Parafuso na cabeça

Caderninho, caneta roída na ponta, gravador de fita e máquina fotográfica no lombo.

O blog está na rua. Segue para uma entrevista com um personagem sensacional.

Tão logo pronta, entra no ar.

Semana próxima.

Você se surpreenderá, meu chapa.

Alguma idéia de quem seja?

Add comment Julho, 2008

No samba, Silva é sinônimo de realeza

POR THALES RAMOS

Silva é certamente o sobrenome mais popular brasileiro. E por isso mesmo, há quem o renegue. Observe entre os seus conhecidos: quem tem Silva e mais um sobrenome sempre opta pelo outro na assinatura. Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, um dos maiores treinadores do futebol brasileiro, é “da Silva”. Em rápida pesquisa na maravilha do Google, vi que tanto na Espanha como em Portugal, o nome era de família abastada. Também vi que no Império Romano recebia-o as famílias que moravam em cidades na selva (silva quer dizer selva, em italiano).

No Brasil, também não foi diferente. Os portugueses que aqui desembarcavam recebiam mais um sobrenome. Sendo assim, os que ficavam pelo litoral eram acrescidos do Costa e os que optavam pelo mato, o Silva. Posteriormente o nome foi bastante difundido pelos escravos, já que eles recebiam os nomes de seus senhores.

Continuando por aqui, temos Silvas famosos, incluindo o atual presidente, que não foi o primeiro. Antes do operário do ABC, o militar Costa e Silva subiu a rampa do planalto em 1967. Ayrton Senna também era “da Silva”, assim como Lampião e a escrava Xica, que virou filme, enredo do Salgueiro (1963) e hit de Jorge Benjor.

No samba temos um quarteto de ouro que leva Silva na assinatura. Ao contrário do lugar-comum do sobrenome, todos eles são pioneiros, únicos e geniais. Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra têm estilos diferentes e em comum - fora o sobrenome – a marca que cada um deixou na história.

Ismael Silva tinha como reduto o morro do Estácio. Um dos mais influentes sambistas da história é tido por muitos (há controvérsias) como o fundador da primeira escola de samba, a Deixa Falar, e é um dos principais responsáveis pela assimilação da cultura das escolas e do próprio gênero pelas classes financeiramente superiores. A levada do samba que conhecemos hoje tem forte contribuição de Ismael. Sua célebre frase: “No estilo antigo, o samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar assim na rua? Aí a gente começou a fazer um samba assim: bumbum paticumbumpruburundum”, serviu de inspiração para Beto Sem-Braço e Aluisio Machado comporem “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, para o Império Serrano, campeã do carnaval de 1982.

Contemporâneo de Ismael, Moreira da Silva foi o maior representante do samba de breque. Tinha fama de malandro e boêmio, mas sempre foi casado com a mesma mulher e dizia que dormia cedo. Talvez por isso tenha vivido quase cem anos (malandragem, de fato). Também era conhecido como Kid Morengueira, personagem que incorporou em alguns dos seus sucessos como “O Rei do gatilho” e “Os intocáveis”. Em “Acertei no milhar”, música que ele conta a história do malandro que fica milionário no jogo do bicho, ele dá uma “renegada” no sobrenome: “Eu vou comprar um nome não sei onde/de Marquês Morengueira de Visconde”. Era um showman.

A maior voz dos quatro Silvas, Roberto ficou conhecido como o “Príncipe do Samba” e cantava samba sincopado. Com mais de 300 discos gravados, teve muito sucesso na época de ouro do rádio, tendo feito parte do elenco das rádios Tupi e Nacional. Hoje, infelizmente, não grava mais. O último disco de Roberto data de 2002 e o penúltimo de 1979.

Na carência de bons novos intérpretes masculinos, reviver nomes como Roberto Silva não seria má idéia. Ouçam a série de discos “Descendo o morro”, são quatro volumes onde o eco da voz de Roberto o confirma como uma das mais belas vozes do samba. Em entrevista recente ao nosso jornal O SAMBA É MEU DOM, Paulinho da Viola disse: “O maior sambista vivo é Roberto Silva”, assim, de alteza para alteza.

Por fim, Bezerra da Silva fazia um samba repleto de duplo sentido, crítico e bem humorado. Samba para se ler nas entrelinhas. Suas letras eram compostas pelo cidadão que vivia o dia-a-dia da favela e das classes menos abastadas e tinham a maestria de traduzir as agruras diárias de forma crítica e engraçada. E Bezerra era o porta-voz dessa gente; ele mesmo, sempre ferino, um dos maiores críticos da indústria fonográfica. Infelizmente, não deixou sucessor. E pior, tem sido pouco cantado nas rodas de samba. Talvez a força da ironia de suas letras intimide alguns puristas.

