Archive for março \30\UTC 2007

Leopoldina leopoldinense

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Por Thiago Dias

Voltando aos sambas de enredo que eu gosto e quase ninguém fala: “Imperatriz Leopoldinense Honrosamente Apresenta Leopoldina, a Imperatriz do Brasil”.

Só esta obra e o “Verás que um filho teu não foge à luta” do Império Serrano ganharam nota 10 dos cinco jurados no desfile de 1996. Merecidos.

Em dois versos (“Atravessou o mar / Temendo a invasão a Portugal”), os compositores Jurandir, Dominguinhos do Estácio, Demarco e Carlinhos China já resumem a história da chegada da família real ao Brasil em 1808.

Parênteses: os 200 anos da chegada da família real ao Brasil deverão servir como tema único dos enredos das escolas do grupo de acesso em 2008.

Voltando à Imperatriz. Sempre criticada por ter sido campeã nos anos 90 com sambas fracos, em 1996 arrebentou na música e acabou em segundo lugar, perdendo para a Mocidade (“Criador e Criatura”, do “a mão que faz a bomba”).

Com a frase “O tempo passou, D. Pedro precisava se casar” o samba dá um pulo até 1817, quando o imperador casou com a imperatriz Leopoldina.

A letra é simples, mas conta detalhe por detalhe da chegada da austríaca ao Brasil. O casamento por procuração em Viena, os presentes de D. Pedro, a longa viagem de navio (“E de lá pra cá / Só céu e mar … Esperança”) e a sua participação no processo da independência.

O refrão, faz duplo sentido: “A Leopoldina é imperatriz”. Pode ser sobre a esposa de D. Pedro, que tornou-se imperatriz, ou sobre a região da escola de Ramos. Lindo, mas esquecido.

Baixe aqui o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense de 1996

Clique aqui para a letra do samba

3 comments março, 2007

Guinga lança CD e fala do samba na alma

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Por Thales Ramos e Emiliano Mello
Foto de Bruno Villas Bôas

Num pique de menino, Guinga corre do calçadão da praia do Leblon até a beira do mar em poucos segundos, debaixo de um sol escaldante de domingo. O pessoal do blog O Samba, cansado só de olhar, tenta acompanhar o ritmo. Depois de alguns minutos, ele sai do mar e pergunta ao fotógrafo: “Pode tirar foto assim, sem camisa?” Pode sim. E ele segue para uma série nas barras paralelas, parte de sua rotina. Guinga é um sujeito simples e é também um grande sujeito.

Clique aqui para ler a entrevista completa

“Sou o rei da rotina. Jogo futebol cinco vezes por semana, sempre”. E lá se vão dezesseis anos desde que Guinga entrou em campo e lançou o seu primeiro álbum. De “Simples e Absurdo” a “Casa de Villa”, seu novo trabalho, ele acumulou os melhores adjetivos e deixou estupefatos, perplexos, de orelha em pé os que tiveram a sorte de provar da sua obra. Se no dia-a-dia a rotina é rígida e de poucas mudanças, em sua obra a única repetição é a do arrebatamento que provoca. Em uma arena de diversidade musical, que é a música brasileira, Guinga paquera todos os gêneros, com diferentes cantadas.

Nas parcerias, ele age como aquele craque altruísta, que joga pro time. Que apesar de consagrado, valoriza os mais novos e põe muita gente na cara do gol. Se antes as tabelas eram constantes com Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, agora também triangula com gente nova como Edu Kneip, Simone Guimarães e Mauro Aguiar. Em “Casa de Villa”, ele abre o repertório de jogadas e, como canhoto arisco das peladas, rabisca sua primeira letra em “Maviosa”. E faz um disco mais “nu”, mais próximo do que é sua performance ao vivo. Compõe mais para sua voz e chama a responsa das suas canções. Como como aquele camisa 10 que enche os olhos, diz: “Agora é comigo”.

