Archive for julho \28\UTC 2007
O Rei Roberto

Por Thales Ramos
Conta minha mãe que, quando eu era bebê, me embalava cantando “Todo menino é um rei” (Zé Luiz e Nelson Rufino). Já nessa época, eu dormia tarde e teimava em varar a madrugada. Mais velho, com 12, 13 anos, escutava o programa de Washington Rodrigues e Hilton Abihian, na Rádio Globo, depois de meia-noite. Foi nele que ouvi pela primeira vez o nome de Roberto Ribeiro. Noticiavam seu falecimento.
Meu pai disse: “Grande cantor, sambava muito bem”. No dia seguinte, a televisão deu pouco destaque, mas confirmava a fala do coroa.
Já adulto, baixei “Todo menino é um rei” e, aí sim, atentei para o talento de Roberto. Baixei outros discos, pesquisei sobre ele e fiquei apaixonado pela obra do cantor. Cada música era uma descoberta, uma nova paixonite. Não sei dizer por quantos dias e horas seguidas escutei “Amor de verdade” (Flavio Moreira e Liette de Souza), assim como também não sei dizer a quantas pessoas enviei essa música e disse: “Por favor, presta atenção nessa letra”.
Quando soube que era ninado por um sucesso de Roberto Ribeiro, percebi que minha relação com ele era mais estreita do que poderia imaginar. Até goleiro do meu Fluminense ele tentou ser. E tenho tanto carinho por essa relação que só agora resolvi escrever algo sobre ele. Madrugada dessas (de novo ela), ele pintou cantando “Vazio” (Nelson Rufino) e me encheu de coragem.
Pego o lápis e tento dar o meu melhor. O negão merece. Arrisco-me a dizer que é o maior cantor de samba e, para mim, um dos melhores que o Brasil já teve. É arrepiante ouvi-lo cantar “Jongo do irmão café” (Wilson Moreira e Nei Lopes) e “Ginga Angola” (Nei Lopes). Dá praticamente para sentir o cheiro da senzala, a força da história negra. Como disse o amigo Thiago Dias neste blog: “Esse Roberto Ribeiro sabe escolher repertório, hein?”. Sabe sim. Estão lá Nei Lopes, Nelson Rufino, Silas de Oliveira, Délcio Carvalho, Chico Buarque, Dona Ivone Lara.
Quando eu disse que, ao dar de cara com a obra de Roberto Ribeiro, cada música era uma descoberta, não era exagero. Já escutei “Vazio” muitas vezes, mas a redescobri nessa madrugada. A música me disse muitas coisas. Entre elas, que Roberto Ribeiro não canta, ele diz. Pra mim, se tem um Roberto que é rei, o sobrenome dele é Ribeiro.
22 comments julho, 2007
Samba de terreiro longe das escolas

Por Bruno Villas Bôas
O diálogo abaixo foi travado entre Paulinho da Viola e Anescarzinho do Salgueiro, em 1990, registrado no imperdível álbum “Paulinho da Viola e os Quatro Crioulos”, da TV Cultura. Participam ainda do disco Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Nelson Sargento.
Paulinho da Viola – Anescarzinho, você fez muitos sambas para o Salgueiro. Você é um compositor que a gente tem que estar sempre lembrando como um compositor do Salgueiro. Você, Djalma Sabiá, Geraldo Babão. Canta um samba que você fez para o terreiro, para a quadra do Salgueiro, um daqueles que, se cantar hoje lá no Salgueiro, todo mundo vai saber.
Anescarzinho do Salgueiro – “Água do Rio” (ouça no player do blog).
Paulinho – Vamos lá, mostra aí.
Água do Rio
(Anescar Pereira Filho / Noel Rosa de Oliveira)
Tudo ficou,
Tudo ficou diferente
Depois que você me deixou
Dos nossos beijos ardentes
Hoje resta o amargo sabor.
Até a água do rio
Que a sua pele banhou
Também secou com a saudade
Que a sua ausência deixou.
A lua não tem mais brilho
O sol não tem mais calor
O pomar não dá mais fruto
O jardim não deu mais flor.
Daquela noite tão linda
Que nos inspirava o amor
Hoje só resta a saudade
Muito sofrimento e dor.
Paulinho – Você acha que a gente pode, Anescarzinho, cantar um samba desse hoje numa quadra de escola de samba e a bateria acompanhar?
Anescarzinho – De jeito nenhum.
Paulinho – Não tem jeito, né?
Anescarzinho – O importante é que isso aí era samba de terreiro. Agora é samba de quadra, bem diferente.
Paulinho – Quanto mais rápido, melhor.
Anescarzinho – Se você chegar hoje numa quadra de escola de samba e cantar um samba desse, você é enxotado lá de dentro.
Paulinho – É capaz de apanhar.
Add comment julho, 2007
O poeta triste

