O poeta triste

julho, 2007 at 12:52 am 5 comentários

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Por Lucas de Moraes

Tristeza, melancolia, pessimismo, mania de morte… Assim é a obra de Nelson Cavaquinho (Nelson Antônio da Silva), grande compositor e sambista, nascido em 29 de outubro de 1911 no Rio, onde morreu em 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos.

Suas composições eram rodeadas por uma idéia fixa de morte, plenamente perceptível até mesmo na sua forma de cantar, sempre carregada de tristeza. Embora cantar não fosse a sua especialidade, ele tinha uma voz absolutamente ímpar.

Quem convivia intimamente como o compositor acreditava que o motivo de tanta melancolia nas letras era o medo que sentia da morte. Era a forma que tinha de demonstrar esse sentimento sem expor, claramente, o real motivo de sua obsessão: o medo de morrer.

Esse verdadeiro poeta do samba, porém, não era somente melancolia. Ele tinha ligação forte com a Mangueira, que era o seu grande refúgio, e uma das coisas – talvez a única – que lhe dava alegria por completo.

A Estação Primeira de Mangueira era a sua casa, a sua alegria. E foi com grandes compositores da escola, como Cartola (no Zicartola, casa de samba de Dona Zica e Cartola), Carlos Cachaça e outros, que entrava em êxtase e seguia noite adentro cantando samba.

A vida de Nelson Cavaquinho nunca foi de muito luxo. Por muito tempo morou num quarto alugado no Centro do Rio, local onde “tirava suas pestanas”, termo comum na época, após suas orgias. Ou seja, era seu local de repouso, depois de mais uma noitada.

Suas composições ficaram cada vez mais deprimidas com o passar do tempo, muito em função de sua vida decadente. O dinheiro das composições era gasto em farras com os amigos, fato que o obrigou, muitas vezes, a dar parceria a estranhos para honrar seus compromissos financeiros.

Tudo isso contribuiu ainda mais para o tema de suas composições. Um exemplo claro dessa situação está na canção “Degraus da vida”, que pode ser ouvida no player do blog O Samba (caixa verde no menu). Nessa música, ele diz: “Sei que estou no último degrau da vida meu amor, já estou envelhecido, acabado…”

Seu grande sucesso, auge como compositor, veio com a canção “Rugas”, sempre pedida por Vinícius de Moraes quando se encontravam: “Se eu for pensar muito na vida, morro cedo amor, meu peito é forte e nele eu tenho acumulado tanta dor, as rugas fizeram residência no meu rosto, não choro pra ninguém me ver sofrer de desgosto”

Seu espírito mangueirense pode ser notado na musica “Folhas secas”, também um de seus maiores sucessos:

Folhas secas
(Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)

“Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando
Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais samba
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade
Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando
E assim vou me acabando
E assim vou me acabando”

Assim era Nelson Cavaquinho que, apesar do apelido, trocou o instrumento pelo violão na década de 50. Conseguia aliar tristeza à magia do samba, tão alegre e irreverente.

E você, qual sua música predileta do Nelson Cavaquinho?

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5 Comentários Add your own

  • 1. Carlos  |  julho, 2007 às 11:46 pm

    Difícil dizer uma só.. acho que Luz Negra mesmo, que é uma das mais famosas.

    Responder
  • 2. Dadinho  |  julho, 2007 às 3:07 am

    Luz Negra, Folhas Secas, são clássicos

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  • 3. domingosjunior  |  julho, 2007 às 7:41 pm

    Com o próprio, “Tatuagem” (o meu único fracasso/está na tatuagem do meu braço). Com a Nora Ney, “A flor e o espinho” (tire seu sorriso do caminho/que eu quero passar com a minha dor).

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  • 4. David  |  agosto, 2007 às 7:48 pm

    Luz negra e Eu e as flores p mim são músicas mágicas!

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  • 5. Antonio Gomes  |  agosto, 2007 às 1:29 am

    “Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”

    Responder

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