Archive for fevereiro, 2007
Muita nota no chorinho
Por Bruno Villas Bôas
Sambista Adoniran Barbosa em anúncio da caderneta de poupança do Unibanco. “Eu já botei muita nota no chorinho / Mas quem gasta muita nota fica falando sozinho”. Não consta o ano do anúncio. Esse vídeo publicado no YouTube por studiobrazil.
Escolas de samba. Samba
Por Thiago Dias
O resultado do último desfile no Rio me faz lembrar que até pouco tempo atrás eu lamentava a derrota da escola que tinha o melhor samba – pelo menos para mim. Hoje, com o baixo nível das obras cantadas na avenida e o excesso de luxo e alegorias, a revolta vem quando o carnavalesco mais criativo perde para os mais mais burocráticos.
Escola de samba é de samba, não de carros. As fantasias e alegorias são jogadas fora, o samba fica. Para sempre.
O nariz-de-cera é para começar a divagar sobre sambas que vira e mexe estão no meu assobio, e às vezes eu nem lembro o ano. O desse post é um que meu amigo Luis, conhecido como Lulu, um dia me cantarolava emocionado na estrofe:
Eu sei que faço seu corpo arrepiar
Eu sei que você não vai sem me ver passar
Eu já vi você chorar
Na hora do meu desfile encerrar
É de arrepiar. Portela, 1991, “Tributo à vaidade”. Olha que o Lulu nem é portelense, é Mocidade. Eu, muito menos: sou União da Ilha. Mas esses versos são perfeitos: ninguém deixa a Sapucaí sem ver a maior campeã; muitos já choraram, como eu.
Lembro que os homens da Velha Guarda da Portela tinham um pouco de implicância com esse samba por ser todo no feminino. O enredo era sobre vaidade e a solução mágica encontrada pelos compositores Carlinhos Madureira, Café da Portela e Iran Silva foi contar as glórias da própria escola, mais vaidosa do que nunca.
Há outros versos marcantes e próprios, como “Eu sou e sei que sou / Mais fascinante, deslumbrante, mais amor”, e o samba acaba com “Posso perder, posso ganhar, isso é normal”. Uma mensagem esportiva, que não combina com os resultados duvidosos de hoje em dia.
Tributo à vaidade
(Carlinhos Madureira, Café da Portela e Iran Silva)
Eu sou vaidosa
Eu sou assim
Vaidade não tem preço
Mas eu tenho o seu apreço
Pois você gosta de mim
Eu sei que faço seu corpo arrepiar
Eu sei que você não vai sem me ver passar
Eu já vi você chorar
Na hora do meu desfile encerrar
Perguntei ao espelho meu
Qual delas é mais linda do que eu ?
Ele então me respondeu
Mais linda do que eu só eu
O meu azul veio lá do infinito
O meu canto é mais bonito
Salve Oswaldo Cruz e Madureira
Me chamam celeiro de bamba
A Majestade do Samba
Da velha-guarda formosa e faceira
Eu sou e sei que sou
Mais fascinante, deslumbrante, mais amor
Bem sei que você aprova
Pois meu visual comprova
Eu sou luxo e esplendor
Olha eu aí, cheguei agora
Cheguei pra levantar o seu astral
Posso perder, posso ganhar, isso é normal
Vinte e uma vezes campeã do carnaval
Acadêmicos do Peruche

Por Bruno Villas Bôas
Um amigo cantarolou outro dia o samba-enredo da Unidos de Lucas de 1968, um clássico chamado Sublime Pergaminho (Zeca Melodia, Nilton Russo e Carlinhos Madrugada). ”Uma voz na varanda do paço ecoou:/Meu Deus, meu Deus/Está extinta a escravidão”. Foi gravado por Martinho da Vila depois etc.
Lembrei de um outro samba, feito por um dos fundadores da Unidos de Lucas, só que a letra não veio à tona. Hoje, o próprio autor, Marco Aurélio Guimarães (Jangada), me ditou a letra. Com sutileza, o samba afirma que a Independência do Brasil não ocorreu em 1822, mas em 1888, com o fim da escravidão, quando finalmente “Colheu-se o ideal/No germe da semente/Todo homem é igual”. Eis a letra
Duas páginas
Samba-enredo da Acadêmicos do Peruche, carnaval de 1972, em São Paulo
(Jangada e Silvio Modesto)
Oh, quem vem lá
Divina claridade
Igual não há
É a deusa da liberdade
De Portugal
Vejo rolar pelo chão
Vencido por um ideal
O glorioso brasão
Nas margens do Ipiranga
Jogou-se a sorte
Partiu-se a canga
Independência ou morte
Ô ô ô ô ô ô
No ano de 1888
Um novo sol brilhou no céu
Foi extinto o cativeiro
Pela redentora Isabel
E, finalmente
Colheu-se o ideal
No germe da semente
Todo homem é igual
Oh quem vem lá
Paulo e Tom