Por Lucas de Moraes
Tristeza, melancolia, pessimismo, mania de morte… Assim é a obra de Nelson Cavaquinho (Nelson Antônio da Silva), grande compositor e sambista, nascido em 29 de outubro de 1911 no Rio, onde morreu em 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos.
Suas composições eram rodeadas por uma idéia fixa de morte, plenamente perceptível até mesmo na sua forma de cantar, sempre carregada de tristeza. Embora cantar não fosse a sua especialidade, ele tinha uma voz absolutamente ímpar.
Quem convivia intimamente como o compositor acreditava que o motivo de tanta melancolia nas letras era o medo que sentia da morte. Era a forma que tinha de demonstrar esse sentimento sem expor, claramente, o real motivo de sua obsessão: o medo de morrer.
Esse verdadeiro poeta do samba, porém, não era somente melancolia. Ele tinha ligação forte com a Mangueira, que era o seu grande refúgio, e uma das coisas – talvez a única – que lhe dava alegria por completo.
A Estação Primeira de Mangueira era a sua casa, a sua alegria. E foi com grandes compositores da escola, como Cartola (no Zicartola, casa de samba de Dona Zica e Cartola), Carlos Cachaça e outros, que entrava em êxtase e seguia noite adentro cantando samba.
A vida de Nelson Cavaquinho nunca foi de muito luxo. Por muito tempo morou num quarto alugado no Centro do Rio, local onde “tirava suas pestanas”, termo comum na época, após suas orgias. Ou seja, era seu local de repouso, depois de mais uma noitada.
Suas composições ficaram cada vez mais deprimidas com o passar do tempo, muito em função de sua vida decadente. O dinheiro das composições era gasto em farras com os amigos, fato que o obrigou, muitas vezes, a dar parceria a estranhos para honrar seus compromissos financeiros.
Tudo isso contribuiu ainda mais para o tema de suas composições. Um exemplo claro dessa situação está na canção “Degraus da vida”, que pode ser ouvida no player do blog O Samba (caixa verde no menu). Nessa música, ele diz: “Sei que estou no último degrau da vida meu amor, já estou envelhecido, acabado…”
Seu grande sucesso, auge como compositor, veio com a canção “Rugas”, sempre pedida por Vinícius de Moraes quando se encontravam: “Se eu for pensar muito na vida, morro cedo amor, meu peito é forte e nele eu tenho acumulado tanta dor, as rugas fizeram residência no meu rosto, não choro pra ninguém me ver sofrer de desgosto”
Seu espírito mangueirense pode ser notado na musica “Folhas secas”, também um de seus maiores sucessos:
Folhas secas
(Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)
“Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando
Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais samba
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade
Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando
E assim vou me acabando
E assim vou me acabando”
Assim era Nelson Cavaquinho que, apesar do apelido, trocou o instrumento pelo violão na década de 50. Conseguia aliar tristeza à magia do samba, tão alegre e irreverente.
E você, qual sua música predileta do Nelson Cavaquinho?
5 comments julho, 2007
Par de damas

Por Thales Ramos
O blog anda meio machista, eu sei. Mas, aproveitando a passagem de Clara Nunes no topo de O Samba, resolvi falar de duas divas: ambas partideiras, ex-empregadas domésticas e descobertas tardiante. Uma é de Jesus. A outra é uma Pérola. As duas são negras.
Jovelina Pérola Negra rendendo homenagens à Clementina de Jesus em “Dona Clementina” (Niva e Luizão 7 Cordas), do álbum “Vou na Fé”, é muito gostoso de ouvir. Não sei se as duas já se cruzaram nos terreiros, mas na canção elas se encontram.
Jovelina, carioca, foi integrante da ala das baianas do Império Serrano. No início da década de 80, ao lado de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz e outros, participou do Cacique de Ramos. Foi em 1985, na coletânea “Raça Brasileira”, que Pérola Negra deu o pontapé inicial de sua carreira, cantando “Feirinha da Pavuna” e “Bagaço da Laranja”, dois dos seus principais sucessos.
Clementina de Jesus foi descoberta aos 63 anos pelo compositor e produtor cultural Hermínio Bello de Carvalho. No início da carreira, ela percorreu o Brasil no show “Rosa de Ouro”, ao lado de Araci Côrtes e o conjunto Rosa de Ouro. O mesmo Hermínio produziu “Gente da Antiga”, com Clementina ao lado de Pixinguinha e João da Baiana.
“Dona Clementina” não foi a única homenagem que a Rainha Quelé recebeu. Élton Medeiros a reverenciou em “Clementina, cadê você?” e João Bosco e Aldir Blanc – parceria das mais geniais do música brasileira — compuseram a genial “Boca de sapo” para a voz de Clementina. Fora isso, foi homenageada pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio em 1983 e, dois anos mais tarde, pelo Ministério da Cultura da França.
Gente que gosta de samba, perde tempo não. Clica aí do lado, no player do blog, e escute Jovelina Pérola Negra anunciando “Clementina de Jesus onde estiver / Venha / O lumina”. Ou deixem o e-mail de vocês nos comentários que eu fortaleço e mando a música via e-mail.
O que você acha de Jovelina Pérola Negra e Clementina de Jesus?
6 comments julho, 2007
Vai passar Chico no Chacrinha
Por Bruno Villas Bôas
A qualidade da imagem realmente deixa a desejar, mas o vídeo é impagável. Chico Buarque de Hollanda cantando “Vai passar” no programa do Chacrinha, em 1984. Muito animado e cercado de chacretes, com direito a um beijinho roubado de uma menina do auditório e cumprimento do comediante Costinha, ele samba o tempo inteiro debaixo de confete e serpentina.
Vai passar
(Chico Buarque e Francis Hime)
Vai passar
Nessa avenida um samba
popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram
sambas imortais
Que aqui sangraram pelos
nossos pés
Que aqui sambaram
nossos ancestrais
Num tempo
Página infeliz da nossa
história
Passagem desbotada na
memória
Das nossas novas
gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão
distraída
Sem perceber que era
subtraída
Em tenebrosas
transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo
continente
Levavam pedras feito
penitentes
Erguendo estranhas
catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma
alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos
barões famintos
O bloco dos napoleões
retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma
cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório
geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório
geral
Vai passar
Add comment julho, 2007
A “Reza” forte de João da Baiana