De linhas tão diferentes, marcantes e especiais, todos os quatro comprovam que há samba para todos os gostos.

Ismael, Moreira, Roberto e Bezerra, qual dos Silva lhe apetece mais?

* * * *
Vejam também:

Roberto Silva com a xará (e bijou) Roberta Sá cantando Falsa Baiana (Geraldo Pereira)

Trecho do curta “Onde a Coruja Dorme”, de Márcia Derraik e Simplício Neto, sobre Bezerra da Silva.

3 comments Julho, 2008

Melodia viva

Obrigado, Aroldo. Segura a marimba!

Ouça em nosso player ao lado a canção “Azul, vermelho e branco”.
Aroldo Melodia deixará saudades.

POR EQUIPE O SAMBA

Add comment Julho, 2008

Terreiro Grande, maior ainda nos cinemas

POR THALES RAMOS E BRUNO VILLAS BOAS

Uma das maiores novidades do samba em 2007, os paulistas do Terreiro Grande terão seu trabalho reconhecido nas telas do cinema. O responsável pelo projeto, Zeca Buarque Ferreira, espera que até o final do ano o documentário sobre o grupo já esteja finalizado.

O cineasta, que foi assistente de direção de Nelson Pereira dos Santos e Hugo Carvana, e atualmente produz uma série de videos sobre o movimento Sem Terra, teve seu primeiro contato com os sambistas por conta do primeiro show deles com Cristina Buarque, sua mãe. “Quando fomos fazer o lançamento do cd, no Teatro FECAP (SP), resolvi começar a rodar o documentário, mesmo sem dinheiro. Sabia que o que teríamos ali, jamais se repetiria”.

A pré-produção do disco “Cristina Buarque e Terreiro Grande - Ao vivo” foi importante na concepção do filme. O trabalho foi fruto da cessão do áudio do show pela FECAP. A alta qualidade do som foi o estalo para a idéia do cd. “Com esse material nas mãos, comecei a correr atrás para garantir a produção do disco. Nesse processo fui conhecendo melhor as pessoas e a história do Terreiro Grande”, explica Zeca, garantindo que sua praia é o cinema, não a música.

Por enquanto, ele já tem 15 horas de gravação no balaio e mais algumas por filmar. As imagens mostrarão os bastidores do grupo e a expectativa em torno do primeiro show, além do cotidiano dos integrantes do Terreiro Grande, o show na Ilha de Paquetá (RJ) e uma entrevista com Cristina. A parte musical – que o diretor promete ser intensa - foca menos no show e mais nas rodas. Decisão acertada, já que o potencial do grupo é justamente esse, ao vivo e sem microfones. “Quero colher mais imagens do dia a dia deles, ambientes de trabalho e claro, mais rodas de samba”.

Como todo cineasta brasileiro, Zeca anda esbarrando na falta de apoio financeiro para seu projeto. Mas tem conseguido alguns apoios no peito e na raça, embora também ponha algum do bolso. Através de algumas produtoras (DGT Filmes e Quero-Quero Filmes), conseguiu equipamento. Com três câmeras emprestadas, filmou o show que pode render um dvd ou um programa de tv. Fora isso, agregou uma equipe técnica que vai da fotografia até a finalização, que abraçou o projeto.

Ele agora corre atrás das leis de incentivo para mais financiamento, assim poderia inclusive se dedicar mais ao filme que, por enquanto, lhe toma apenas as horas vagas. “Eu acho o Terreiro Grande um dos fenômenos mais interessantes e ricos da cultura brasileira em muito tempo. Estou tentando via leis de incentivo, editais etc. Vamos ver se alguém se interessa.”

3 comments Junho, 2008

Divas de lá e de cá

POR EMILIANO MELLO

Fala-se bastante desta nova geração de cantoras que têm no samba a grande fonte de inspiração. Talvez uma das mais talentosas seja Teresa Cristina, sobre quem Monarco chegou a declarar que “essa menina é coisa muito nossa, é coisa séria”. Claro que o leitor está livre para discordar. A lista é grande, e inclusive já fizemos uma enquete aqui no blog sobre o assunto.

