Archive for abril, 2007

Melquisedeque Marins

Por Thiago Dias

Estava aqui lembrando que quando eu era criança meu sonho era ser o Quinho. Nascido Melquisedeque Marins Marques, começou como puxador de samba no Boi da Ilha, estorou na União da Ilha e fez sucesso no Salgueiro.

Ali, no final dos anos 80, ele era o cara na Sapucaí. Seguindo a linha do mestre Aroldo Melodia, era mais que um simples intérprete. Com cacos e improvisações, transformava o desfile em show. “Futuca, futuca”, “pimba, pimba”, “ai que lindo, que lindo” e o famoso “Arrepia Ilha” eram algumas de suas pérolas na avenida.

Em 89, arrebentou com “Festa Profana” (“Eu vou tomar um porre de felicidade!”). Em 93, chegou ao auge com “Peguei um Ita no Norte” (“Explode coração, na maior felicidade”).

Diz a lenda que ele inventou a maioria dos cacos quando era feirante. Eu, com menos de dez anos de idade, ficava imaginando ele rodeado de frutas, verduras e legumes gritando: “Olha uva, futuca!”

Para completar, Quinho era paciente do meu pai, dentista. Um dia ele prometeu: “Doutor Miguel, quando eu ganhar o Estandarte de Ouro vou dedicar ao senhor. Vou aparecer bonito na foto, com maior sorrisão”.

O Estandarte nunca veio, Quinho passou pela Grande Rio e até por São Paulo, eu cresci e não virei cantor. Depois de velho, cheguei a beber uma cerveja com ele, vendo um Flamengo x Botafogo. Ele já não é mais o cara, e seus cacos até fizeram o Salgueiro perder pontos no Carnaval desse ano. Caiu o mito.

8 comments abril, 2007

Luiz Carlos da Vila

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Sambista pela lente de Bruno Veiga, autor do projeto “Casa de Bamba”.

3 comments abril, 2007

Extra, extra, extra

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Por Thales Ramos

É comum hoje em dia as pessoas comentarem as capas de jornais estampando o bang-bang carioca e outros tipos de violência. Puxando a fila nesse tipo de notícia estão o sanguinolento “O Povo” e o saudoso “Notícias Populares”, de São Paulo. Esse tipo de cobertura ganhou espaço na tv e no rádio tendo como um dos precursores o hoje cult Carlos Alborgueti, com seu 190 Urgente, primeiramente na rádio e depois na tv paranaense.

Mas muito antes do estilo Alborgueti desdobrar genéricos como Ratinho, Wagner Montes e Datena, Roberto Silva (foto) lançava “Descendo o morro-Vol. 4” (1961), que trazia entre outras pérolas “O Jornal da Morte”(Miguel Gustavo), que indica que esse gosto de sangue nas manchetes não é fruto de nossa época. A versão original da música é bastante criativa. Antes do gogó sincopado de Roberto entrar em cena, surge o grito estridente de uma mocinha digno de filme B de terror e, logo depois, o som de sirene de ambulância ou de patrulha.

Um lindo coral feminino anuncia o teor da música cantando:

“Sangue, sangue, sangue
Sangue, sangue, sangue”

Então, entra Roberto:

“Veja só esse jornal, é o maior hospital
portavoz do bang-bang da policia central
deslocada semi-nua jogou-se do 8 andar por que o
noivo não comprava maconha pra ela fumar.”

Em 1961, falar em “bang-bang da polícia central”, “deslocada semi-nua” e noivo que negava maconha, devia soar quase como rap proibido hoje em dia. Dá vontade de bater na biblioteca e fuçar os textos dos diários da época. Deviam parecer inocentes, perto das manchetes atueis, tipo “Perdeu o ônibus e cabeça”, sobre a velhinha que além de perder o busão, ainda teve a cabeça esmagada pelo mesmo.

Segue a letra:

“Cada página é um grito
Um homem caiu no mangue
Só falta alguém espremer o jornal pra sair
Sangue, sangue, sangue”

Quantas vezes a gente não escutou dizer “Jornal O Povo se espremer sai sangue”? . O “Príncipe do Samba” como era conhecido, não era bobo, é de um tempo que o sambista garimpava nas favelas e dava vez ao sambista de morro, que como ninguém sabia versar sobre o cotidiano da cidade. Muito comum na época, essa prática, que anos depois encontrou em Bezerra da Silva um herdeiro fiel, que procurava em anotadores de jogo do bicho, cobradores de ônibus e ex-presidiários composições para seus LPs.

Baixem ae “O Jornal da morte”, que além da versão de Roberto Silva, tem por aí também na voz do Nação Zumbi.

