargo sabor.
Até a água do rio
Que a sua pele banhou
Também secou com a saudade
Que a sua ausência deixou.
A lua não tem mais brilho
O sol não tem mais calor
O pomar não dá mais fruto
O jardim não deu mais flor.
Daquela noite tão linda
Que nos inspirava o amor
Hoje só resta a saudade
Muito sofrimento e dor.
Paulinho – Você acha que a gente pode, Anescarzinho, cantar um samba desse hoje numa quadra de escola de samba e a bateria acompanhar?
Anescarzinho – De jeito nenhum.
Paulinho – Não tem jeito, né?
Anescarzinho – O importante é que isso aí era samba de terreiro. Agora é samba de quadra, bem diferente.
Paulinho – Quanto mais rápido, melhor.
Anescarzinho – Se você chegar hoje numa quadra de escola de samba e cantar um samba desse, você é enxotado lá de dentro.
Paulinho – É capaz de apanhar.
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