A formação destas cantoras passa invariavelmente pelas rodas de samba informais espalhadas pelos subúrbios e comunidades Brasil adentro. O caminho é mais ou menos o mesmo: freqüentam rodas e mesas como espectadoras no início, em seguida arriscam canções nos intervalos, suas vozes conquistam os bambas, ganham moral e seguem carreira.

Há outra frente menos conhecida, no entanto. São as brasileiras que fazem carreira no exterior, cantando em pequenos pubs, em tímidas reuniões de amigos até chegarem aos grandes palcos. Consolidadas lá fora, voltam à antiga colônia fazendo o velho caminho dos conquistadores ultramarinos de antanho. Cá, passam a trilhar os pequenos palcos, nem sempre receptivos às “forasteiras”. Muitas sequer conseguem espaço no Brasil e retornam. Poucas brilham.

As jovens cantoras Céu e Mariana Aydar fazem parte do grupo das que foram bem recebidas de volta ao País. Apesar da formação - tanto social quanto profissional - bem diferente das suas conterrâneas, as damas têm em comum a música brasileira (sobretudo o samba) como inspiração e alicerce sobre os quais constroem suas carreiras.

Mariana é formada pela renomada Berklee College of Music e lançou seu primeiro disco, “Kavita 1”, em 2006. O álbum foi produzido por BiD – do clássico “Afrociberdelia”, do Chico Science & Nação Zumbi (um dos discos mais importantes da década de 90) e Duani, multinstrumentista do Forróçacana. A ligação de Mariana com a música brasileira vem de berço, através da sua mãe, a produtora Bia Aydar. As parceirias com João Donato, Leci Brandão, Chico César e Seu Jorge mostram que a moça sabe onde pisa. Atualmente, Mariana se divide entre os shows do primeiro disco e as pesquisas para o segundo trabalho.

Céu começou cantando em casas noturnas de Nova York e chegou a compor trilha para o cinema (Cidade Baixa, de Sérgio Machado). Em 2005, foi convidada para participar do JVC Jazz Festival, em Paris, onde acabou fincando residência. No mesmo ano, lançou seu disco de estréia, “Céu, La promesse du Brésil”(independente), na Europa. Não demorou para ser fisgada pela major Warner, que o lançou em seguida aqui. Produzido por Antonio Pinto (da trilha de “Cidade de Deus”), o disco mescla composições próprias com interpretações bem particulares, como em “O ronco da cuíca” (João Bosco e Aldir Blanc). Ano passado chegou ao posto mais alto da Billboard americana, feito somente alcançado por Astrud Gilberto em 1963, com “Garota de Ipanema”.

Mariana e Céu fazem parte da geração criada sem preconceitos musicais, que vê a música como arte universal, livre das amarras de estilos, rótulos, fronteiras e guetos. Seus trabalhos mesclam o tradicional ao moderno, com delicadeza, sem agressão aos estilos. Trabalham com a sutileza inerente às mulheres, sem medo de experimentar. O resultado é música para os ouvidos.

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Veja aqui o dueto entre Céu e Mariana Aydar. Música: “Mais um lamento” (Céu/Danilo Moraes).

Veja aqui Mariana Aydar, Marcelo D2 e Mr Catra cantando “Zé do Caroço” (Leci Brandão), brincando numa versão funk.

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E você, o que acha? O samba não deve ser mexido? Dê sua opinião ali embaixo nos comentários.

6 comments Junho, 2008

Fiel, rabugento, irreverente e imortal

POR THALES RAMOS

Jamelão foi um dos maiores cantores de samba de todos os tempos. O maior intérprete -ele não admitia ser chamado de puxador- de sambas-enredo de todos os tempos, o mais antigo. O mais fiel. Neguinho da Beija-Flor também é fiel, no entanto, Jamelão tem mais tempo de fidelidade.

Já escutei dizer, mas não confirmei, que Jamelão teria puxado samba em outra escola em um carnaval. Mas um homem que em mais de cinqüenta anos de relação, dorme uma só noite fora de casa, não pode ser chamado de infiel. Foram 57 anos de amor à Mangueira. Talvez por isso, no carnaval de 99, ele não teria deixado um “intruso” deitar em sua cama. Nesse ano, a Mangueira desfilaria com o enredo “O século do samba”. Alexandre Pires gravou com o mestre no cd e aparecia ao lado dele, nas chamadas da televisão. Mas no dia do desfile, Jamelão fechou a porta na cara do mineirinho.