Nesta entrevista, o blog O Samba desnuda o craque do violão que, tal qual aquele moleque matreiro que desponta aqui no futebol, já enche os olhos dos europeus. Futucamos a carreira de Guinga desde as divisões de base, quando começou a jogar ao lado de Cartola, João Nogueira, Nelson Cavaquinho e Candeia. Mas não fica só aí. Ele dá seu parecer sobre a situação cultural brasileira (sobretudo a carioca), prevê o “Caverna Família” e fala meio que encabulado do deslumbre do velho continente por sua música. Inclusive é de lá, mais precisamente da Espanha, que surgem os preparativos para o lançamento do seu primeiro DVD.

Exaltar a riqueza da obra desse gênio é o óbvio a se fazer. Sendo assim, a gente libera o mural para ele deixar um recado e dizer a que veio: “Eu quero é divulgar minha obra. Eu to aí.”

3 comments março, 2007

Coisas de Noel, os dois

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Por Thiago Dias

O vídeo de Noel Rosa do post abaixo me fez lembrar de uma música pouco comentada dele, mas que eu acho a mais bonita: “Quando o samba acabou”.

Antes, um parênteses. Quando escuto o nome Noel Rosa, duas pessoas vêm à minha cabeça: o Noel da Vila Isabel e o Noel Rosa de Oliveira, compositor ilustre do Salgueiro e puxador da escola por muitos anos. São dele, por exemplo, os antológicos “Quilombo dos Palmares” e “Chica da Silva”, campeões dos carnavais de 1960 e 1963. Feita a justiça à sua memória, voltemos a falar do Noel Rosa mais famoso.

“Quando o samba acabou” é um exemplo perfeito do tipo de música que eu gosto: conta, verso a verso, uma história, com começo, meio e fim. Como um bom samba-enredo. “Sublime Pergaminho”, já citado algumas vezes por aqui, é assim, diz tudo que um livro demora 700 páginas para dizer.

No seu samba, Noel nos apresenta Rosinha, uma cabrocha da Mangueira dividida pelo amor de dois malandros. O final é trágico, mas a doçura da moça permanece.

Daria um livro, um filme, uma novela. Em poucos versos, uma história. Fecho os olhos e vejo Rosinha, o embate entre os malandros no partido alto, o desespero do perdedor, a cruz no alto do morro.

O simples, que diferencia o gênio dos outros. Coisas de Noel. Os dois, claro.

Clique aqui para letra de “Quando o samba acabou”

Clique aqui sobre a história de Noel Rosa de Oliveira

E clique aqui para a letra de Quilombo dos Palmares.

3 comments março, 2007

O saber e o sublime

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Por Thales Ramos

“O samba é meu dom
Aprendi muito samba com quem sempre fez samba bom
Silas, Zinco, Aniceto, Anescar, Cachinê, Jaguarão
Zé-com-Fome, Herivelto, Marçal, Mirabeau, Henricão”

Quando Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro estipulam suas vocações para o samba e suas fontes de aprendizado em o “O samba é meu dom”, nos remetem a um tempo em que o samba se levava para a escola. “Eu usava sambas-enredo para colar na escola”, disse certa vez Beth Carvalho. A colocação tem fundamento, principalmente se a gente relembrar sambas de antigamente, como o do Império Serrano em 1949, composto por Penteado, Stanislaw Silva e o lendário Mano Décio da Viola:

“Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a 21 de abril
Pela independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A inconfidência de Minas Gerais”

Estrofe que pode responder pergunta sobre Tiradentes em qualquer prova de escola.

Quase vinte anos depois, em 1968, a Unidos de Lucas – que tem entre seus fundadores o fundamental Elton Medeiros – sob o comando do carnavalesco Clóvis Bornay apresentava o enredo O negro no Brasil ou Sublime Pergaminho, que no ano que vem será reeditado pela escola na tentativa de busca do título do grupo B. Se em 2007 três escolas do grupo especial – Porto da Pedra, Salgueiro e Beija-Flor (campeã) – tiveram a África como tema, nenhuma das três tiveram um samba-enredo tão genial e completo como o composto por Zeca Melodia, Nilton Russo e Carlinhos Madrugada para a escola de Lucas. O samba Sublime Pergaminho estravazou as fronteiras da Candelária (então passarela do samba) e entrou para a história como um dos mais belos da história. Prova disso é que mais tarde foi gravado por duas das mais importantes figuras da música brasileira: Martinho da Vila e Nara Leão.