5 comments abril, 2007

Set list do Cabral

Por Bruno Villas Bôas

Essa lista aqui foi enviada por um amigo que fez curso de história da música brasileira com Sérgio Cabral, o pai. Seria um resumo – do resumo, do resumo – de músicas representativas do samba, apresentado durante a aula. Claro que falta muita coisa, mas serve de alguma referência aos neófitos.

1 – CD “Monarco, uma história do samba”. Faixa: “Nossos pioneiros”

2 – CD “A música de Donga”. Faixa: “Patrão, prenda o seu gado”

3 – CD “A música de Donga”. Faixa: “Pelo telefone”

4 – CD “Músicas Brasileiras”, Volume 2. Faixa: “Pinão”

5 – CD “Monarco, uma história do samba”. Faixas: “Ora vejam só” e “A malandragem”

6 – CD “Mário Reis 2 em um”. Faixa: “Se você jurar”

7 – CD “Noel Rosa e a sua turma da Vila”. Faixa: “Com que roupa?”

8 – CD “Gosto que me enrosco”. Faixa: “O que eu sinto por você”

9 – CD “Ary Barroso, o mais brasileiro dos brasileiros”. Faixa: “Aquarela do Brasil”

10 – CD “Convite para ouvir Dick Farney”. Faixa: “Copacabana”

11 – CD “Zeca Pagodinho”. Faixa: “Sapobemba e Maxambomba”

1 comment abril, 2007

Zeca Pagodinho, magrinho pacas

Por Bruno Villas Bôas

“Se eu te disser que ainda não tenho noção do que está acontecendo, tu não vai acreditar”, diz Zeca Pagodinho, magrinho e com bem menos dinheiro, em uma de suas primeiras entrevistas na televisão, em agosto de 1986. Seu primeiro disco, “Zeca Pagodinho”, tinha acabado de vender 200 mil cópias em apenas 45 dias. “Tá indo, né?!”

Nesta entrevista à Leda Nagle, do Jornal Hoje, ele fala da escola da vida (“só não me dá diploma”) e comenta a fama repentina. “Eu não esperava nada disso não. Nem estar aqui na televisão eu esperava”, diz Zeca. “Eu não sei, é legal, de repente é legal… mas, sei lá. Esse negócio de eu sair de show assim e tem que ter segurança.”

Ele fala ainda da influência da família em sua formação de sambista. “Vou dizer que profissionais não tinha nenhum, mas lá em casa qualquer coisa era motivo para ter um batuquezinho (…) É igual àquele samba, lá em casa todo mundo é bamba…”

Detalhe para a calça jeans dobrada, pescando siri, e o all-star vermelho, contrastando com a camisa amarela gema de ovo. Fora as perninhas de cambitos, de tão magro. No final, Zeca canta seu primeiro grande sucesso, o samba S.P.C., em parceria com Arlindo Cruz.

“Precisei de roupa nova
Mas sem prova de salário
Combinamos, eu pagava
Você fez o crediário
Nosso caso foi pra cova
E a roupa pro armário

E depois você quis manchar meu nome
Dentro do meu métier
Mexeu com a moral de um homem
Vou me vingar de você”

3 comments abril, 2007

Mais querido

Por Emiliano Mello

Os taxistas que me conhecem, sabem: não gosto de futebol. Cansados de ouvir que torço para a “seleção canarinho”, e somente em Copa do Mundo, não me perguntam mais sobre as rodadas do estadual. Em vez disso, começam com o calor que tem feito no Rio de Janeiro para, em seguida, maldizer a cidade por conta da violência. Só assim o papo rende. O mesmo acontece com os amigos, mas com estes a conversa é mais agradável: falamos sobre mulher, a segunda paixão nacional.

Adoro música, contudo. E ouvir o Samba Rubro-Negro (O mais querido), de Wilson Batista e Jorge de Castro – regravado por João Nogueira no disco Clube do Samba, em 1969 -, faz qualquer um sentir-se Mengo desde criancinha. Sob o batuque dos couros e das cordas, ao redor da mesa, as desavenças futebolísticas cedem lugar ao regozijo proporcionado por Nogueira e seu “samba-de-calçada”, cheio da energia das ruas, como ele próprio o definia. E todos vestem a mesma camisa.

Nelson Rodrigues que me perdôe, mas não há como ficar indiferente aos versos:

“Flamengo joga amanhã
Eu vou pra lá
Vai haver mais um baile
No Maracanã
O mais querido
Tem Zico, Adílio e Adão
Eu já rezei pra São Jorge
Pro Mengo ser campeão”

No vídeo, João Nogueira canta acompanhado dos músicos Raphael Rabello, Manuel do Cavaco e Wilson das Neves. O povo, como gostava Nogueira, participa ativamente da apresentação.

6 comments abril, 2007


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