Com fama de rabugento era o terror das reportagens na concentração dos desfiles. Era comum deixar os repórteres com cara de tacho, depois de suas repostas atravessadas. Indagado pelo global Ari Peixoto, sobre ser o único puxador a não desfilar no chão, foi seco e direto: “Malandro é o gato que come peixe e não vai à praia”. Desconcertado e ao vivo, Ari, se limitou a dizer, “esse é o Jamelão, sempre irreverente”. Outra vez, após a apuração dos resultados e com a verde e rosa, fora dos desfiles das campeãs, ao ser consultado sobre o resultado, disse: “Algum bichinho saiu da arca de Noé”, uma alusão a zebra.

O que poucas pessoas não lembram (ou sabem) é que ele também foi um grande intérprete de samba-canção. Por ser uma figura com identificação tão forte com as escolas de samba, esse lado de sua carreira foi meio esquecido. Lupicinio Rodrigues, “o rei da dor-de-cotovelo”, por exemplo, teve em Jamelão o maior intérprete para suas músicas. Assim como esteve também esteve a frente da Orquestra Tabajara durante um bom tempo.

Voltando aos desfiles. Jamelão afirmava que quem puxava alguma coisa era puxador de carro, carroça ou de fumo, por isso recusava a alcunha de puxador e afirmava sempre que podia que era intérprete, sempre com sua marra habitual, claro. Além de desfilar apenas em cima do carro de som, outra mania de Jamelão era cantar com elásticos na mão. O carnavalesco Max Lopes diz que era superstição do cantor, porém, em 2003 Jamelão dá uma versão mais bem humorada sobre o assunto no programa da Hebe, como podem ver no video acima. “É simpatia mesmo. Porque quando me dão o dindin eu já tenho elástico pra prender”.

Depois, em rede nacional Hebe lhe propõe um selinho. Lembrando a esposa que estava em casa, o baluarte recusou. Era fiel ou não era?

Add comment Junho, 2008

Bruno Villas Bôas/OSAMBA.NET

A elegância do samba de Walter Alfaite

POR EQUIPE O SAMBA. FOTO: BRUNO VILLAS BÔAS

Mestre do samba e da elegância, Walter Alfaite fez na segunda-feira, dia 9, um show ao vivo para o encerramento do documentário “A elegância do samba”, que presta homenagem à geração de sambistas que começaram a fazer sucesso depois dos anos 60. A gravação foi no Lapa 40º.

O show atraiu a presença de bambas como Beth Carvalho, Elton Medeiros, Dorina e Luis Carlos da Vila. O ex-jogador Junior também apareceu por lá, assim como Carlinhos de Jesus. A casa ficou lotada e muita gente assistiu ao show de pé.

Add comment Junho, 2008

Papel de parede

POR EQUIPE O SAMBA

Leitores d’OSAMBA, lançamos hoje a coleção de papéis de parede “Samba com alma”. Os dois primeiros são dos mestres Monarco e Wilson Moreira.

Para conferir, só clicar aqui.

Add comment Junho, 2008

Samba com graça e de graça

POR THALES RAMOS. FOTO: BRUNO VILLAS BÔAS

Não é exagero dizer que no “Rio de Janeiro todo mundo vai de samba”, como cantava Jackson do Pandeiro, de segunda a domingo. Andamos a cidade de ponta a ponta – e mais um pouco – para mapear as rodas e fazer um roteiro que não dói no bolso de ninguém: é tudo gratuito. O mês está começando, programe-se e depois rode a vontade. Na foto, Pedro Ivo, vocalista do Quilombo de Candeia (veja sugestão de domingo).

Segunda-feira

Batuque na Cozinha, Pedra do Sal (Rua Argemiro Bulcão,38 Gamboa. 18 h) - A expressão “cara de segunda-feira” não funciona se você começar a semana na Pedra do Sal, outrora reduto de Pixinguinha e João da Baiana. O grupo Batuque na Cozinha reúne músicos e compositores todas as segundas. “A idéia é cantar alguns sambas que não tocamos em nossos shows, além de reunir alguns amigos para cantar alguns inéditos”, explica André Corrêa, do Batuque. A roda não tem microfone por conta da vizinhança, que volta e meia atira ovos no público. Mas isso em nada abala o bom clima da roda. A cozinha do bar é excelente.

Bip-Bip (Rua Almirante Gonçalves, 50, Copacabana. 20h) - O Bip Bip mantém uma roda de chorinho. O bar é pequeno. As paredes são decoradas com fotos interessantes, de gente da antiga, como João Nogueira e Roberto Ribeiro abraçados com a camisa do “Clube do Samba”. “Comecei isso aqui com ajuda de gente como Cristina Buarque e Elton Medeiros”, diz Alfredo Mello, dono do bar há 14 anos. O Bip bip já teve um livro lançado sobre sua história (“Um bar a serviço da amizade”) e um cd. A renda de ambos foi revertida para projetos sociais que o bar participa.

