Paulo e Tom
fevereiro, 2007 at 4:02 am 1 comentário

Por Bruno Villas Bôas (*)
O telefone da casa de Paulo César Pinheiro tocou. “Alô?! Quem fala?! Paulo?! É o Tom, Tom Jobim”. Era realmente o compositor, que poucos meses antes gravara um bem-sucedido álbum com Frank Sinatra, em Los Angeles. “Eu tenho umas idéias musicais aqui, coisa de mateiro. Gostaria de uma ajuda sua.”
Já um consagrado letrista e parceiro de Baden Powell (com quem fez Vou deitar e rolar, Samba do perdão e Aviso aos navegantes, todas gravadas por Elis Regina), Paulo César Pinheiro conta que não titubeou: “Claro que eu disse que sim… Juntei a fome com a vontade de comer! Não tinha outra resposta.”
Tom se disse “louco, maluco” com uma música de Paulo César Pinheiro chamada Sagarana, parceria com João de Aquino. A letra era uma homenagem aberta a Guimarães Rosa, mundo literário no qual Tom começava a imergir. “Fui à casa dele e ele me mostrou o rascunho de Matita Perê”.
O letrista lembra que Tom cantarolou ao piano e sugeriu algumas frases que havia pescado durante a composição. Deixou claro que eram apenas idéias e que o novo parceiro poderia aproveitar apenas o que quisesse. Era uma música de oito minutos, mais próxima de uma sinfonia do que de música popular.
“Pensei: essa não vai tocar no rádio”, brinca PC Pinheiro. “Foi difícil, mas consegui fazer a letra, aproveitando aquelas frases soltas. Matita Perê é uma ave. Daqui de onde moro, perto da Lagoa de Marapendi, às vezes escuto o som delas. Incrível, né?! Elas ainda existem aqui.”
Jobim aprofundou-se no tema e tornou-se uma dos primeiros defensores da Mata Atlântica, em uma época que mal se conhecia o tema ecologia. Tom gostou tanto da música “da mata” que tomou essa fase inteira para si, inclusive as letras. Praticamente deixou de fazer parcerias.
* Originalmente publicada no Jornal do Commercio
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1.
Fernando | março, 2007 às 2:38 pm
Grande poeta Paulinho Pinheiro. Benção!