Por Bruno Villas Bôas
O samba-macumba “Reza”, de João da Baiana, chama a atenção entre as músicas do excelente CD duplo “O Samba é Minha Nobreza”, lançado pela Biscoito Fino. A letra de João da Baiana, nome artístico de João Machado Guedes, mostra o sincretismo religioso entre umbanda e catolicismo. O tom parece, contudo, provocativo.
Nascido no Rio, em 1887, mais novo de uma família baiana de 12 irmãos, freqüentou desde criança terreiros de umbanda que ocorriam clandestinamente. Nessa letra, narra santos católicos tempestuosos, a ponto de São Pedro, principal apóstolo de Jesus, dar uma “facada na porta de São José”, que sai correndo para “chamar sua mulher”.
Em outro trecho, ainda mais provocativo, São Domingos, fundador da Ordem Dominicana, ajoelha-se “no pé do negro nagô”, que responde: “Sai daqui o São Domingos, que eu não sou nosso senhor.” São Miguel, arcanjo na Bíblia, é mandado preso duas vezes na letra por ordem de Santo Antônio e São Jorge, que são correspondentes a Ogum em diferentes regiões.
Conhecedor da umbanda, João da Baiana gravou diversos corimás, com algumas palavras em dialeto africano. Em 1952, por exemplo, ele lançou os ritmos afrobrasileiros “Lamento de Inhançã” e “Lamento de Xangô”, de sua autoria. Por quatro anos seguidos, gravou um disco intitulado “João da Baiana no seu terreiro”.
“Reza” foi colocado no player do blog (caixinha verde no menu à esquerda). Abaixo, a letra tirada de ouvido da gravação. A letra não consta em nenhum outro site ou blog na internet. Na mesma faixa, na seqüência, estão outros dois sambas: “Cuidado Vovó” (Tio Hélio e Nilton Campolino) e “Candeeiro” (Teresa Cristina).
Reza
(João da Baiana)
São Pedro deu uma facada
Na porta de São José
São José saiu correndo
Foi chamar sua mulher
Agora que foi bonito
Quando chegou Seu Tenente
Mandou prender São Miguel
Mandou soltar São Vicente
São João era menino
Santo Antônio era rapaz
São João fez deferência
Santo Antônio puxou pra trás
E entrando na igreja
Pra rezar meu padre nosso
Encontrei São Benedito
Atracado com Santo Onofre
São Jorge assim que soube
Montou logo em seu cavalo
Mandou prender São Miguel
Mandou soltar São Gonçalo
São Domingos ajoelhou
No pé do negro nagô:
“Sai daqui o São Domingos
Que eu não sou nosso senhor”
3 comments julho, 2007
Uma aula de samba
Por Bruno Villas Bôas
Mais uma obra-prima do poeta Paulo César Pinheiro, dessa vez parceria com Maurício Tapajós. Não preciso nem apresentar o cantor do vídeo acima, basta clicar no “play”. Essa gravação foi para o disco “Sobras Repletas”, um projeto de resgate da imensa obra que Tapajós deixou como legado para a nossa música brasileira.
Nessa aula de samba estão craques como Mauricio Carrilho (arranjo e violão 7), Luciana Rabello (cavaquinho), Celsinho Silva (percussão), Rui Alvin (clarinete e sax alto 1), Diego Terra (sax alto 2), Denize Rodrigues (sax tenor 1), Pedro Pamplona (sax tenor 2) e Pedro Paes (clarone). E como diz o samba: “som que se preza não pode parar”.
3 comments julho, 2007
