O saber e o sublime

março, 2007 at 1:40 am 6 comentários

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Por Thales Ramos

“O samba é meu dom
Aprendi muito samba com quem sempre fez samba bom
Silas, Zinco, Aniceto, Anescar, Cachinê, Jaguarão
Zé-com-Fome, Herivelto, Marçal, Mirabeau, Henricão”

Quando Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro estipulam suas vocações para o samba e suas fontes de aprendizado em o “O samba é meu dom”, nos remetem a um tempo em que o samba se levava para a escola. “Eu usava sambas-enredo para colar na escola”, disse certa vez Beth Carvalho. A colocação tem fundamento, principalmente se a gente relembrar sambas de antigamente, como o do Império Serrano em 1949, composto por Penteado, Stanislaw Silva e o lendário Mano Décio da Viola:

“Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a 21 de abril
Pela independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A inconfidência de Minas Gerais”

Estrofe que pode responder pergunta sobre Tiradentes em qualquer prova de escola.

Quase vinte anos depois, em 1968, a Unidos de Lucas – que tem entre seus fundadores o fundamental Elton Medeiros – sob o comando do carnavalesco Clóvis Bornay apresentava o enredo O negro no Brasil ou Sublime Pergaminho, que no ano que vem será reeditado pela escola na tentativa de busca do título do grupo B. Se em 2007 três escolas do grupo especial – Porto da Pedra, Salgueiro e Beija-Flor (campeã) – tiveram a África como tema, nenhuma das três tiveram um samba-enredo tão genial e completo como o composto por Zeca Melodia, Nilton Russo e Carlinhos Madrugada para a escola de Lucas. O samba Sublime Pergaminho estravazou as fronteiras da Candelária (então passarela do samba) e entrou para a história como um dos mais belos da história. Prova disso é que mais tarde foi gravado por duas das mais importantes figuras da música brasileira: Martinho da Vila e Nara Leão.

Com pouco mais de trinta versos, a letra fala de todo o processo de escravidão no Brasil, desde a chegada dos escravos até a abolição. Um resumo genial do que foi o período da escravatura brasileira. Uma pequenina aula de história. Pra quem sabe pouco ou nada, o samba funciona como trampolim, impulsionando um desejo de mergulho mais fundo no estudo desse período da história brasileira.

“Quando o navio negreiro
Transportava os negros africanos
Para o rincão brasileiro
Iludidos com quinquilharias
Os negros não sabiam
Ser apenas sedução”

O samba começa assim, falando do método ímpio dos traficantes no transporte dos negros para o Brasil. Alguns versos depois, cita o começo da organização dos negros em busca da liberdade:

“Formavam irmandades
Em grande união
Daí nasceram os festejos
Que alimentavam os desejos de libertação”

Identifica-se o começo dos movimentos de luta, como a formação dos quilombos. Por exemplo:

“E de repente uma lei surgiu
Que os filhos dos escravos
Não seriam mais escravos do Brasil
Mais tarde raiou a liberdade
Daqueles que completassem
Sessenta anos de idade”

Nesses versos, dois momentos importantes no caminho da abolição. Primeiro cita a lei do ventre livre, onde os filhos de escravos nascidos a partir da criação da lei não seriam mais escravos. Depois, a lei sexagenária, que declarava livre o escravo que tinha mais de 65 anos.

“O sublime pergaminho
Libertação geral
A princesa chorou ao receber
A rosa de ouro papal
Uma chuva de flores cobriu o salão
E um negro jornalista
De joelhos beijou a sua mão”

Essa é uma menção ao documento manuscrito que determinava a abolição da escravatura e da princesa Isabel que assinou a Lei Áurea. O “negro jornalista” citado é José do Patrocínio uma das grandes referências do movimento abolicionista. E finaliza:

“Uma voz na varanda do Paço ecoou
Meu Deus, meu Deus
Está extinta a escravidão”.

Não sei se é porque sou negro e gosto de samba, mas é difícil conter as lágrimas ouvindo a gravação original e lendo a letra ao mesmo tempo. Imaginando o martírio, a luta e por fim a conquista de um direito óbvio que por anos foi negado. A emoção também é muito em função do que se observa da situação do negro hoje, se a abolição chegou há dois séculos atrás,a maioria dos negros ainda vivem sob o ranço de senzala e quem tem o poder, ainda se impõe tal qual senhores de engenho, usando outros tipos de chicote.

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6 Comentários Add your own

  • 1. Andréa N.  |  março, 2007 às 1:04 pm

    Obrigada pelo convite, Thales. Excelente post e adorei o blog inteiro. Já está na minha lista de favoritos. Voltarei mais. Abraços.

    Responder
  • 2. Elis*  |  março, 2007 às 2:44 pm

    Nossa…que delícia de blog…
    Prometo voltar e ler tudin com calma…
    Saudades…
    beijinhus*

    Responder
  • 3. Marbel Araújo  |  março, 2007 às 5:48 pm

    O site já nasceu, agora tem vida e tudo que tem vida tem suas fases, a fase do negro ainda parece ser o período de um nascimento de um bebe, já se foram anos em submeter aos negros a mercadoria e serviços obrigados, a viver a margem da sociedade, a viver em um único lugar, que foi chamado de senzala e ainda vejo, mesmo diante do crescimento da tecnologia, que o crescimento intelecto do ser humano em viver em sociedade ainda não cresceu o sufiente para o basta a indeferença, basta a ignorância, basta eu só não vou viver sem o basta do verdadeiro SAMBA.
    Vamos sair dessa fase!
    Seu dom é ser indiferente?
    Samba é o meu dom!
    Qual é o seu dom?

    Forte abraço grande e eterno Thales Ramos

    Responder
  • 4. Cláudio Pedrosa  |  maio, 2007 às 6:10 pm

    Adorei o blog e principalmente este post. gostei tanto que vou usá-lo como referência bibliográfica no meu projeto de doutorado. Texto Sólido e muito apropriado para desconstruir o mito racista do “crioulo doido”… plantado na história do samba por um jornalista (branco) que usava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Nada contra o humor do jornalista, mas também nada a favor de se negligenciar o nosso saber sublime.

    Responder
  • [...] O saber e o sublime, sobre o samba-enredo “O negro no Brasil” da Unidos de Lucas. [...]

    Responder
  • 6. Raquel Andere  |  março, 2011 às 6:59 pm

    Realmente, este samba e’ maravilhoso! Assim como tambem e’ o samba do Imperio Serrano “Herois da Liberdade”.
    Coloquei este samba da Unidos de Lucas, que tenho em arquivo, para tocar, enquanto lia este artigo…confesso que chorei!!!!!
    Tenho 40 anos e muitas saudades dos sambas que possuiam conteudo historico, critico e poetico.
    Salve! Salve! A todos os que valorizam o velho e bom samba!!!!

    Responder

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