Terça-feira

Bar Mãe D’água (Praça Leoni Ramos, 7, São Domingos, Niterói. 20h) - O quarteto formado pelo grupo Situkerê faz um som de primeira. A cantora Mônica no vocal só comprova a falta que as mulheres fazem nas rodas, tanto tocando quanto cantando. Ao lado dela, as piadas impagáveis de Almir (pandeiro), além de Joel (sete cordas) e Ernane (cavaco), que já gravou comercial de tv ao lado de Zeca Pagodinho. Pra quem é estrangeiro em Nikiti, a praça onde fica o bar é ao lado da Cantareira.

Beco do Rato (Rua Morais e Vale, 5, Lapa. 20h) - Muitos dos músicos que tocam segunda-feira na Pedra estão por lá. A roda também é levada no gogó. “Quando começamos a roda aqui no beco, queríamos resgatar o clima da Joaquim Silva de dez anos atrás”, diz o percursionista e compositor Mingo, que tem músicas gravadas pelo Batuque na Cozinha e Galocantô. Dando sorte, você presencia duelo de partido-alto (artigo raro nas rodas) entre Baiaco, Chacrinha, Café e Bananada, o faz tudo da casa. Dica: o caldinho de feijão do bar em frente é a pedida.

Quarta-feira

Projeto Samba na Fonte, Pedra do Sal - Voltando à Pedra, tem o projeto “Samba na Fonte”. “A idéia é fazer daqui um celeiro de compositores”, argumenta Ferreira, um dos organizadores da roda, que já teve suas composições nos discos de Wanderley Monteiro e Galocantô. Para o final de abril existe o projeto de um site e um disco, com os seis autores de maior destaque da roda.

Bip-Bip – O simpático bar da zona sul volta ao passado e faz uma roda de Bossa Nova.

Sexta-feira

Beco do Rato - Fique atento ao Beco do Rato na sexta. O pessoal sai do trabalho direto para lá. Depois de certa hora, está todo mundo por conta. Segura a cabrocha pelo pulso e o malandro pela cintura, qualquer piscar de olhos e você perde o par.

Sábado

Buraco do Galo (Rua Dona Vivencia, 97, Oswaldo Cruz. 19 h) - No primeiro sábado do mês, depois da feijoada da Portela, a roda Buraco do Galo tenta resgatar a tradição de compositores de Oswaldo Cruz. Existe há 11 anos e o microfone fica aberto para cada compositor cantar três músicas. O clima é magnífico e familiar. O coral de pastoras já vale a ida ao lugar, assim como o mocotó e a barraca de pastéis, onde você opta pela mistura de recheios.

Feijoada do Quilombo (Rua Ouseley, 710, Fazendo Botafogo) - No segundo sábado do mês tem a feijoada do Quilombo, na Fazenda Botafogo. Tire foto do lado do busto de Candeia, o lugar tem história. Embora seja longe, não é difícil de chegar. É a penúltima estação do metrô, não tem erro. Quem comanda a roda é o grupo Uto Tombo do Quilombo, que tem no banjo Fidélis Marques, primo de Arlindo Cruz e compositor de “Sorriso de um banjo”, sucesso na voz de Jovelina Pérola Negra.

Domingo

Projeto Samba na Praça (Morro São Lourenço, Praça General Rondon, Niterói) - No segundo domingo do mês volte a Niterói e suba o morro São Lourenço. Lá de cima vê-se toda a cidade e a praça onde rola o samba. Tem a igreja São Lourenço, a mais antiga do país, data do século XVII e fundada por Araribóia (também fundador da cidade). Ponto turístico. A barraca da dona Macira é especialista em “comida pesada”, como ela mesma diz.

Baluartes do Turiaçu (Bar do César, Rua Ricardo Silva, 43, Turiaçu) – É no terceiro domingo do mês. O bairro do Turiaçu é uma espécie de sub-bairro de Madureira. Um bairro dentro do outro. Típico samba de subúrbio que fortalece a comunidade, tem no comando Lelei Sabino, Paulo Omar e Cizinho (Velha Guarda do Império), que fecham a rua em frente ao Bar do César e promovem uma dinâmica roda de samba, com homenageados e convidados. O microfone fica aberto a quem quiser dar uma palinha.

