Archive for maio, 2007
Michelangelo
Por Thiago Dias
Não gosto muito do Mano Brown, mas é dele uma frase que martela sempre na minha cabeça: “Michelangelo vive bem perto, em forma de samba ele é Almir Guineto”.
Para quem só conhece “Jibóia” ou “Caxambu” – que ninguém consegue entender o que o sambista da voz enrolada diz -, pode até parecer heresia comparar o irmão do Mestre Louro com Michelangelo. Mas tenho que concordar com o Brown.
A primeira pessoa que eu vi defender que Almir Guineto é gênio foi Zeca Pagodinho. “Se ele fosse americano, estaria milionário”, já o ouvi dizer. Existe também a história que Zeca se obriga a colocar sempre uma música do amigo em seus discos, como agradecimento pelos sucessos do início da carreira.
Há mais referências no mundo do samba ao talento de Almir. Como na música “Não fique assim”, gravada em um CD de Reinaldo, quando Carica improvisa: “Cante um samba pra mim, samba de Almir Guineto, o rei do partido alto, no morro, no asfalto, um sambista completo”.
Para mim, a obra-prima do compositor é “Mãos”. “Mãos se rendem a outra que tudo leva”, canta Almir com sua voz rouca e quase sumida. E ele segue, sempre pelas mãos, citando as injustiças do mundo. “Quase em extinção, mãos honestas” taca na nossa cara.
É de Mano Brown, que divide “Mãos” com Almir Guineto no CD “Todos os Pagodes”, a última citação para ilustrar a genialidade do cara que levou para o samba o banjo: “Deus usava os loucos para confundir os sábios. O poeta dos loucos: Almir Guineto”.
Mãos
(Almir Guineto)
Mãos, se rendem
Pra outras que tudo levam
Quase em extinção
Mãos honestas, amorosas
Em nossas pobres mãos
Que batem as cordas
Pago pra ver
Quei…mar em brasa
As mãos de bacharéis
Que não condenam o mal
Que inocentam reús
Em troca do vil metal
As mãos de bacharéis
Que não condenam o mal
Que inocentam reús
Em troca do vil metal
Mãos de infiéis
Revés que não contentam
Movendo a diretriz tão fraudulenta
Sem réu e sem juiz
Mãos não se acorrentam
Justiça põe as mãos na consciência
Ato que fez Pilatos
Lavando suas mãos
É o mesmo que injustiça
feita com as próprias mãos
As mãos que fracassaram
Na torre de Babel
Porque desafiaram
As mãos do céu
Quilombo: a chama não se apagou

Por Thales Ramos, Thiago Dias e Bruno Villas Bôas
Fotos de Bruno Villas Bôas
Ao sair do metrô, a placa na Kombi anuncia que estamos perto: “Quilombo”. A numeração das casas na rua Ouseley não ajuda. Do 750 pula para o 760, mas depois volta para o 700. No 810, finalmente a quadra do Quilombo. “É maior que a da Vila Isabel, que a da Mocidade”, gaba-se Paulinho, um jovem estudante disposto a reerguer a escola.
Clique aqui para ler “Além dos limites do Quilombo”
E aqui para ler “Quilombo de volta à roda de samba”
Saiba mais sobre a “Essência de Candeia” clicando aqui
Uma quadra de futebol, banheiros interditados, um pequeno palco, uma casa precisando de reformas, uma janela com a inscrição “Acari TC” e um orelhão. No centro do grande terreno, um busto de Candeia, fundador e razão de aquilo existir. No canto, a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Por algum motivo, sempre quisemos estar ali.
“Porra, é o Candeia”, diz um ao dar de cara com o busto, um tanto maltratado pelo tempo. Embaixo da efígie, um senhor negro de olhos azuis discorre sobre a necessidade de o negro se afirmar, “deixar de cantar o lamento”. “Acorda, é hora de acordar”, cantarola a letra de “Dia de Graça”, obra-prima de Candeia levada ao pé da letra por este senhor. Não por acaso, é conhecido por Candeinha (foto).
O Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo é de uma realidade muito distante da nossa, formados em uma faculdade da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela fica na Fazenda Botafogo (ou seria Acari?), mais precisamente a antepenúltima estação da linha 2 do metrô carioca. É chapa quente.
Mesmo distante, de alguma maneira ela parece próxima. Muito foi escrito sobre o Quilombo nas últimas décadas, muito foi cantado por seu criador. Foi ele quem ensinou que da escola de samba só fica o samba. É o samba que interessa. E o Quilombo surgiu para combater a perda desse sentimento, ainda em 1975.
Naquele sábado quente, estávamos pisando no mesmo chão em que sambaram Martinho, Paulinho, Monarco, Elton. Candeia morreu antes da nova casa do Quilombo, não andou com sua cadeira de rodas por ali. Mas foi lá que entendemos, finalmente, os versos que Luiz Carlos da Vila fez para o amigo: “O tempo que o samba viver, o sonho não vai acabar, e ninguém irá esquecer Candeia”. Não mesmo.
Vassourinha, o flamenguista

Por Bruno Villas Bôas
Em tempo de final entre Flamengo (Mengão!) e Botafogo (*!@#%*!), vale lembrar um sambão que virou clássico na voz de Vassourinha, “E o juiz apitou”, autoria de Antônio Almeida e Wilson Batista.
O samba pode ser ouvido no player do blog (aqui na coluna da esquerda). Ele narra a dor de um flamenguista que tirou seu domingo para descansar, mas não descansou, porque o Flamengo perdeu para o Botafogo (no caso, uma licença poética).
Nascido em 1923, Mário Ramos de Oliveira, o Vassourinha, era flamenguista, ainda que paulista. Iniciou a carreira de cantor nos anos 30, em São Paulo. Mais tarde foi para o Rio de Janeiro, onde gravou seis discos. Morreu com apenas 19 anos.
E o juiz apitou
(Antônio Almeida e Wilson Batista)
Eu tiro o domingo para descansar
Mas não descansei
Que louco fui eu
Regressei do futebol
Todo queimado de sol
O Flamengo perdeu
Pro Botafogo
Amanhã vou trabalhar
Meu patrão é vascaíno
E de mim vai zombar
Foram noventa minutos
Que eu sofri como louco
Até ficar rouco
Nandinho passa a Zizinho
Zizinho serve a Pirilo
Que preparou pra chutar
Aí o juiz apitou
O tempo regulamentar
Que azar!
Obs: post alterado em 12 de maio para corrigir autoria do samba