Com pouco mais de trinta versos, a letra fala de todo o processo de escravidão no Brasil, desde a chegada dos escravos até a abolição. Um resumo genial do que foi o período da escravatura brasileira. Uma pequenina aula de história. Pra quem sabe pouco ou nada, o samba funciona como trampolim, impulsionando um desejo de mergulho mais fundo no estudo desse período da história brasileira.

“Quando o navio negreiro
Transportava os negros africanos
Para o rincão brasileiro
Iludidos com quinquilharias
Os negros não sabiam
Ser apenas sedução”

O samba começa assim, falando do método ímpio dos traficantes no transporte dos negros para o Brasil. Alguns versos depois, cita o começo da organização dos negros em busca da liberdade:

“Formavam irmandades
Em grande união
Daí nasceram os festejos
Que alimentavam os desejos de libertação”

Identifica-se o começo dos movimentos de luta, como a formação dos quilombos. Por exemplo:

“E de repente uma lei surgiu
Que os filhos dos escravos
Não seriam mais escravos do Brasil
Mais tarde raiou a liberdade
Daqueles que completassem
Sessenta anos de idade”

Nesses versos, dois momentos importantes no caminho da abolição. Primeiro cita a lei do ventre livre, onde os filhos de escravos nascidos a partir da criação da lei não seriam mais escravos. Depois, a lei sexagenária, que declarava livre o escravo que tinha mais de 65 anos.

“O sublime pergaminho
Libertação geral
A princesa chorou ao receber
A rosa de ouro papal
Uma chuva de flores cobriu o salão
E um negro jornalista
De joelhos beijou a sua mão”

Essa é uma menção ao documento manuscrito que determinava a abolição da escravatura e da princesa Isabel que assinou a Lei Áurea. O “negro jornalista” citado é José do Patrocínio uma das grandes referências do movimento abolicionista. E finaliza:

“Uma voz na varanda do Paço ecoou
Meu Deus, meu Deus
Está extinta a escravidão”.

Não sei se é porque sou negro e gosto de samba, mas é difícil conter as lágrimas ouvindo a gravação original e lendo a letra ao mesmo tempo. Imaginando o martírio, a luta e por fim a conquista de um direito óbvio que por anos foi negado. A emoção também é muito em função do que se observa da situação do negro hoje, se a abolição chegou há dois séculos atrás,a maioria dos negros ainda vivem sob o ranço de senzala e quem tem o poder, ainda se impõe tal qual senhores de engenho, usando outros tipos de chicote.

4 comments março, 2007

Bando de Tangarás

Por Emiliano Mello

Noel começou a carreira no Bando de Tangarás, grupo formado por Almirante, Braguinha (João de Barro), Alvinho e Henrique Brito, em 1929. O compositor ia em 18 anos quando se juntou à turma. Era o mais jovem dos cinco músicos. Apesar da tenra idade, já gozava da fama de excelente violonista no bairro de Vila Isabel, Zona Norte no Rio de Janeiro.

Importante dizer que desde os catorze anos, pelo menos, freqüentava a boemia carioca. Começou tocando bandolim, ensinado por sua mãe, e passou ao violão, instrumento de seu pai. Um talento e tanto nas cordas. Com o Bando, ainda em 29, apresentou ao público “Na Pavuna”, primeiro samba gravado com instrumentos de percussão.

Neste vídeo raro, Noel, Braguinha, Almirante, Alvinho e Henrique Brito tocam “Vamos Falla do Norte”. Almirante é quem canta. Observe Noel Rosa afinando o violão no meio da música. O registro é de verter lágrima.

Em tempo: Tangará é o nome de um pássaro alegre e de canto muito bonito que, em grupo de cinco, costuma se reunir para cantar e dançar. A lenda diz que seu canto é tão melodioso que quando ele começa a cantar, os outros pássaros param para ouvi-lo.

2 comments março, 2007


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