4 comments Maio, 2008

Bruno Villas Bôas/OSAMBA.NET

Do lamento à afirmação

POR THALES RAMOS E THIAGO DIAS. FOTO: BRUNO VILLAS BÔAS

Durante anos, a história do negro foi contada na avenida com lamento. “Sublime Pergaminho” (Unidos de Lucas, 1968 ) e “Heróis da Liberdade” (Império Serrano, 1969) viraram hinos imortais assim. Mas a fórmula é contestada por quem sempre brigou pelos direitos iguais, independentemente de cor ou posição social. Como Candeinha (foto), um dos principais discípulo das idéias do mestre Candeia na escola de samba Quilombo. Nem pense em exaltar o choro da raça perto desse senhor de olhos azuis.

“Quando cantamos ‘E o negro jornalista/de joelhos/beijou a sua mão’ ou ‘meu Deus, meu Deus/está extinta a escravidão’, fica parecendo que a Princesa Isabel é uma heroína. E sabemos que não é bem assim”, diz, citando a letra de “Sublime Pergaminho”. Levado para o Quilombo por Nei Lopes em 1979, Candeinha venceu a disputa de samba-enredo logo no ano seguinte, cujo enredo era a obra de Candeia. Com a experiência de três anos como diretor do Instituto de Pesquisas de Culturas Negras (IPCN), ele não poupa nem versos compostos por sambistas intocáveis como Silas de Oliveira. “Não tem como dizer que ‘Heróis da Liberdade’ não é um samba lindo. Mas quando aparece ‘passava noite vinha dia/o samba do negro corria’ é complicado. Chega de lamento!”, pede.

Quando foi fundado nos anos 70, o Quilombo tinha em seu estatuto a obrigação de pesquisar a história dos negros e exaltar seus personagens. A escola teve como enredo nomes até então pouco conhecidos, como Preto Cosme, João Cândido, Luiza Mahin e Luiz Gama. Apesar da postura pioneira de pesquisa, a agremiação de Candeia não foi a primeira a retratar personagens da cultura afro-brasileira. Em 1960, o Salgueiro foi campeão pela primeira vez com “Quilombo dos Palmares”. Três anos depois, repetiu o título como “Chica da Silva” e em 1964 cantou “Chico Rei”.

Se as letras pecavam às vezes pela superficialidade e pela infidelidade ao contexto histórico, devemos levar em conta a época em que foram cantadas na avenida. Falamos de um tempo em que a bibliografia sobre o assunto era precária e os compositores tinham como fonte de informação os livros didáticos das escolas, que hoje, como sabemos, deturpam e omitem fatos básicos da história da África, como o fato do Egito fazer parte do continente.

Candeinha compreende e defende os compositores da antiga. “A informação era ruim. O que sei hoje consegui a base de muitos seminários e leitura”. Em 1984, seu samba venceu a disputa no Quilombo que tinha como enredo a Rainha Agotimé (tema levado pelo Beija-Flor para a Marquês de Sapucaí em 2001). Antes de ler a sinopse de “O Xaxá de Ajuda e a Rainha Mina do Maranhão”, ele nunca havia escutado falar na monarca africana que foi vendida ao Brasil como escrava e instituiu a prática do vodu no Maranhão.

Em 1988, Candeinha viu na avenida parte daquilo que sempre defendeu. Com “Kizomba: festa da raça”, a Vila Isabel foi campeã exaltando Zumbi dos Palmares e pedindo o fim do apartheid. Mas foi da Mangueira a porrada mais forte. “Cem anos de Liberdade, realidade ou ilusão” batia forte contra o lamento: “Livre do açoite da senzala/Preso na miséria da favela”. “Aí já melhorou”, exclama o quilombola abrindo o sorriso, que pode até parecer contraditório com o tema, mas revela a gratidão pela tentativa de acordar o negro.

O carnaval de 2007 teve Porto da Pedra, Beija-Flor e Salgueiro com enredos afro-brasileiros. A primeira falou sobre a África do Sul, falando de Nelson Mandela, segregação e repressão. A escola de Nilópolis ratificou a herança genética africana na composição da história brasileira. Com “Candaces”, a agremiação tijucana foi mais ousada, contando a história das rainhas guerreiras da África oriental que governaram antes da era cristã e com um refrão lindo em ioruba.

Hoje, com várias fontes de pesquisa e uma informação mais qualificada, não há desculpas para os deslizes cometidos nos carnavais passados. Há que se contar a história do jeito que ela foi vivida. Sem lamentos.

2 comments Maio, 2008

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