Por Bruno Villas Bôas (*)
O telefone da casa de Paulo César Pinheiro tocou. “Alô?! Quem fala?! Paulo?! É o Tom, Tom Jobim”. Era realmente o compositor, que poucos meses antes gravara um bem-sucedido álbum com Frank Sinatra, em Los Angeles. “Eu tenho umas idéias musicais aqui, coisa de mateiro. Gostaria de uma ajuda sua.”
Já um consagrado letrista e parceiro de Baden Powell (com quem fez Vou deitar e rolar, Samba do perdão e Aviso aos navegantes, todas gravadas por Elis Regina), Paulo César Pinheiro conta que não titubeou: “Claro que eu disse que sim… Juntei a fome com a vontade de comer! Não tinha outra resposta.”
Tom se disse “louco, maluco” com uma música de Paulo César Pinheiro chamada Sagarana, parceria com João de Aquino. A letra era uma homenagem aberta a Guimarães Rosa, mundo literário no qual Tom começava a imergir. “Fui à casa dele e ele me mostrou o rascunho de Matita Perê”.
O letrista lembra que Tom cantarolou ao piano e sugeriu algumas frases que havia pescado durante a composição. Deixou claro que eram apenas idéias e que o novo parceiro poderia aproveitar apenas o que quisesse. Era uma música de oito minutos, mais próxima de uma sinfonia do que de música popular.
“Pensei: essa não vai tocar no rádio”, brinca PC Pinheiro. “Foi difícil, mas consegui fazer a letra, aproveitando aquelas frases soltas. Matita Perê é uma ave. Daqui de onde moro, perto da Lagoa de Marapendi, às vezes escuto o som delas. Incrível, né?! Elas ainda existem aqui.”
Jobim aprofundou-se no tema e tornou-se uma dos primeiros defensores da Mata Atlântica, em uma época que mal se conhecia o tema ecologia. Tom gostou tanto da música “da mata” que tomou essa fase inteira para si, inclusive as letras. Praticamente deixou de fazer parcerias.
* Originalmente publicada no Jornal do Commercio
Na Gamboa

Por Bruno Villas Bôas
Do balcão de seu boteco, na Gamboa, Nilson aponta para o alto de uma velha geladeira, marca Continental, onde está a bem lustrada taça de 1º lugar do Campeonato Sinuca da Lapa. Enquanto lava e seca, sem muita atenção, um copo de vidro de cerveja, ele conta como venceu o campeonato de um dos mais tradicionais salões de bilhar da cidade: “Paulinho da Viola bem que se esforçou, mas eu sou bom mesmo nesse negócio.”
Nilson serve as mais geladas cervejas da Zona Portuária do Rio de Janeiro. Magro, de óculos e bigode, geralmente sério, ele atende diariamente de jornalistas a estivadores. Seu estabelecimento, localizado ao lado da antiga fábrica da Colombo, tem uma modesta mesa de sinuca, amplamente disputada pelos freqüentadores. “O campeonato, lá na Lapa, é muito difícil. Tem muita gente boa. E eles usam bolas levinhas, daquelas que espalham muito”, explica.
Diariamente desafiado a entrar nas longas rodadas de sinuca, normalmente vencidas pelo baixinho bigodudo, ele prefere permanecer atrás do balcão de seu bar. Serve joelho, sanduíche de mortadela, ovo cozido. O “Bar do Nilson”, como é conhecido na Gamboa, é um exemplo de boteco tradicional da cidade, assim como o Português, na Rua Antônio Lage, também na Gamboa.
Lá o risoto de camarão e o churrasquinho, acompanhado de arroz, batata e farofa, estão entre os pratos prediletos dos fregueses. O dono é português e, claro, vascaíno.
Mas os cariocas estão trocando os bares tradicionais, com suas histórias e curiosidades, pelos falsos botecos da cidade. O crescimento da rede Devassa é um exemplo disso. As gracinhas do cardápio, como “quantas devassas você pega em três horas”, fazem parte de um novo perfil pasteurizado da boemia carioca. É como a Veneza construída dentro de um hotel em Las Vegas. Ou como o templo egípcio instalado dentro do museu Metropolitan, em Nova Iorque. O Nova Capela, tradicional na Lapa, anda vazio.
O jornalista Joaquim Ferreira dos Santos vendeu recentemente, em sua coluna, que “ser carioca” é comer sardinha frita em Bonsucesso, ou coisa do gênero. Não é essa a questão. O historiador Antônio Edmilson Martins Rodrigues, autor de biografia sobre João do Rio, explica que o “ser carioca” não está relacionado ao lugar que se freqüenta, mas o que o leva a freqüentar. E o que leva o carioca a freqüentar o Devassa? E como “ser carioca” também é não discutir o que é “ser carioca”, assunto absolutamente chato, termino aqui esse textinho bobo sem apresentar absolutamente nenhuma conclusão.



